Cheiro de amêndoas sob tecido

Na boca, uma acidez provençal. No corpo, um vestido branco, ainda bem — naquele dia o sol de maio decidira aparecer. Não era intenso, mas enchia os cafés de gente, rosé e barulho.

Alice ficara no La Palette até quase o fim da tarde, numa mesinha à sombra depois invadida pela luz. Um rapaz tinha puxado conversa (outro francês, claro!) e o poodle da senhora americana viera lamber o chèvre aos pés da sua mesa. Camus se engordurava de croque monsieur a cada página. Tudo bem, já tinha lido — largou-o ali com metade do sanduíche.

Foi até o Cluny sem querer. Nunca tinha visitado o museu.

- Mas, Alice, não me diga que nunca fez isso e aquilo! Depois de um ano em Paris! — era o que Maria ou Luísa ou Germana lhe diziam sempre que ela confessava não conhecer um ponto da cidade.

- Não — respondia sem pressa.

Mas a história nunca acabava ali. Deixavam os croissants na primeira mordida e iam para a estação de metrô, abrindo mapas enormes de turista.

No meio da tarde, finalmente sentadas a um café, perguntavam com a boca gozando de brie:

- Mas o que você faz o dia todo, Alice? Quando a gente não tá aqui…

- Não muita coisa — respondia, comendo o queijo pelas bordas, com nojo das três — tomo café, vou para a aula, saio para andar, às vezes pego um cineminha em Saint Germain. Depois vou beber num desses cafés.

- Já deve conhecer todos os vinhos, né? E os franceses também!

- Nem um nem outro. Sempre peço o vinho da casa — é mais barato e prático. Os franceses — largava o queijo, franzindo o rosto inteiro — têm todos o mesmo cheiro. É chegar perto, fico sem vontade.

Agora, de frente para o museu, decidiu tirar uma foto. Aplicou um filtro suave — era primavera em Paris! — e postou no Instagram: Minha primeira vez no Cluny ❤

O funcionário foi categórico. O museu fecharia em meia hora. Bom, meia hora era suficiente para não fazer nada.

Entrou. Foi reto pelas primeiras salas da Idade Média, até dar num salão com esculturas de homens sem rosto. Pensou em tocá-las — o lugar estava quase vazio. Além da segurança que mal conseguia manter os olhos abertos, só havia ela e um gringo. Devia ser gringo. Era mais alto do que os franceses, usava uma pólo preta em maio e, embora estivessem num ambiente fechado, ainda não tinha sentido o seu cheiro.

As esculturas eram frias ao toque. O gringo apareceu ao lado dela com um sorriso de dentes tímidos, a pele na cor de primavera veranil.

- Desculpe-me, você sabe onde fica o salão da Dama e o Unicórnio? — perguntou, desenhando as palavras.

- Não — ela respondeu.

Virou-se para a senhorinha de franjas, que apontou para o lado, lembrando que teriam apenas vinte minutos para concluir a visita.

Entraram no salão. Ele antes, ela depois. Estavam sozinhos, não havia necessidade alguma de ficarem um ao lado do outro. Ele parou do outro lado do salão e olhou para ela, sorrindo. Seis tapeçarias representando os sentidos decoravam as paredes. O conjunto de obras de autoria desconhecida devia ser da Idade Média, mas só tinha sido descoberto no séc. XIX por Merimée. Alice fingiu se interessar pela arte. Aquela à sua frente correspondia ao Paladar.

Nela, uma criada segurava um pote fundo e dourado, do qual a dama do título tirava um caramelo, oferecendo-o a um pássaro, o menor animal do quadro. Não era um caramelo, mas uma daquelas amêndoas confeitadas de casamentos, caras demais para outra coisa. Alice tinha deixado um pote em casa, as amêndoas coloridas envoltas por um tecido delicado, que permitia adivinhar as cores — começava sempre pelas brancas. Será que a mãe tinha comido? Ou o irmão? Talvez tivessem apodrecido. Lembrou do gosto de amêndoas, dos milhares de licores de amêndoa que devia ter provado nesses dois anos de exílio. Sentiu fome. A esta altura, o almoço estaria no lixo. Camus, quem sabe, também.

