Sobre as mudanças que não deveríamos fazer e as necessárias que adiamos.

Você tem um sonho. Ele tem um sonho. Todos tem um sonho. Citando Nação Zumbi: Eu tive um sonho. Você passa a sua vida inteira vivendo esse sonho. Você sonha com o sonho, você acorda sonhando esse sonho, você enxerga seu sonho sendo realizado por outras pessoas e se apega ainda mais no sonho. Você não sossega enquanto esse sonho deixar de ser sonho.

Eis que um dia, uma sequência de ações e leis do universo determinaram que esse sonho seria realidade. BUM! Foi-se o sonho. Você se agarra no que antes era sonho e o vê, tão palpável que nem dá pra acreditar. Você passou tanto tempo sonhando que nem sequer cogitou como seria vê-lo acontecendo diante dos seus olhos. E viva o sonho que não é mais sonho! O tempo vai passando, a sensação de contemplamento permanece ali, a euforia de viver aquele sonho que não é mais sonho. Mais coisas acontecem, mais dias viram noite, mais tique-taque no relógio, de repente aquilo já não domina mais seus pensamentos como antes. As coisas mudam… Eis que aquilo já não tem mais graça e você se pega recauchutando o sonho antigo. “Mas se fosse assim, seria melhor… Se fizesse isso seria muito melhor… Ah, mas eu não imaginava que fosse assim, se fizesse tal coisa seria muito melhor…” E BUM! Acaba o sonho.

Que bom que Deus na sua infinita soberania não me fez ser Deus porque eu não realizaria os sonhos de ninguém. Ou melhor, eu pregaria cartazes pelo mundo proibindo as pessoas de sonhar pelo simples fato das pessoas estarem extremamente condicionadas a sonhar e nunca realizar. Elas definem sua vida pelo processo de não ter, numa auto-piedade mentirosa e quando realmente acontece tudo dentro dos conformes, o ego gigantesco delas descobre que é muito mais cômodo viver sonhando pois não há coisa no mundo que satisfaça o ego.

E o que acontece? Coisas e pessoas são descartadas quando perdem a graça, a euforia. O ego toma conta e te dá uma nova tarefa alienadora para continuar a vida. E toda essa conversa sobre sonho me diz que as pessoas não estão dispostas a se manterem eufóricas, faz parte do milhão de coisas para escolher. Pra quê se sentir bem com maionese Arisco se tem a Hellmans aí com tantos sabores? Pra quê eu querer uma boneca qualquer com tantas Bebê Alives que cagam uma massinha ridícula? Pra que eu vou tratar de dar atenção e zelar a minha mulher se quando eu abusar dela eu posso trocar por qualquer uma que exista nesse mundo porque o pau que mais tem é mulher?

Nada é visto pelo seu valor individual, somos e temos objetos constantemente comparados, rotulados e condicionados a mudar porque se não formos iguais àquela marca lá, iremos ser trocados por ela. Quando algo é de mais valor, até se finge dizer que respeita-se a individualidade. Quando cansa, voltamos ao mesmo reflexo condicionado do “se adapte a mim, com tantas opções no mercado, não irei buscar me adaptar a você e vivermos um consenso regado e carregado de bom senso. Jamais.”

Achava lindo sonhar, hoje não quero mais me pegar imaginando nada. Não quero mais fazer parte das pessoas que tem coisas e querem mais coisas, que usam pessoas e descartam mais pessoas. Quero viver apenas. Quero ter metas e cumpri-las. Quero amar as pessoas de verdade e não amá-las até quando meu orgulho sonhador permitir amá-las. Não quero mais ser o sonho de ninguém pois sei que um dia eu perderei a graça e serei trocada por algum sonho mais bem sonhado. Quero viver a realidade de que tudo tem o seu valor, quero saber o meu valor para que ninguém seja capaz de precificar meus defeitos e minhas qualidades.

Há mudanças que são necessárias, outras nem tanto. Nunca se falou tanto em mudar. Na dúvida fique onde está. Não sonhe mas realize. Faça da sua realidade um sonho eterno coberto de bom senso em que as coisas estejam todas no seu devido lugar. Sem imaginar.

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