Pedaço de lobo frontal

28. Você é muito resistente à dor, disse depois de costurar a minha cabeça. Da sala, levaram-me para o quarto. Já era dia, então devia estar ali havia pelo menos 12 horas. A enfermeira trouxe água e perguntou como eu me sentia. Trazia no colo o prontuário e, sobre ele, uma folha de papel — o documento que eu havia assinado antes de entrar na sala de operações. Passei a mão na cabeça e senti os pontos nus sobre o couro. Faltava-me um pedaço do lobo frontal. No corredor oposto, os jornalistas queriam falar com o Dr. Marcos. Eu já não lembrava mais o que queria tanto esquecer.

35. Era um jantar íntimo, para quatro ou cinco casais. Ela me seguiu até o banheiro, do outro lado do apartamento. Queria saber mais sobre os meus estudos de sono e memória. Notei duas olheiras sob a maquiagem jovem. Como você faz para dormir sete horas toda noite? Sexo e vinho. Dei-lhe uma receita de Rivotril.

35. Estava de saída quando ela me perguntou sobre “Antônio”. Usava óculos. Deduzi que tinha assistido a uma de minhas palestras. Disse-lhe para ler o meu livro. Lá, contava toda a minha experiência sem parte do lobo frontal. Abri a porta, mas ela segurou o meu braço. Joana, você não lembra de mim?

17. Acordei com a água do mar nos joelhos. Ele me ajudou a sentar. A areia no biquíni machucava os meus seios. Não sentia as pernas. Uma menina passou correndo. Sumiu no horizonte. Deitei-me. Fechei os olhos para a claridade recente e senti o perfume salgado da primeira memória compartilhada.

17. Bati a cabeça contra o banco do motorista e acordei. As pernas estavam adormecidas e por um instante achei que já não pudesse mais andar. Porta do passageiro aberta. Saí. Praia deserta de maio. Corri de um lado a outro procurando por ele.

17. Entrei no mar e comecei a boiar engolida por um buraco negro.

17. Eles me levaram de biquíni para a delegacia. A psicóloga me trouxe água e perguntou, Joana, como você se sente? Explicou que as perguntas do policial eram pró-forma e que eu não deveria me preocupar. Ninguém mais perguntaria (se eu tinha matado Antônio). Ainda não sabiam exatamente qual era a causa da morte, mas uma equipe competente de médicos examinava o corpo naquele momento. Ela suspendeu os óculos, evitando olhar minhas pernas de dezessete anos. Queria que eu lhe contasse tudo de que lembrava.

*Texto escrito durante o Laboratório de Escrita — Contos do Próximo Milênio com Ronaldo Bressane.