Grito

Não sou fetiche
Não sou um pedaço de carne
Não preciso da sua buzina pra me sentir bonita
Muito menos do seu "fiu-fiu"
E desejo que ao virar seu pescoço 
Para apreciar minha bunda
Ele se parta ao meio
E com ele
Parta seu olhar faminto
Por comida
(Que não é de arroz e feijão)

Nunca gostei de brincar de esconde esconde
Pra você me esconder dos seus amigos
E muito menos da sua família
E de você mesmo
Se acha que minha forma 
Minha cor
Meu cabelo
Minha classe social
Não se encaixa à sua
Compre um quebra-cabeça, quem sabe ele encaixa?

A noite
Tenho vontade de apreciar a Lua
Andar tranquila na rua
Mas sua sombra me amedronta
Só penso em fuga
Esqueço a Lua
Perco os sapatos
Corro pra casa, lá me sinto segura

Senhores patrões
Não sou puta 
E mesmo se fosse
Não te daria o direito de me apalpar sem meu consentimento
Porque o salário dele é maior que o meu
Se fazemos o mesmo?
Não entendo

Quero usar shortinho, sainha, blusinha, vestidinho
E não, não é um convite
Porque aqui
Só entra quem convido

Sua voz é grave e ácida
Ácido que queima
Meu rosto
Voz que anula meu cérebro
Quando você só vê meus peitos
Mas a minha voz é aguda
E sabe gritar
Gritos de socorro e de protesto

Meu colo
Ao mesmo tempo que faz a cria ninar
Trabalha, lava, passa, cozinha
Lava suas cuecas
E paga os pecados
E as contas
Coitada da Amélia
Que carrega o peso de ser mulher de verdade

Naquela discussão
Você apertou meu braço 
E me deu um chacoalhão
Você pode ter mais força
Mas não é mais forte
Pois sou eu que aguento o tranco
Todo dia

Não sou playground
Tampouco saco de pancada
Não sou tua
Sou minha
Sou mulher
E isso não é um peso
É um alívio
Só falta o respiro