Rovelli: caso de amor, além do físico

Professor “em Loop” vendeu mais livros que 50 Tons de Cinza na Itália, em 2014

“A luz é feita de grãos, tudo é quanta, como o meu blusão é feito da trança de fios.”

O físico italiano Carlos Rovelli é o professor que qualquer aluno sonha ter. Bem humorado, apaixonado pela ciência, didático. Em um mundo repleto de certezas e dogmas, o cientista abre o flaco da dúvida, rompe as amarras para complicar, instiga às perguntas certas. Descabelado, com roupas do dia a dia, fala em inglês cheio de sotaque. Ainda assim, ele subiu ao palco do Salão de Atos da Ufrgs na última segunda-feira como principal atração da noite de abertura do Fronteiras do Pensamento 2017 (Porto Alegre — RS).

Professor nas Universidades de Marselha e Pittsburgh, Rovelli tem um verdadeiro caso de amor com a Física. Talvez isso explique o sucesso de vendas do livro Sete Breves Lições de Física e o arrebatamento do público leitor, transformando a complicada ciência em best-seller. Acredite: em 2014, a publicação dele desbancou, na Itália, o sadomaso Cinquenta Tons de Cinza. Em vez de chicotadas, o que vendeu foi a busca por sensações transcendentes. Em vez do prazer dos olhos vendados, o abrir sensorial para a imensidão do universo fora de si. 
O ídolo de Rovelli é das antigas. Não deixou nada escrito: é Anaximandro, que estudou a natureza, o ciclo da chuva e desafiou deuses gregos ao buscar respostas racionais para fenômenos. O mestre de Rovelli foi além da explicação de céu em cima e terra embaixo. Rovelli também espera ansioso pela comprovação das teorias que desenvolve, a tal gravidade quântica em loop. “Não existe um único relógio que marque o tempo de todo o universo”, enfatiza. “A luz é feita de grãos, tudo é quanta, como o meu blusão é feito da trança de fios.” Segundo o professor italiano, o futuro possivelmente nos reservará uma relação complexa com o espaço-tempo de Eistein, a ponto de ser um conceito rotineiro de colégio.

Se Anaximandro desafiou o estabelecido no tempo antigo, Rovelli enfrenta o encastelamento acadêmico. O que comprova desde já é que é preciso fazer as perguntas certas e também as erradas, algo que um bom professor na sala de aula pode instigar. É aí que o mestre se torna um deus ambíguo. Num Deus supremo religioso, Rovelli descrê. Tende mais para a busca de um deus misterioso que questiona suas próprias obras em nome da ciência e que considera seus feitos — e os de seus alunos — mais importantes que uma crença ensimesmada adornada de busca por poder.

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