Uma unidade de nós

Jennifer Queen
Aug 8, 2017 · 3 min read

Éramos três naquela sala, naquele momento, mas éramos muitos mais. Às 18h, saíamos por uma porta lateral e aguardávamos no quarto ao lado. Outros três tomavam o nosso lugar e, em trinta segundos, a máquina voltava a operar.

Ao longo do tempo, havíamos adquirido uma sincronicidade total. Cada um se ocupava de uma manivela — da mesma cor de nossas camisetas, para não trocarmos de lugar — e de um switch, também colorido. Devíamos manter uma mão na manivela e outra no switch. On. Off. On. Off. On. Off. On. Off. Das 10 horas da manhã às 18 em ponto.

A escolha por nós tinha sido objetiva: no primeiro dia, levaram-nos para um quarto e pediram que tirássemos a roupa, deitando um ao lado do outro. “Gozem”, disse o operário-chefe e obedecemos, ao mesmo tempo, como indicaram nossos cronômetros idênticos.

Por isso, hoje ocupávamos uma sala superior, no vigésimo quarto andar. Acima de nós, apenas mais um andar, uma sala, uma máquina e três manivelas. Ou duas. Ou uma. A cada andar, nos diziam, éramos menos em número, até que fôssemos apenas um. Uma unidade de nós.

Naquele dia, às 10h05, um de nós parou de mover a manivela, seguido pelos outros dois, em sintonia adquirida.

– Vamos subir, dissemos, apontando para o topo da máquina que encerrava nosso andar.

– Vamos descobrir o que tem lá em cima.

Saímos da sala na ordem em que saíamos todos os dias, pela porta lateral, passando pelo quarto. Sabíamos que entre dez e treze horas, ninguém passaria por ali. Mas precisaríamos estar de volta às doze e cinquenta e cinco, pois às treze horas o operário-ajudante entraria em nossa sala e nos entregaria três copos com o mesmo líquido. Tínhamos que estar lá para bebê-lo.

Após cinco minutos na sala, fomos até a escada. A mesma de todos os dias, com degraus superiores nunca antes explorados por nós. Subimos, então, um número de degraus equivalente àquele que subíamos e descíamos todos os dias. O que nos separava do último andar era a mesma coisa que nos separava do primeiro, e no primeiro éramos milhares.

Quando finalmente chegamos ao topo, eram quase onze horas. Estávamos em um quarto com objetos supérfluos e resíduo informacional. Uma cama branca ocupava a parte central do espaço. Aproximamo-nos.

– Oi, disse a mulher coberta com o lençol.

– Onde estamos?, perguntamos.

– No último andar.

– Onde está a sua manivela?

– Eu não tenho manivela.

Ela olhou-nos mais uma vez, demoradamente.

– Ah, disse sorrindo. Vocês são do vigésimo quarto andar.

– Sim, respondemos.

– Por favor, sentem-se — ela disse, estendendo os braços sobre a cama, em que cabíamos nós três, ela e possivelmente outros.

Sentamo-nos um de cada lado da cama e o outro ao lado dela.

– Me contem. Como é no vigésimo quarto andar?

Nós contamos.

– Vocês gostam?

Demos de ombros.

– Não preferiam ficar aqui, comigo?, jogou os cabelos para trás, revelando um pedaço de pele branca, com sardas.

– Depende, respondemos.

Perguntamos se havia mais alguém com ela, e o que fazia durante o dia inteiro. Ela nos explicou que todo aquele edifício e os milhares de nós de todos aqueles andares existíamos exclusivamente para aquele quarto, e o quarto para ela. Perguntamos se ela era a continuidade, encerrada em seu andar, e ela nos disse que ali não era um andar, embora o quarto fosse mesmo acessível por escada.

Perguntamos, mais uma vez, se ela era a continuidade, agora com o cuidado de não usar nenhuma outra palavra, mas ela nada respondeu. Jogou os cabelos para trás e, secretamente, segurou minha mão sob o lençol — eu que havia sentado ao seu lado pois não havia uma terceira lateral.

Quando eram quase doze horas, um de nós disse. “Precisamos voltar”.

Ela assentiu com a cabeça, quase triste. Pensei na solidão de uma máquina sem andar.

Dois de nós se levantaram e foram até a escada.

Eu fiquei.

– Como é ser uma máquina sem andar?, perguntei.

– Como é ser uma unidade?

Ela sorriu e abriu o cobertor sobre a cama, mostrando que era diferente de nós.

*Texto escrito durante o Laboratório de Escrita — Contos do Próximo Milênio com Ronaldo Bressane.

Jennifer Queen

Written by

Escritora, cinéfila e apaixonada por livros e mídias

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