O amor não é para todos

Foto: Joseph Barrientos | https://unsplash.com/photos/UklXbPE-Hos

É, minha amiga, meu amigo. É um pouco triste dizer, mas essa é uma daquelas verdades que não gostamos de admitir porque simplesmente não sabemos lidar. A maioria de nós nasce, cresce e vive (alguns de forma mais aberta, outros fingindo que não) em função da expectativa de um dia encontrar o amor.

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Na nossa cabeça, encontrar o amor é apenas uma questão de tempo: uns acham mais cedo, outros passam anos resistindo, tomados pelo fervo ou pela paz de espírito de viver só. Mas, ao colocar a cabeça no travesseiro, a real é que imaginamos que um dia não vai dar mais para evitar: o amor não vai bater, mas arrombar a nossa porta e vamos nos entregar a ele, irresistível.

Muita gente ainda acha que sonhar com o amor é um comportamento feminino. Como toda generalização, isso é uma grande besteira! Idealizar o amor, querer alguém para dividir a vida e ter medo de envelhecer sozinho são pensamentos quase universais, que não dependem de gênero. Muda apenas a forma como cada um encara isso, muito influenciada pela pressão social — a cada dia mais over — de que mulher se apaixona com a mesma facilidade com que o homem parte para a próxima trepada.

Meu ponto é: no fundo, todos nós, mais cedo ou mais tarde, vamos querer o amor. Na verdade, mais do que isso! Todos nós contamos com o amor nas nossas vidas, como se fosse um item padrão. É como se, minutos antes de sermos jogados neste mundo, o amor fosse incluído no pacote básico de vivências que obrigatoriamente vamos experimentar:

Vamos começar o check list? Sofrimento? Check! Alegrias? Hmmm, vamos colocar mais um pouquinho… Doença? Além das comuns, vamos por umas duas ou três mais sérias ao longo da vida! É bom para valorizá-la. Morte? Não pode faltar, claro! A expectativa de vida subiu, vamos dar uns 100 anos. Amor? Podem ser uns quatro: um de infância, uma paixão louca aos 15, outro lá pelos 18 com uma grande frustração e o último pra valer aos 24? Não… muito cedo, né? Os tempos são outros. Eles podem se conhecer lá pelos 27… dois ou três anos de namoro, casamento por volta dos 30 e ainda dá tempo de ter um casal de filhos. Ótimo! Pode despachar. Próximo? Vamos colocar alguém na Índia agora?

É triste de ver o peso que as convenções sociais têm na nossa vida. Tão grande que a coisa mais comum que existe é ver muita gente forçando esse encontro com o amor. Afinal, uma hora ou outra vai acontecer. Tem que acontecer! São pessoas desesperadas, carentes, inseguras, perdidas de si, que procuram no outro a falta de conhecimento e intimidade que têm em relação a si mesmas.

O resultado? Uma massa amorfa sem sal nem graça. Um casal que decide dividir a vida não porque acha que viver junto vai ser incrível, mas, sim, porque não consegue suportar a ideia de ter que viver sozinho.

Foto: Cayton Heath | https://unsplash.com/photos/D8LcRLwZyPs

O amor existe. Existe sim! Mas, ao contrário do que nos fazem acreditar, ele não é para todo mundo. Sinto muito fazer você ler isso dessa forma, mas não me entenda mal. Pessoas especiais estão espalhadas por aí. Não é a coisa mais fácil do mundo encontrá-las — e, pense bem: se fosse, não teria a mesma graça — , mas elas existem sim. Os encontros de alma, as conexões inexplicáveis, o frio da barriga, os momentos incríveis… tudo isso é real! Mas são como eclipses: são relativamente raros e nem sempre estamos olhando para o céu quando eles acontecem.

A questão é: se o amor for para você, ótimo! Viva-o intensamente! Mas se não for, paciência! Existem dezenas de outras formas de viver a vida: dá para ser sozinho, ser junto às vezes e separado em outras, ser junto com todo mundo, ser junto e separado com alguém primeiro e depois com outro alguém e depois com ninguém. Mas ser. E ser você, não o outro!

Em vez de gastarmos tanto tempo procurando ou idealizando o amor, deveríamos nos focar em nos encontrar. Quando nos encontramos, a vida flui, as coisas andam e tudo fica mais leve ao ponto de entendermos que encontrar o amor é apenas um bônus no meio de uma trajetória maravilhosa e instigante, que temos total condição de percorrer e aproveitar ao máximo sem precisar de ninguém.

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