EVIDÊNCIAS CARTESIANAS EM “CHITORÓ”

Jeison Karnal
Nov 1 · 9 min read

(Uma análise da letra sertaneja à luz de “Discurso do Método”, de René Descartes)

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Por jeison Karnal

Não estou caçoando da Filosofia. Nem virando de ponta cabeça a Escola Adorniana (ao sublimar a cultura de massa e “rebaixar” o cânone ocidental). Quero apenas relacionar tempos e espaços distintos. Quero apaziguar a filosofia de mesa de bar, legitimar a sabedoria dos mais ou menos letrados, das construções de pensamento que não têm Lattes e nem se profissionalizam na arte do“Amor ao conhecimento”.

René Descartes parece afinado ao paradigma do populacho que habita em cada um de nós:

(…) afigurava-se-me poder encontrar muito mais verdade nos raciocínios que cada qual efetua no que respeitante aos negócios que lhe importam, e cujo desfecho, se julgou mal, deve puni-lo logo em seguida, do que naqueles que um homem de letras faz em seu gabinete, sobre especulações que não produzem efeito algum e que não lhe trazem outra conseqüência senão talvez a de lhe proporcionarem tanto mais vaidade quanto mais distanciadas do senso comum, por causa do outro tanto de espírito e artifício que precisou empregar no esforço de torná-las verossímeis. E eu sempre tive um imenso desejo de aprender a distinguir o verdadeiro do falso, para ver claro nas minhas ações e caminhar com segurança nesta vida.

Pode um mortal longe da Academia filosofar? (Aqui, parafraseando Spivak).

Já filosofando… o que é o amor? O que é conhecimento? Como se ama o conhecimento? Há um jeito mais verdadeiro que outro de se amar o conhecimento? Quem pode filosofar? Só com amor se chega ao conhecimento? Só com o conhecimento se chega ao amor? O que é mais importante, amor ou conhecimento? As evidências são mesmo evidências ou só nossos sentidos a nos enganar? E se temos a capacidade de pensar uma coisa e dizer outra como acessar a verdade? Existe verdade?

Quando eu digo que deixei de te amar
É porque eu te amo.Quando eu digo que não quero mais você
É porque eu te quero.

O “Discurso do Método”, de René Descartes, é de 1637 (Século XVII). A canção “Evidências” é uma composição de José Augusto e Paulo Sérgio Valle de 1989 (sucesso dos Anos 90 com a dupla sertaneja Chitãozinh&Chororó — a canção “viralizou” no fim da primeira década do século XXI). As obras estão separadas por 352 anos e pelo Oceano Atlântico. Questões geográficas e políticas se entrelaçam nos resultados do problema posto. A verdade é um ponto de vista.

Uma obra peitou a filosofia aristotélica e deu “a morta” para Kant. A outra virou febre em vídeokes e se tornou um bordão a ser evocado toda vez que alguém desliza, e menciona a palavra “evidências” durante uma conversa.

De acordo com o Priberam Dicionário online:

e·vi·dên·ci·a
(latim evidentia, -ae, evidência, visibilidade, clareza)

substantivo feminino

1. Qualidade de evidente; certeza manifesta.

2. O que serve para demonstrar ou esclarecer um .fato, uma causa ou uma verdade (ex.: evidência científica; evidências estatísticas). = PROVA

“evidencia”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008–2013, https://dicionario.priberam.org/evidencia [consultado em 01–11–2019].

Cogito Ergo Sum

“Penso, logo, sou”, escreve Descartes. O famoso “Cogito Ergo Sum”. De nada temos certeza, os sentidos nos confundem (mas que “somos algo” temos alguma certeza, em especial, porque o pensamento nos forma e conforma). Já a música traz num dos versos “ tenho medo de pensar em te perder”, o Eu Lírico dos Chitoró é um racionalista também: , está subjetivando no presente, conjectura um cenário, vê-se sozinho sem a pessoa amada no futuro, e isso não lhe apetece. O corpo, portanto, não é capaz de aprisionar essa mobilidade espacial do cogito.