A outra tapeçaria era do Tato. A mulher fechava a mão esquerda em volta do chifre do unicórnio, enquanto a direita hasteava a bandeira da sua família. Leão e unicórnio eram maiores, como se tivessem atingido a idade adulta. Colin — era esse o nome do gringo — de novo ao seu lado, um gato de pêlos eriçados. Um pouco mais de movimento, encostaria nela — no seu braço, talvez na cintura, no limite do quadril. Seria o primeiro em meses, desde a visita do ex namorado. Quem sabe Alice sentiria nele o frisson do estrangeiro em Paris, e não mais cedesse ao mofo de segunda mão da Gilbert & Joseph, à acidez barata dos vinhos maison, ao tédio urgente do flâneur.

- De qual gosta mais? — Colin perguntou. O sotaque era alemão. Talvez suíço.

- Não sei. Ainda não vi todas.

Ao lado, a Audição. Era uma das menores tapeçarias. Fazia suspeitar um ruído suave de harpa do século XVI.

A Visão era mais interessante, não porque fosse um sentido especial, mas pelo modo como era representado. O unicórnio se via refletido no espelho da dama de companhia, como se não pudesse ver a si mesmo sem ela, de sexo oposto. Em casa, Alice perguntava ao irmão: estou bonita? Gostava de passar batom antes de sair, sempre de salto, registrando periférica o olhar dos outros. Ali era anônima. As amigas faziam questão de dizer que estava linda e tão magra! Com um je ne sais quoi da margem esquerda (Alice se segurava para não rir da pronúncia), cabelos no corte (curto) da moda (prático!), revelando seus traços.

- No Brasil, você era mais sem-salzinha…

Talvez Colin a visse como as amigas. No apartamento em Saint Germain ainda não tinha espelho — era o tipo de coisa que ia sempre comprar no dia seguinte mas esquecia entre um tinto e outro. Também evitava os franceses na rua.

- Gosto muito desse — Colin disse virado para a tapeçaria de Olfato.

Nele, a dama segurava uma coroa de flores, colhida do cesto da outra.

- Que perfume você usa? — ele perguntou, alguns segundos depois.

- Por quê?

- Tem um cheiro meio cítrico, meio fermentado. De lima com pão.

Meio podre, ela pensou, sorrindo no sorriso dele. Ele tinha a mesma expressão das meninas quando provavam um queijo novo.

- É meu cheiro natural. Quer dizer, adquiri aqui.

Ele riu. Talvez não entendesse todas as palavras em francês. A última tapeçaria era na verdade a primeira, e Colin parecia esperar que ela fizesse a pergunta: mas não são cinco sentidos? Por que um sexto?

Ao meu único desejo, estava gravado na moldura. Sentaram-se no banco do lado oposto ao quadro. Até hoje não se sabe o real significado da peça, maior do conjunto. Pode ser tanto uma afirmação da vontade quanto da existência de um sexto sentido. A dama coloca o colar, acompanhada de unicórnio, leão e criada. A seu lado, um baú de moedas.

Alice aproximou-se de Colin em silêncio, sorvendo as palavras não ditas. Os pêlos em arrepio e no entanto fazia calor. Ar condicionado desligado, já, já fechariam o museu.

Ele cheirava a amêndoas sob o tecido fino — frescas, doces, duras ao toque.

- Está com fome?

- E sede — ele respondeu, o rosto em fogo — Cheguei hoje de manhã. Sabe onde podemos tomar um bom vinho branco francês?

-Depende. Gosta de Chardonnay?

*Texto produzido durante o laboratório de escrita criativa Submarino de Ronaldo Bressane.

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