O inferno da Avenida Lexington
(Lexington Avenue’s Abyss)

Texto de Jeison Karnal
Arte de Emerson Wiskow
Lavei a pedrinha em água corrente. Na palma da mão, um brilho verde de esmeralda. Enrolei num chumaço de gaze. O casulo de seda murcho dentro da cuba; a vesícula de Marilyn Monroe.
Ao lado dos instrumentos cirúrgicos, Marilyn sonhava com Norma Jeane e eu sonhava com o vestido esvoaçante da Avenida Lexington.
O talho do lado direito da barriga assinava o meu trabalho. Procedimento simples. Deixei o bloco e levei a relíquia até uma loja de penhores. A transação do souvenir me custaria o descredenciamento e algumas semanas de prisão. Marilyn a mulher de papel em minha parede. Almoçávamos e dormíamos juntos. Soube da overdose pelo rádio da guarda.
A notícia perpassou a cela, apunhalou meu peito. Paguei a fiança. Comprei flores. Derrubei uma garrafa de whisky barato em frente à banca de jornal. Caminhei até o cinema. Por volta da meia-noite, eu era o único dentro da sala. Marilyn reaparecia, incólume. Me senti péssimo. Norma Jeane condenada à juventude eterna.
Com um bisturi, invadi a sala de projeção. Sangrei o pescoço do funcionário até que nos deixasse a sós. Marilyn Monroe, um espectro cinematográfico. Depositei as rosas brancas ao pé da tela. Despontavam os créditos.
Retornei ao inferno anônimo, doentio e solitário da Avenida Lexington. Joe DiMaggio e eu lutamos até a morte. Sirenes de polícia atravessaram a noite. A bílis de Marilyn no frasco de Chanel número 5 encharcava de lágrimas o meu casaco.
