O que te faz rir?

Quatro meses de espera, dois anos desempregada e procurando oportunidade em cada buraco que se pode imaginar, desflorestando várias e várias áreas com tantas impressões de currículos, lotando caixas de entradas, distribuindo sua vida profissional mundo afora. Eis que ligam: entrevista as 9h em ponto. Claro que posso, claro que sei onde é, absolutamente! Todos os documentos a postos, aquela roupa apropriada para um novo passeio, geralmente a que foi símbolo de tantos outros nãos anteriores, lavada e passada na esperança de conseguir uma aprovação dessa vez, apenas dessa vez (por favor).

Meia hora antes do previsto, mais meia hora para testar a paciência. Um nome no crachá provisório rezando pra ser permanente. Olhar todos aqueles rostos apreensivos e encontrar alguns bem familiares, seja no conhecimento, seja na semelhança da situação. Loiros, morenas, altas, baixos, pessoas tão diferentes em rixa para a mesma coisa, formas tão peculiares tentando se encaixar e se adequar em um mesmo molde: A VAGA.

Os parâmetros? Gente como a gente. De acordo com a situação: gente melhor que a gente, que parece com a gente, especialistas em nos tornar menos gente e mais robô. Procuram enxergar no meio do que somos, as características que nos fazem repetitivos e aptos a desempenhar o desejado sem pestanejar, com um toque de pessoalidade, claro, não pode ser tão óbvio.

Cada história, cada motivo sendo exposto e servindo de inspiração para quem ouve, o alimento favorito dos recrutadores. Dissecam cada palavra, o tom de voz, onde estão suas mãos, se sua perna diz sim, se o olhar diz não, a caneta a postos fazendo uma biografia parcialmente autorizada de você que nem mesmo sabes como é. Como ousam? Dizerem o que você é se você nem mesmo sabe o que dizem. Cada canetada é um gole seco, falar o que querem ouvir ou o que quero dizer? Qual parte de mim deve entrar em jogo aqui?

Tentam ser solidários, lembram vagamente de quando foi a vez deles naquelas cadeiras, com seus nomes impressos em negrito porém tão volúveis que pareciam terem sido feito a lápis. Agora viraram tatuagem, e carregam na testa a missão de fazer metade daquela sala voltarem para casa decepcionados.

“Vários processos. Aguardem. Você, você e você, venham até aqui. Vocês continuam na próxima fase. Aguardem. Podem me seguir. Agora é definitivo. Parabéns, mas ainda há uma fase. Quero que vocês façam isso, quero que vocês digam isso, agora eu quero que vocês se coloquem no lugar da gente e digam quem desse grupo gostariam de contratar…” Que audácia! Tornar o ambiente ainda mais competitivo quando se respira competição nesse mundo desde que ele é mundo. Fingir que não há egoísmo quando todos querem gritar: EU, ME. CONTRATA. Temos que apontar para um colega, e jogar o peso do nosso julgamento nas costas do outro pois eles não aguentam segurá-los sozinhos.

“Vocês foram aprovados, basta apenas uma conversinha, é eliminatória mas ninguém chega a reprovar nessa fase, impossível, mas é eliminatória. Não fiquem nervosos, MAS É ELIMINATÓRIA.” Fim de diálogo, inspira, resPERAÊ! Há exames médicos. Juntem os documentos, tudo em prazo recorde, corra porque você precisa deles e por mais que jubilem o termo “colaboradores”, a colaboração é deles por te dar um salário. Em tempos de crise como essa? Dê Graças-a-Deus!!! A fila é gigante.

Mandam tirar a roupa, sentar, deitar, agachar. Te pegam, te olham, analisam suas engrenagens, puxam pra ver se tem algum defeito. Falta de óleo talvez, não querem gastar com manutenção. Tempo é dinheiro, nesses Tempos Modernos então… Fazem cada vez mais humanos-máquinas, sorte daqueles que se parecem como tal.

Eu na minha vã esperança, aceitei o papel. Máquinas não vibram de alegria, não choram de felicidade, não põem emoção alguma em coisa alguma, programada para desempenhar o que lhe foi designado, dizer o que precisa ser ouvido. E dessa forma foi um degrau após o outro, até chegar ao topo de um ponto infinitamente baixo, mas que é desejado por muitos e por mim mais que tudo. Quem não quer dinheiro?

Em meio a tudo isso, na fase final, eis que ouço uma questão intrigante. “Você é séria assim sempre sua vida? Alguma coisa te faz rir?” Minha vontade era chorar. O relógio marcava 5 horas da tarde e ainda faltavam folhas e folhas para preencher e assinar. Oito horas que não voltam e que não serei remunerada, sendo tratada como um mero objeto, amaldiçoando a cada segundo o ser que inventou essa forma de viver: pagar pelo que quero com o meu tempo, a minha vida. Não quero ter nada. Não preciso do que me oferecem. Eu não compraria o que estão me mandando vender. Eu quero minha vida sendo minha, porém alguém disse em algum lugar que eu preciso ter coisas então eis-me aqui.

Inerte e apática, engolindo todas as frustrações, eu queria dar uma resposta à altura mas não podia. Então, forcei um riso que pouco me importava se tivesse transmitindo sinceridade ou não . Carregando o cansaço físico e psicológico de uma montanha de emoções que tive que esconder naquele dia, respondi:

— Não senhora, eu sou muito feliz. O que me faz rir é show de stand up.

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