Da onde vêm os nossos conceitos de o que é bonito e o que é estranho?

“substituto”

A relatividade da percepção de o que é belo e o que é feio, de o que é normal e o que é estranho e o teste a sangue frio dos nossos limites entre o escatológico e o “apenas” biológico são as principais marcas da exposição ComCiência, da artista australiana Patricia Piccinini, que fica em São Paulo até o dia 04/01 no Centro Cultural Banco do Brasil, no Centro. Entrada gratuita.

A hiperrealidade (quase assustadora) que ela imprime em suas obras — esculturas, desenhos e filmes recheados de efeitos especiais –, lembra a técnica de Ron Mueck, seu conterrâneo, que também protagonizou uma exposição em São Paulo neste ano, na Pinacoteca. A grande diferença, entretanto, é que, enquanto o pé de Mueck fica firme na realidade, Patricia passeia entre realidade, ficção e críticas aos padrões instituídos que engolimos a seco todos os dias.

“indiviso”, visto na chegada

Seres estranhos tomam conta de todos os andares do CCBB. A disposição das obras também é pensada para surpreender o espectador, sem chocar. Em muitas delas, ao lançar o primeiro olhar, nota-se apenas a existência de uma criatura diferente em um cenário tipicamente humano. Mas ao circular pela peça, você se depara com uma forte dose de naturalismo, expressa por formas irregulares, pele acumulada e flácida, ranhuras e tecidos internos expostos, muitos lembrando feridas e partes de órgãos sexuais.

“indiviso”, visto ao circular pela obra
Quem não se prende no choque inicial de encarar essas formas e imagens apresentadas de forma tão escancarada abre espaço para mergulhar numa reflexão intensa e extremante pertinente em um mundo cada vez mais definido por padrões. O que eu acho bonito? O que eu acho normal? O que foge do padrão?

E, a partir desses questionamentos, outros, ainda mais pertinentes, surgem: de onde vêm todas essas definições de beleza, normalidade e padronização? Por que eu penso assim? Por que eu acho que isso é certo? Por que eu julgo? Por que eu não aceito? Por que eu acho estranho? Por que apenas ser não é simplesmente considerado normal sempre? O que, aliás, é ser normal?

Na descrição da escultura “o visitante bem-vindo” (abaixo), um trecho da artista:

“O encantamento está em seus olhos. O estranhamento, nos nossos.”
“o visitante bem-vindo”

Tem tanta essência nessa frase que ela nem precisaria ser um trecho. Ela se basta. Se basta em explicar a obra, se basta em nos dar um tapa na cara do quanto somos preconceituosos (o estranhamento está nos nossos olhos) e se basta também em nos dar um soco no estômago sobre a necessidade de enxergarmos com nossos próprios olhos e cagar para o que veem os olhos dos outros. Afinal, o encantamento não está nos olhos dos outros, mas nos nossos.

Sem perder a toada da confusa fronteira entre realidade e ficção, a artista também levanta forte questionamento em relação a onde vai parar um mundo de tecnologia cada vez mais avançada, com máquinas cada vez mais inteligentes e complexas e alterações genéticas encaradas de forma cada vez mais trivial quanto a adaptação de uma receita de cozinha.

A visita é intensa, vale cada minuto e pode ser feita em cerca de uma hora. As filas acabaram. Para quem ainda não viu, recomendo demais.