Distraídos venceremos!

Faz tempo que não pego em uma caneta que não seja para assinar algo a importante, fazer listas, preencher campos, nada que exija tanta emoção assim, muito menos tanto capricho. Sendo bem sincera, nem um pc me resta, na verdade não me resta tempo. Minha vida hoje se resume em coordenar outras vidas, e a minha, mesmo que em segundo plano, se faz importante e um pouco abandonada em alguns aspectos.

Se passaram 40 dias do nascimento do meu filho e por mais que tenha sido um dia normal, eu queria ter feito um bolo, uma festa, comemorado horas a fio (como se eu as tivesse) para não esquecer todo o meu trajeto até esse ponto, inclusive o dia 23 de julho que eu venci e conheci o maior amor da minha vida.

Carreguei ate aqui o peso das minhas escolhas, e algumas delas não foram nada leves, outras trouxeram sorrisos, umas exigiram escolhas, abdicações maiores, desapego a coisas, pessoas, situações e pontos de vistas, além de uma transformação absurda, principalmente. Passei a minha vida escrevendo em diários para reler e conseguir assimilar o que estava fazendo, como estava caminhando por aqui. Parei com isso. Larguei meus escritos e fui viver de fato, sem os personagens, sem contos, sem criar crônicas, sem literatura alguma, dramaturgia pura. Rompi com minha letra, meus escritos, meus achados.

Seria impossivel descrever o hoje e celebrá-lo sem olhar o ontem e cada milipedacinho de vida moldada que me trouxe até aqui. Paro e penso que se talvez em um certo momento eu tivesse escolhido pegar outro ônibus ou atravessar a rua minutos depois, hoje eu não teria um filho. Dois na verdade. Porém, nessa caminhada, aprendi a acreditar que carregamos conosco bons amigos que nos dão bons empurrãozinhos de vez em quando e no fim das contas vejo que devo mais a eles do que ao acaso. Com isso descanso, eu tinha que me tornar o que sou hoje, carregar as missões que tenho, certeza.

Era quinta-feira e as dores chegaram até a mim. Na verdade elas chegaram muito antes em uma época que só o meu subconsciente pode recordar, e esse momento vinha de encontro a tudo isso que andava muito bem guardado. Era a cena se repetindo do outro lado, eu vinha trazer a vida de alguém. Eu, justo eu, que riscava os armários com as frases mais estranhas do mundo enquanto as outras crianças socializavam entre si como se tudo fosse azul. Eu sabia que tinha algo de errado, sempre soube. Antes eu achava que era comigo, me fizeram acreditar isso, desde o meu primeiro fio de cabelo preto que sempre quis que fosse vermelho ate as ideias libertadoras que me prendiam num mundo averso ao dos demais. Agora eu era encarregada de trazer aqui um ser que terá dúvidas, anseios, alegrias e tristezas, mentora de um acordo pre-estabelecido que so algumas partes podem contestar como real (e o meu coração que crê nisso). Sou parte de uma missão que desconheço, em que a obrigação principal é trazer alguem a vida.

Há quase 6 anos atras nascia alguem por um meio em que ainda não compreendo. Não desejaria mudar os fatos, minha petulância com o divino chega ate aqui nesse caso com um grande ‘por que?’ na minha mente. Pergunto a Deus o que ele quis dizer com isso, observo em volta e entendo as lições que devemos aprender. Eis que nao dei a luz, me deram! Nasci de novo, aprendi a falar, a andar, a comer, a ser aquelas três letrinhas que nos deu a vida. Sim, o sol. Ser mãe é ser o sol de alguem.

Gostaria de comemorar por tudo isso. Por ter vencido quinta, chorado sexta, desistido sábado e renascido domingo. Jamais conseguirei falar do meu parto sem questiona-lo o tempo inteiro, porem aceito, vejo o rosto do meu anjo e aceito inteiramente cada pedacinho de dor, lagrima e ansiedade que vivi. Ali foi a fase final. E como Gênesis, deu-se a luz, naquele passado a escuridão chegou. Eu morri, da melhor forma, mesmo sabendo que não existe como dizer que ha boa coisa em morrer, mas posso afirmar que sim. Eu poderia carregar um novo nome, novos documentos, uma nova fisionomia que seria tudo aceito. Já não era mais a mesma pessoa.

Quarenta dias se passaram da mudança do meu mundo em um mundo que não mudou, vivendo na realidade comum das outras pessoas e elas tão intensas na minha recém vida em que eu não sabia absolutamente nada. Ainda não sei. Recém feita, lidei com críticas, preconceito, dores, choro, cansaço, meu corpo mutilado, minha forma modificada, meu auto abandono, a falta de tempo, medos, muita pesquisa na internet para compreender toda essa novidade. Tempos sombrios.

E la vem aquele brilho, aquele sorriso sem dentes, aquele amor avassalador em que não se sabe como conter, uma serenidade em meio ao caos, uma loucura necessária, bagunça geral mas carregada de afeto puro e sincero. Teria que fazer as pazes com todos os dicionarios do planeta para tentar descrever a natureza desse sentimento. É parte de ti. E o mais lindo nisso, é poder estender esse amor para os meus filhos e carregar comigo a vontade de coloca-los debaixo da minha asa até quando for preciso (lembrando todo dia que terei que deixá-los ir e sofrendo com a missão de prepará-los para esse grande dia de forma a pensar: fiz o que podia, posso descansar. Doce ilusão, nada será suficiente. Seu coração está dividido para sempre).

Guardarei 4 de setembro assim como guardo 23 de julho. 05 de fevereiro. 27 de julho. 24 de setembro, 31 de dezembro. 18 de janeiro já não tem tanto valor assim, justo eu que adoro aniversários e considero esse dia meu reveillon. Meu novo ano começou ontem e eu que queria gritar isso para o mundo porém guardei apenas para mim. Eu morri e renasci um milhão de vezes num piscar de olhos e sem perceber, eu pertenço a alguem que eu amo incondicionalmente e sei que para sempre, tenho comigo hoje todas as dúvidas e as incertezas que me fazem uma mulher feliz e satisfeita. E pronta para as vitórias mais que me aguardam. Distraída assim, eu venci o meu mundo!

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.