Vamos ao excerto cartesiano do “penso”:

Logo em seguida, adverti que, enquanto eu queria assim pensar que tudo era falso, cumpria necessariamente que eu, que pensava, fosse alguma coisa. E, notando que esta verdade: eu penso, logo existo [sou], era tão firme e tão certa que todas as mais extravagantes suposições dos céticos não seriam capazes de a abalar, julguei que podia aceitá-la, sem escrúpulo, como o primeiro princípio da Filosofia que procurava. Depois, examinado com atenção o que eu era, e vendo que podia supor que não tinha corpo algum e que não havia qualquer mundo, ou qualquer lugar onde eu existisse, mas que nem por isso podia supor que não existia (…)

De uso da lógica sabendo dos seus limites perceptivos de Homem, Descartes segue 13 preceitos, na segunda parte, em que trata do indivíduo que foi talhado por muitas obras ao longo do tempo (e que está preso no racionalizar sobre pré-conceitos). Descartes busca desbastar o mundo, diferenciar o “falso do verdadeiro”. Ao mesmo tempo, pensa adotar uma “moral provisória” para não radicalizar e romper com tudo de uma vez só (Deus tinha lugar garantido na sua filosofia):

O primeiro era o de jamais acolher alguma coisa como verdadeira que eu não conhecesse evidentemente como tal; isto é, de evitar cuidadosamente a precipitação e a prevenção, e de nada incluir em meus juízos que não se apresentasse tão clara e tão distintamente a meu espírito, que eu não tivesse nenhuma ocasião de pô-lo em dúvida.

É neste trecho que o “Eu Lírico” de “Evidências” faz sentido dentro da proposição metafísica sertaneja aqui apresentada. Existe algo no observador que deixa a “verdade” exterior nublada. A razão luta desesperada com o coração, os argumentos tentando se sobrepor aos fatos. “Eu sei que te amo”, todos os fragmentos do “objeto” que se apresentam ao narrador são congruentes com a definição de amor. Ele reconhece isso, constrói um pensamento lógico, mas sua porção “inferior” parece se impor:

E nessa loucura de dizer que não te quero
Vou negando as aparências
Disfarçando as evidências
Mas pra que viver fingindo
Se eu não posso enganar meu coração
Eu sei que te amo

Colemos o trecho “Chitoroziano” a um fragmento cartesiano, abaixo:

Embora vejamos o sol mui claramente, não devemos julgar por isso que ele seja, apenas, da grandeza que o vemos; e bem podemos imaginar distintamente uma cabeça de leão enxertada no corpo de uma cabra, sem que devamos concluir, por isso, que no mundo há uma quimera; pois a razão não nos dita que tudo quanto vemos ou imaginamos, assim, seja verdadeiro, mas nos dita realmente que todas as nossas idéias ou noções devem ter algum fundamento de verdade; pois não seria possível que Deus, que é todo perfeito e verídico, as houvesse posto em nós sem isso.

Descartes recomenda prudência. “Recomenda” é a palavra, pois “Discurso do Método” parte das conclusões pessoais de Descartes e não um postulado universal do filósofo. Vamos tentar entender a letra viral da dupla brasileira, num canhestro exercício de Literatura Comparada. Primeiro Descartes, depois os Chitoró:

Pois, enfim, quer estejamos em vigília, quer dormindo, nunca nos devemos deixar persuadir senão pela evidência de nossa razão. E deve-se observar que digo de nossa razão e de modo algum de nossa imaginação, ou de nossos sentidos. (…)

Em tese, a voz que se expressa em “Evidências” dissimula, por estar em conflito, tem medo de amar, de perder a razão (o penso). Há também a possibilidade de ela estar equivocada na percepção do amor que “deveras sente”. Ou confusa. Vive, no entanto, no império da razão cartesiana, quando da habilidade de fingir sobre a própria subjetividade, fazendo “tipo”, manifestando uma mensagem diferente. Descartes já no preâmbulo do livro falará da “diferença da nossa alma para a dos animais”. É sabido que os bichos expressam o que sentem de forma bem mais contundente e direta. Em “Evidências”, tudo é mais complexo que o animalesco instintivo de copular, agredir, se defender e caçar o próprio alimento:

Faço tipo, falo coisas que eu não sou
Mas depois eu nego
Mas a verdade
É que eu sou louco por você

Num livro policial, “evidências” não são provas. Servem justo para confundir o leitor, conduzi-lo por um lado e depois aclarar o mistério de forma inesperada, ao final da narrativa. São peças soltas pelo caminho que tanto podem ter uma coerência quando unidas quanto, em perspectiva, denotar algo que conjugado não possui qualquer lógica. E o vilão sempre pode colocar uma pista falsa pelo caminho. O Eu Lírico da canção junta peças dos próprios sentimentos e tenta dar sentido ao que é esparso. O núcleo dessa confusão afetiva manifestada ao longo da canção pode estar nos versos aqui descritos:

Eu tenho medo de te dar meu coração
E confessar que eu estou em tuas mãos
Mas não posso imaginar
O que vai ser de mim
Se eu te perder um dia

Há um contraste barroco entre o que vem à luz em ação e o que permanece à sombra na subjetividade deste narrador em conflito romântico: deixei de te mar/porque te amo; me afasto, me defendo/depois me entrego.

