O respeito pelo outro começa com o respeito por você

O sol de quem vive na beira do rio Juma não é o sol que você enxerga. Foto: Jenifer Corrêa | Amazônia, novembro/2016

Parar, olhar, ouvir, sentir de dentro. Eventualmente se incomodar com o que vem. Mas, ainda assim, entender que o outro é aquele tal do universo que a gente desconhece e, por isso, não nos cabe julgamento. Respeito é isso.

Não faz muito tempo que consegui entender por que a opinião divergente do outro me incomoda tanto. Enxerguei por que preciso de um esforço tão grande para respirar fundo e aceitar “como-é-possível-que-aquela-pessoa-pense-daquele-jeito”. Opa! Mais do que possível, linda. É natural. É vida - repito, incisiva, para mim mesma e, logo depois, fico um pouco sem jeito com a bronca. Percebo em mim mesma como sou dura com as pessoas.

Eu entendi que a opinião diferente do outro me traz uma sensação de enfraquecimento da minha própria. A discordância me faz questionar meus próprios pensamentos e me sentir insegura: puxa, será mesmo que é por aí?

O lado positivo disso é o questionamento em si. Que bonito é quando a gente consegue rever nossos conceitos e abrir a cabeça para o novo. O outro lado positivo é aprender a lidar com o fato óbvio de que eu não tenho o controle e a verdade sobre tudo. Muito prazer, Jenifer. Somos humanas.

Eu tenho opinião sobre tudo. E gosto disso. Eu me posiciono, discuto, crio polêmica. Xingo muito no Twitter, puxo papo cabeça na mesa de bar e mando textão no grupo do Whats, sabendo que todo mundo pensa diferente e vai ficar puto porque eu vou, mais uma vez, problematizar o machismo, a mídia, a política e os padrões, em vez de mandar meme. Eu sou legal, mas eu sou chata. Antes eu me controlava, agora não. Essa sou eu. Respeito!

Drummond, como bom Drummond, se ligou logo. “Vai, Carlos, ser gauche na vida”. Eu também percebi que talvez meu papel neste mundo, nas minhas rodas, nos meus campos de influência, seja justamente incomodar, questionar, ser do contra. Esse papel é ingrato, mas é tão importante! Comigo do lado, ninguém vai conseguir se acomodar e vai se sentir sempre convidado (muitas vezes, quando eu exagero, obrigado… foi mal, migos!) a repensar. Respeito!

E sabendo disso, dessa minha missão de ser “aquela que causa”, meu veneno se volta contra mim também. Eu não gosto tanto de me posicionar, instigar os outros? Nada mais justo que eu também ouça o outro, seja instigada pelo outro, seja questionada pelo outro e, principalmente, me sinta incomodada pelo outro. Essa é uma das formas mais efetivas para crescer: seja dando o braço a torcer, seja reafirmando as próprias convicções. Mas sempre com o quê? Respeito!

Respeito pela história do outro. Respeito pelas qualidades do outro. Respeito pelas limitações do outro. Respeito pela diferença, que é a coisa mais bonita da vida humana. Hoje eu olho o sol de cima do morro, mas a a trilha é longa e sinuosa. Muito em breve, eu estarei ali embaixo no pé da serra novamente e a minha fotografia será outra.

E talvez eu nunca descubra a existência daquela caverna escondida na montanha, onde alguém foi criado e lá passou a maior parte da vida vendo o por do Sol, sem ter a chance de percorrer a mesma trilha que eu. A gente vai se trombar na minha próxima parada, ela vai falar sobre como vê sol e eu não vou entender. Talvez eu ache até bizarro. Mas tudo bem! É sol de lá e ainda é sol daqui. Respeito!

O que mais está nos faltando hoje é mais tolerância. Mais discussão saudável. Mais espaço para debate. Mais sensações de incômodo. Mais questionamentos. Mais revisitas aos nossos conceitos. Mais humildade. Mais esforços para manter os ouvidos e o coração mais abertos. O que mais precisamos hoje no Brasil, no mundo e, principalmente, aqui dentro é de mais respeito.