Contos Histriônicos #6: Prosema do muro esfacelado

(HISTÓRIAS CURTAS SOBRE EXAGERO, INSUFICIÊNCIA E OUTROS ABSURDOS)

Texto Jeison Karnal
Ilustra Emerson Wiskow

(Prosa e poema aos desterrados anônimos velados pela cruz de Santo André)

Muros que garatujam fronteiras. Muros, necessários ao amor desbragado, ao ódio reprimido. Muros, ofensas do silêncio. Muros, apenas muros, de pedra, altos, densos, gelados. Cercados todos por muros, cínicos, de lamento, de vida e morte evanescente.

O muro, salvaguarda dos outros, do que escondemos dentro do nosso muro. O muro oco, de pedra e de vazio. O muro, limiar do ego. O muro ao meio-dia, pairando sombra na volta certa do relógio solar.

O muro, frio da noite. Para o rebelde, o muro é a humilhação da polícia. O muro é o apoio do bêbado. O muro, o apoio do pé do modelo que posa em preto-e-branco para o editorial da Vogue.

O muro que provoca o grito quando desaba. Os muros que são totens. Os muros, tabus riscados por spray, mijados por mendigos, foliões. Os muros de Troia, desnecessários, transponíveis pela astúcia. O muro que absorve a luz do holofote na capa de Band on the Run.

Os muros decadentes da Guerra Fria, ruínas a jogar o passado na cara do futuro. Os muros que resguardaram nossos corpos para um longo beijo urgente e decadente. Os muros que salvaguardam loucos e encarcerados, isolam sobriedade e falsa liberdade. O muro que recebe o cartaz do show e a desfaçatez numerada do candidato.

O muro que o caminhão derrubou, casebre a dentro estilhaçado, havia recém sido mobiliado. O muro que é ainda fio de nylon, causa discórdia milimétrica entre vizinhos. Os muros, cimento à vista, descarnados, brinquedos de mira para o pelotão de fuzilamento. Os muros que permitem frestas para os focinhos dos vira-latas. Os muros que abrigam os musgos e a cabeça do operário cansado de erguer os mesmos muros.

O trem, muro que divide a cidade ao meio. Os muros, punhados de tijolos esfarelados, quando o maquinário da Justiça atravessa, como uma flecha o coração feito São Sebastião, desfazendo em pó a casinha invasora. Os muros do palácio, escalados por bolcheviques. Os taludes que não deixam de ser muros para o fluxo do esgoto da cidade.

Os muros erguidos em volta da nossa dignidade, nos deixando de fora. Os muros diáfanos, passos apertados pela Rua Tiradentes, cúpulas a isolar cada pedestre no devaneio hostil de suas neuroses.

Os muros que sustentam a guerra, trincheiras urbanas; cada soldado é a guerra, cada muro é a solidão de pedra. Os muros, necessários à guerra, os muros de crânios empilhados feito um troféu de caça. Mais cedo ou mais tarde muros viram escombros, corpos viram muros silentes, orgulho e heroísmo viram declínio.

É algo que tem colocado engenheiros egípcios da Trensurb — e autômatos pós-modernos — a refletirem sobre a aporia, a mística das pirâmides… se os muros… se as represas de esperança, se os escravos e as vaidades… se as tumbas e amores renunciados… se todo esse tempo arruinado por tolices sagradas e incertezas pétreas… seriam capazes de projetar outra quadrela flutuante… tornassem o desgaste, quem sabe, um monumento à nossa perdição inevitável, templo de libações às vilanias secretas… lugar de respiro, trilhos congelados em julho, estações de passagem… tudo que não fosse uma pena capital imposta a si mesmo, não fosse o desespero num salto no escuro.

Um dia talvez, muro vítreo, vitrine de contemplação para o outro lado da municipalidade… plataforma de trem com raios luminosos em setembro. Um tempo lento que não demande sentenciarmos de imediato nosso próprio desterro… nossa renúncia deste fardo rotineiro antes da hora… nosso embarque compulsório num vagão repleto atravessado por almas vazias e desabaladas.

(Publicado em 31 de agosto de 2018 nos jornais Diário de Canoas, Correio de Gravataí e Diário de Cachoeirinha)