Mamãe Vera,

Acordei um dia com a chuva batendo no vidro da janela. Tinha os olhos abertos. Reconheci luzes, formas, movimentos, cores. Estava ali embrulhado num cobertor quente. Choraminguei como uma rã escondida no capim úmido na escuridão da noite. Foi o dia em que meu próprio corpo me disse as primeiras palavras sobre estar vivo. Percebia a luz das coisas, mas o verbo para mim estava longe ainda de dançar sobre a minha língua. Despertei. Tua maternidade me acalentou, alimentou. Não existia Deus. Não precisava da abstração de Deus. Precisava de ti, imperfeita, humana. Mãe de todas as coisas sobre a Terra, mãe dos leões e dos ventos. Feminino transcendente.

Aos 40 anos, ouço a chuva repetitiva na janela. Estou no quarto em meio as cobertas. À certa altura da vida, o verbo já machucou tanto. Foi calado por sabedoria ou por intimidação alheia. Os movimentos da vida ainda me assustam, mamãe. Tantas luzes novas todos os dias. A barba fica branca e o vento serpenteia no meu ouvido. Ele sussurra os mesmos conselhos, as mesmas advertências que linhagens e mais linhagens de Mães Terra ensinaram para ele. Talvez seja o eco da tua voz na minha cabeça. Não é Deus.

Mamãe Vera,

Tenho que trabalhar, pegar metrô encontrar algo nos dias escuros e claros da vida, algo que verbo humano nenhum alcança. É que a vida não é para se dita, nem por Deus.

Toda mãe, no fundo, é incompleta depois do parto. Porque filho nenhum é o pedaço da mãe. Filho é outra coisa, outra vontade de Deus. E fica lá a mãe coitada sem aquele pedaço.

Queria ser mais que filho agora. Um filho mãe da própria mãe. Um filho que suportasse o peso da vida, da própria e a da mãe. O Deus que cria mais que o verbo, porque ser capaz de dizer não é ser capaz de fazer.

No fundo, ser filho é ser incompleto. Não há um filho na Terra capaz de ser mãe de sua mãe do mesmo jeito que ela foi. Por isso somos pais e mães de outros filhos. Temos que ser imprecisos de nosso próprio jeito. Nunca serei a minha mãe.

Mas eu tenho o vento que sopra na minha orelha. São os assombros de todas as mães do passado. O vento que recomenda, coloca as certezas a rodopiarem feito folhas no temporal.

No princípio fez se o verbo porque dizer é mais fácil que fazer, mamãe.

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