Ganidos de um cão fiel

(Yappings of a loyal dog)

“Afeiçoava-se ao vira-lata, aproximara-se dele àquela sensação ingrata de que alguma coisa teria que ser feita e azar dele ter parado para encontrar mais problemas fora os que ele já empilhava dentro de si”

Texto Jeison Karnal
Ilustra Emerson Wiskow

(Um estudo de narrativa em Ouroboros — enumeração caótica e fluxo de consciência)

Dos irmãos nunca mais reconheceu o cheiro rançoso da pelagem encharcada, aqueles pontinhos d’água no vidro da janela encobriam o próprio futuro, uma cortina diáfana, ao mesmo tempo reveladora e claustrofóbica, como em um submarino os ganidos magros misturaram-se à madrugada chuvosa, aos grilos, sapos e gatos vagabundos imitando bebês, as gotículas na janela eram óculos a interpretar, num obrigatório silêncio de hospital, suspiros nos batentes, a levar e trazer a ressaca das ondas dum mar distante, na verdade, carros pelo asfalto da avenida, arranhões no portão, outros tantos uivos de vira-lata (os irmãos não respondiam) e vasos estatelados no pátio fizeram acesas as luzes da casa, abertas as venezianas e expulsas as fantasias do travesseiro do dono, voltava para a cama, apresentava o braço esquerdo, empunhava o celular, o cão retraiu-se à primeira pancada, pediu perdão com a cauda recolhida, voltou a roçar as pernas do algoz com carinho, foi repelido, rosnou e apanhou mais o paciente saia de perto da janela, digitava e enviava todas as esperanças àquela mulher, sem receber qualquer resposta.

“Ele viu que o cão além de velho tinha sido criado preso e nem tinha aquela malandragem dos bichinhos de rua que furam sacolas atrás de comida e escalam portões para namorar”

Da noiva nunca mais recebeu as confidências ou as visitas de compaixão desde o surto, o alaranjado da pelagem esmaecia-se por entre as costelas, a juba leonina, outrora um crisântemo oriental, vivaz, imperial, despencava da cabeça por falta de vitaminas, medo nenhum causava um cachorro de tal aspecto com o olho direito vazado, escondido em uma casinha repleta de goteiras, a calma dos remédios, momentânea, adormeceu as frustrações, o choro ressequido emudeceu após longo tratamento psicológico, o cachorro tinha nenhum amor próprio, pois avistou o dono pela manhã e o seguiu até a garagem, tentando lamber-lhe os sapatos, se não foi curado estava tão dolorido quanto qualquer outro pela rua, o que não deixava de ser bom, pois já podia ir para casa lamentar o passado, ignorar o presente e pensar que estaria muito velho no futuro, o dono acertou-lhe um outro coice antes de seguir ao trabalho, apressado, animalizando-se um pouco mais pelas frustrações, o homem saiu de carro raivoso acelerando, deixou o portão aberto, na porta do hospital parou com a mochila a tiracolo no ombro direito, olhou para os dois lados sem ter muitas escolhas afora as imediatas de arranjar um novo lugar para dormir e o vira-lata aproveitou a chance e seguiu o faro impregnado nas pedras da calçada, atordoado, viu-se em meio a uma torrente de pernas de um lado a outro e encolheu-se perto de um muro caminhou enganado em direção ao apartamento da noiva, atinou-se da confusão e entrou em uma padaria o cão sentia um cheiro de comida e arriscava-se por aquele caminho, um aroma bom que ia se intensificado, entranhando e fazia o animal ficar sentadinho em frente à padaria raspando a cauda de um lado para o outro nas pedras do passeio terminou a torrada, passou o guardanapo nos lábios, agarrou da mochila e viu o cachorro, mas antes dele o dono do estabelecimento que gritou um “sai, cachorro”, prontamente obedecido pelo pobre bichinho o cão seguiu em um caminhar preguiçoso, perdido, sem saber os limites do meio fio, invadiu um pouco o asfalto, um fusca buzinou, o animalzinho retornou ao passeio, guiou-se pelo assobio ele viu que o cão além de velho tinha sido criado preso e nem tinha aquela malandragem dos bichinhos de rua que furam sacolas atrás de comida e escalam portões para namorar mantinha resquícios de imponência da raça original e era afugentado quando resolvia acompanhar os passos de algum pedestre, se pudesse falar, teria dito que precisava ser levado para casa, pois o cheiro de tapete molhado dos irmãos perdia-se na memória das narinas, porém a fragrância raivosa do dono estava forte e era a sua referência de sobrevida resolveu assobiar com mais convicção para o cachorro, esse parecia um tanto surdo e ele precisou elevar a voz em um “vem, cachorrinho, vem”, até que o vira-lata desgrenhado chegou até ele, obrigando-o a se abaixar para afagá-lo não sentiu na mão daquele homem o cheiro de lar, mas retribuiu o cuidado com algumas lambidas e o homem ainda colocou-lhe um pedaço de pão na boca o qual abrandou um pouco a fome afeiçoava-se ao vira-lata, aproximara-se dele àquela sensação ingrata de que alguma coisa teria que ser feita e azar dele ter parado para encontrar mais problemas fora os que ele já empilhava dentro de si, não tinha mais nem onde passar a noite e carregava mais um peso, um cachorro velho daquele tamanho, que nenhuma pensão permitiria manter o cão não tinha propriamente uma memória só o que tinha aprendido era que era preciso tomar alguns chutes e ouvir alguns gritos antes de poder ganhar alguma comida e dormir dolorido na casinha e se ganhou o alimento faltou ainda a humilhação, que ele nem sabia o que era, isso é tradução que não lhe ocorria ficava impressionado e desiludido em sentir tanta pureza em um bicho tão burro e a noiva traidora não se contentava com a falta de orgulho e ambição dele e as ansiedades que o faziam tomar remédios, ouviu a buzina, o barulho de pneus, parando bruscamente, abandonou o afago estranho, sentiu o cheiro do dono e balançou a cauda, feliz, o dono gritou “passa já para dentro, cachorro” sorriu para o motorista, elogiou o bichinho, despediu-se, viu aquele vira-lata entrar no carro sem hesitar, mais calmo, foi atrás de um lugar para passar a noite o cão inquietava-se no banco durante o trajeto para casa, irritava o dono, tomava safanões e tudo o que fazia era colocar a cabeça para fora da janela do carona deixando a língua chacoalhar ao vento, tal um bambu, na mais idiota e ingênua expressão de felicidade.

(Publicado no Jornal Diário de Canoas em 26 de maio de 2017)