Pizarro e o assassinato em Machu Picchu

(Pizarro y asesinato en Machu Picchu — Pizarro and the Murder on the Terraces of Machu Picchu)

“Desenrola de um tecido de algodão pima uma adaga de pedra serpentina cinza. O cabo traz esculpida a trilogia Inca: puma, serpente e condor.”

Texto de Jeison Karnal e ilustra de Emerson Wiskow

Turbulência. 
Pizarro sobrevoa o Alejandro Velazco Astete, na cidade de Cusco, em uma manhã de verão. 
Inti, o deus do sol, testa a fuselagem do A319. Golpeia-o com centelhas amarelas, contorce o metal do Avianca, brinca com a miniatura de colecionador. 
Na poltrona, Pizarro cola-se à bagagem. Dança de nuvens perdidas entre labirintos de montanhas andinas. 
Pizarro não pode se dar ao luxo de morrer: deve matar um homem na terra dos incas.

A aeronave circunda o umbigo de um gigante bronzeado. 
Inti entedia-se, rege as forças da natureza, permite enfim o pouso de condor. Viva El Peru glorioso! exalta o entalhe nas pedras. Na pista, Pizarro respira aliviado, ainda que a altitude oprima-lhe os pulmões.

Entre as dezenas de caixas de fósforos enferrujadas e motorizadas na saída do aeroporto internacional, um Daewoo Tico “segunda mano” prata, anos 90, aguarda o matador de aluguel.

Um andino pequeno, nariz adunco e chullo arco-íris na cabeça, agarra uma cartolina com o nome do cliente estrangeiro. Tonto, Pizarro atende de sobrolhos, arrasta a mala para encontrá-lo. Precisa ser amparado pelo condutor. Garcilaso, o taxista, tira um saquinho verde de um dos bolsos da jaqueta preta de courvin:

Tome, señor, é uma hoja de coca, oferece-lhe o peruano, em um esforço de portunhol – Bienvenido, no masque, morda e deixe o suco soltar-se em la mejilla.

Assim Pizarro procede, curvando o pescoço como uma lhama arredia. Do banco traseiro do pequeno automóvel em movimento repara nas pedras das construções de Cusco, nas paredes velhas cor de areia.

Desembarca perto da Plaza De Armas. Despede-se de Garcilaso. 
O quéchua do táxi parte com alguns soles no bolso, sem avisar o quão árduo será o caminho a pé. Um cholo oferece macoña. Pizarro recusa. Pela estrangulada Calle Chihuampata, no distrito de San Blas, vence cada passo enfraquecido. Odor de cominho exala das janelas. Faz check-in no casarão colonial, paga, adentra o quarto do hostal.

O matador joga-se na cama, dorme por 15 minutos. Letárgico, ergue-se de novo para cumprir a tarefa. Acerca-se da mala, perto do roupeiro. Inspeciona o forro. Toritos de Pucará a observá-lo do telhado vizinho, através da janela. Com um canivete, Pizarro rasga o nylon. Desenrola de um tecido de algodão pima uma adaga de pedra serpentina cinza. O cabo traz esculpida a trilogia Inca: puma, serpente e condor. Depois de mirá-la contra a lâmpada, acomoda a arma no cinto às costas e sai. Desce a Chihuampata até a catedral, atravessa o Arco de Santa Clara. Segue pela rua de mesmo nome, dobrando na Cascaparo, em marcha decidida.

Olhos de Boi

Mercado Central de San Pedro. A ruína de um vendedor de flautas-de-pã. Pizarro sente espetar-lhe nos músculos uma dor de vingança, vendeta comprada por um turista traído, cliente sem rosto. No mesmo instante, o sorriso largo e os poucos dentes de uma velha cholita – os dianteiros emoldurados por prata:

Papi, queres comprar uma muñequita? Ah… por favor?

A indígena de tranças agarra-lhe as mãos. Pizarro desvencilha-se com a pressa da morte no relógio:

Papi morre hoje…, balbucia a mulher, antes de ser repelida com asco pelo assassino.

Em outro corredor, um cholo de jaleco branco instiga Pizarro a beber Chicha de maíz Blanco. Pizarro refuta, arrepende-se, cede. Agarra de uma dose, mais outra, até fechar cinco. Entorna a fermentada bebida dos deuses incaicos até sentir-se ele mesmo um deus da morte.

Trôpego, está disposto a completar sua missão. Desvencilha-se dos turistas pelos corredores, apoia-se nas bancas de frutas coloridas. A vista embaçada confunde os mil olhos desafiadores perto das balanças, cabeças expostas de bois no açougue ao ar livre.

Pizarro desembanha a adaga e corre para desferir cutiladas desajeitas em montes de carne – corações escarlates, veias e artérias amarelas. Todos em volta sorriem e fotografam. O assassino termina por desabar seus 90 quilos sobre as peças, fazendo carniceros arrancarem os cabelos, ante o prejuízo iminente.

O rosto de Pizarro está manchado de vermelho. Serve-se das vísceras como travesseiro. Antes que apague por completo, é arrancado pelos cabelos, surpreendido pela agudeza da faca inimiga em um dos rins. A estocada certeira em Pizarro deixa-o vertendo sangue, a fazê-lo escorregar lento até o piso. Sirenes e gritos preenchem a dança tétrica do sacrifício do matador.

Com as mãos trêmulas, em fuga, o peruano vendedor de flautas-de-pã desvencilha-se da arma do crime pelo caminho. Corre mirando o céu, agradece a Inti, limpando as mãos na calça. Galanteador, embarca num táxi Daewoo Tico e escapa da polícia, rumo ao Vale Sagrado. Antes do solstício de inverno, o mesmo peruano será jogado das Terrazas da cidade perdida de Machu Picchu pelo motorista Garcilaso, taxista e traficante de relíquias pré-colombianas — ex-capanga do misterioso chefe de Pizarro. O vendedor sequer tem tempo de arrepender-se por ter desejado (e profanado) o corpo da mulher do mafioso (dois dias inesquecíveis de serviços turísticos que o levariam mais cedo ao berço dos ancenstrais sagrados, cinco anos depois).

Um jornal da região de Águas Calientes descreve rebuscado o derradeiro mergulho no Rio Urubamba: “Uma morte encoberta pelo véu da neblina espessa enviada pelo soberano Pachacútec” (Desculpe se não fui preciso no relato da reportagem. Estávamos no trem Hiram Bingham, eu estava enjoado. Pode ter sido mais curto, como a vida de um assassino. Ou talvez mais sinuoso, como um assobio soturno que ainda ecoa frio e cortante pelo Vale Sagrado).

(Publicado no Jornal Diário de Canoas na edição de 14 de abril de 2017)