Contos Histriônicos #7: “Galinha não voa, Ritinha”
(HISTÓRIAS CURTAS SOBRE EXAGERO, INSUFICIÊNCIA E OUTROS ABSURDOS)
Texto Jeison Karnal
Ilustra Emerson Wiskow

— E por que então eu tinha que deixar esse bando de galinha vim voar e ciscar no meu terreno, véio babão? — Seu Pedro encravava furioso os dedos no vão da divisória.
— Minhas galinhas, ora! Trinta pila cada, tchê! Se já tivesse arrumado essa porcaria de cerca o teu cachorro não tinha deixado elas nesse guisado! — retrucou Seu Rodolfo.
— Tá mas e se fosse uma criança tua? Tu deixaria um neto teu entrar em pátio estranho com cachorro brabo? Vai se catar! Cuida da tua casa! É culpa minha, agora? — o dedo em riste de Pedro parecia um punhal a poucos centímetros do rosto do vizinho — Agora também vai reclamar do meu cachorro, ô desgranido, porco? Naquela vez que o vagabundo ia limpar tua casa toda ele serviu para acoar, velhaco, não sabe nem arrumar o que é teu…
Rodolfo deu um chute através da cerca. Deu até estralo. — Escuta aqui, ô fedorento… Quem tu tá pensando que é pra me chamar de desgranido e porco… Prende aí esse cusco véio que se ele passar pro meu lado, meto bala!
— Mas é bem capaz mesmo! Tenta, ô frouxo! Só tenta! Azar o te se vai ter que comprar mais galinha! Fica elas por elas pelo chute que tu deu no Tobi aquele vez, ô praga! — Pedro vingou-se com uma cuspida certeira. Quem tava em volta, correu para apartar.
— Segura esse velho, aí o Neide, se não eu vou arrancar essa dentadura do Pedrão fora! — insistia Rodolfo.
— Para! Para! Vocês dois! Infeliz! Eu vou chamar a polícia! Hoje é sábado! A gente trabalhou a semana toda, tem gente querendo dormir! — gritou a vizinha da janelinha. — Ô Neide, não vai fazer nada? Tá virado num capeta! Se o Rodolfo inventa de revidar o teu marido vai parar lá no HPS!
— Fiquem quietas, velhas metidas! Trabalhar da onde se tu só pega umas costuras de vez em quando pra fazer? E essa outra… todo tempo é só fofoca e fofoca! — saia aos berros, Neide, do pátio de casa.
A gurizada começou a se reunir toda em volta e assobiar, enticar a briga, que agora já era duas. Tobi aproveitou o descuido, atravessou de novo para abocanhar o cadáver da galinha que estava ainda pelas voltas da certa danificada. Saiu correndo. Fugiu pelo meio da confusão, respingando sangue por tudo. Pedro e Rodolfo congelaram. Se olharam e decidiram correr cada um atrás de seu interesse. As mulheres tentaram agarrar o cusco pela cauda.
Maldita hora que a Ritinha desembestou de transformar a meia-água em galinheiro, pensou Rodolfo. Seu Pedro continuava lá que nem um gato selvagem com os dedos argolados na cerca, descrente na fuga, precisava era voltar para o mercado. O guri mais novo, Marcos, não sabia fazer nada direito lá no balcão.
O vira-latas havia abocanhado o carteiro duas semanas antes. Deixar a cerca arrebentada era puro relaxamento e alguém tinha que colocar ordem naquela vila. Só que Seu Pedro quando se enfezava perdia as estribeiras e era capaz de bater numa freira. Rodolfo, nem se fala. Não ia ter acerto.
Foi depois de a mãe fechar a portinhola bufando que Ritinha assumiu o posto de vigília. Ela sempre reparava em Marcos. Ele tinha aquele jeitão debochado.
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Horas adiante, Ritinha fez questão de dispensar a companhia da mãe até o mercado do pai de Marcos. A menina tinha completado 17 anos e escolhia uns produtos na prateleira do sabão e da clorofina. Percebeu que Marcos só queria saber de desenhar à caneta perto do vidro das rapaduras. A rapariga deixou cair a cestinha de compras. Ele se assustou com o barulho, deu a volta e foi ajudá-la. Os dois estavam começando a conversar quando apontou na porta ninguém menos que o Seu Pedro, as mãos cheias de sangue. Tinha um facão enferrujado na mão.
— Então taí o véio vagabundo que ficou tirando sarro da minha cara! Segura agora, ô valentão! — ameaçou Seu Rodolfo, chegando na mesma hora com a esposa. — Para, para, para! Vocês vão se matar!, passou a berrar.
Pelas quadrículas das portas, os vizinhos começavam a espiar, de novo. Faltava muito pouco para estourar a confusão definitiva, o que deu azar de acontecer num sábado bem cedo, perto do bolicho. Nessas horas, periga o caldo engrossar e é melhor ficar protegido. Era um tal de cortina abrindo e fechando, uma tensão. No fundo todo mundo queria ver o circo pegar fogo.
No pátio dos Silva, uma galinha estrebuchada quase na divisa do pátio dos Mendes. O cachorro tinha penas grudadas pelo corpo todo, dançando como em um ritual pagão, cheio de carne vívida no focinho. Não tinha sido nada cauteloso em esconder as evidências do novo crime. Rodolfo e Pedro voltaram a se ameaçar, desta vez, sem a cerca, cada um com um facão na mão, testemunhados pelos pedidos tristes e desesperados da família. Era sempre assim, talhaço grande no corpo, naquele vilarejo, era cicatriz de honra.
Marcos e Ritinha queriam viver juntos, desde cedo. A névoa em volta do bolicho subia e o casal aproveitou para tomar a estrada, partir rumo ao desconhecido: a cidade grande. Aquele tipo de confusão voltaria em remorso para os dois eternamente, a cada raiar do sol, a cada cantar do galo dentro da cabeça, a cada atrevimento dos cachorros da vila onde foram morar.
Passar fome em Porto Alegre parecia mais atraente, ainda assim. Ritinha e Marcos se foram para nunca mais voltar, em meio à escaramuça de fumaça que o jato da Fab deixou na fisionomia do céu azul.
— Galinha não voa, Ritinha. Bate asa, grita e não sai do lugar… Vamo embora daqui! — convenceu o rapaz, entre uma estocada e outra na briga dos pais. Ritinha tomou por ofensa aquelas palavras cifradas em certa medida, mas foi embora com ele mesmo assim. Se deu em morte a briga, ninguém sabe.
A sentença ecoava, vívida, real, quarenta anos depois. Ritinha guardou todos os badulaques de Marcos numa maleta dentro do roupeiro velho. Aparou a mão trêmula na bengala e foi repetindo a história pelo menos três vezes no táxi, de casa até o cemitério. O corpo descarnava-se já. O peso das decisões passadas recaíam de novo sobre o colo, indissociáveis. Ritinha foi interrompida pelas turbinas de um caça da FAB, que avistava pela janela do carro. Teve um mal-estar súbito, sensação de nada. Tudo permaneceria além dela, igual, cada cicatriz na pele tinha sido em vão. A poluição tinha agora um cheiro cítrico de despedida. A vida, uma eterna suspensão do voo, a meio caminho do salto desajeitado, a imposição do peso das perguntas, justo aquelas que nunca saberia responder e sempre teria de carregar consigo em silêncio.
(Publicado em 7 de setembro nos jornais Diário de Canoas, correio de Gravataí e Diário de Cachoeirinha)
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