Um conto de carnaval

(A carnival tale)

Texto de Jeison Karnal e ilustra de Emerson Wiskow

O dono do clube Babilônia liberou um convite para o baile da Terça Gorda. A única exigência era que me passasse por rei momo. Ganhei até a fantasia. Equilibraria uma coroa dourada, desfilaria uma bata cheia de lantejoulas e arrastaria uma capa vermelha. Dias antes, “alemão Stingue” se aproximou dizendo que o diretor da cadeia, Doutor Aguilhão, queria me indultar uns dias para o carnaval. Não achei estranho, pois o doutor era também o dono do Clube Babilônia. Serviço mais fácil do que eu pensava: tinha que subir ao palco e sambar com uma passista, uma tal de Saturnália. O verdadeiro rei teve problemas gástricos. Não tinha substituto.

Chegou a Terça Gorda. Comi e bebi feito um sangue azul. Súditos jogavam confete enquanto eu atravessava o salão. Subia agora as escadas para dançar com a morena misteriosa. Engraçado, um rei que chegou ao baile direto do presídio.

Assobios, rufar de tambores. Antes que pudesse dar aquela pegada na cintura da passista, dois integrantes da bateria pularam em cima de mim e me algemaram.

Dr. Aguilhão levou um sossega-leão do garçom perto do bar enquanto Saturnália vestia um robe e elogiava a Operação Esquindô, empunhando um distintivo. Delegada linha-dura, a tal da Saturnália.

(Publicado no Diário de Canoas em 24/2/2017)

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