O Eu Lírico teme se “alienar”, de estar “vendido no lance”, de não ser mais dono de si e da própria razão. Está fora da lucidez, ao mesmo tempo, se arroga a capacidade de distinguir real e imaginário. Em busca da verdade, reconhece sua porção de mentira. Claramente, no entanto, só manifestará o real estado de espírito se a outra parte confirmar a correspondência de afeto e essa se comprometer com o modelo mental que transparece na voz que conduz “Evidências”:

Mas a verdade
É que eu sou louco por você
Diz que é verdade, que tem saudade
Que ainda você pensa muito em mim
Eu sei que te amo!
Chega de mentiras
De negar o meu desejo
Só quero ouvir você dizer que sim!

Para concluir, Descartes explicaria a canção popular assim:

Pois é uma coisa bem notável que não haja homens tão embrutecidos e tão estúpidos, sem excetuar mesmo os insanos, que não sejam capazes de arranjar em conjunto diversas palavras, e de compô-las num discurso pelo qual façam entender seus pensamentos; e que, ao contrário, não exista outro animal, por mais perfeito e felizmente engendrado que possa ser, que faça o mesmo. E isso não acontece porque lhes faltem órgãos, pois vemos que as pegas e os papagaios podem proferir palavras assim como nós, e todavia não podem falar como nós, isto é, testemunhando que pensam o que dizem; ao passo que os homens que, tendo nascido surdos e mudos, são desprovidos dos órgãos que servem aos outros para falar, tanto ou mais que os animais, costumam inventar eles próprios alguns sinais, pelos quais se fazem entender por quem, estando comumente com eles, disponha de lazer para aprender a sua língua. E isso não testemunha apenas que os animais possuem menos razão do que os homens, mas que não possuem nenhuma razão. Pois vemos que é preciso muito pouco para saber falar; e, posto que se nota desigualdade entre os animais de uma mesma espécie, assim como entre os homens, e que uns são mais fáceis de adestrar que outros, não é crível que um macaco ou um papagaio, que fossem os mais perfeitos de sua espécie, não igualassem nisso uma criança das mais estúpidas ou pelo menos uma criança com o cérebro perturbado, se a sua alma não fosse de uma natureza inteiramente diferente da nossa.

Ao mesmo tempo, Descartes valoriza o espírito do Homem, sua complexidade, o que ajuda a explicar porque o Eu Lírico em “Evidências” faz tanto “doce” e “jeitinho”, em vez de se entregar à paixão arrebatadora. Há um demarcador entre nós e os seres instintivos. No nosso “penso”, relacionamos passado, presente, futuro, fazemos projeções e traçamos probabilidades. No amor é quando hesitamos. Essa perturbação do ser lógico nos faz acionar mecanismos de defesa. Somos mais que um papagaio ou relógio. Temos espírito:

E não se deve confundir as palavras com os movimentos naturais, que testemunham as paixões e podem ser imitados pelas máquinas assim como pelos animais; nem pensar, como alguns antigos, que os animais falam, embora não entendamos sua linguagem: pois, se fosse verdade, porquanto têm muitos órgãos correlatos aos nossos, poderiam fazer-se compreender tanto por nós como por seus semelhantes. É também coisa mui digna de nota que, embora existam muitos animais que demonstram mais indústria do que nós em algumas de suas ações, vê-se, todavia, que não a demonstram nem um pouco em muitas outras: de modo que aquilo que fazem melhor do que nós não prova que tenham espírito; pois, por esse critério, tê-lo-iam mais do que qualquer de nós e procederiam melhor em tudo; mas, antes, que não o têm, e que é a natureza que atua neles segundo a disposição de seus órgãos: assim como um relógio, que é composto apenas de rodas e molas, pode contar as horas e medir o tempo mais justamente do que nós, com toda a nossa prudência.

Resumindo: a razão do Homem pode pouco ante os comichões do amor. E quem pensa não casa, dizem os que casam e não pensam e os que não pensam e casam — e os que nem casam e nem pensam.

(Canoas, 1/11/2019)

Jeison Karnal

Written by

jornalista literário do Diário de Canoas (RS), autor de O Negociador de Reféns e Os Negociadores de Reféns, especialista em Literatura, mestrando na UFRGS

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