Uma unidade de nós

Éramos três naquela sala, naquele momento, mas éramos muitos mais. Às 18h, saíamos por uma porta lateral e aguardávamos no quarto ao lado. Outros três tomavam o nosso lugar e, em trinta segundos, a máquina voltava a operar.
Ao longo do tempo, havíamos adquirido uma sincronicidade total. Cada um se ocupava de uma manivela — da mesma cor de nossas camisetas, para não trocarmos de lugar — e de um switch, também colorido. Devíamos manter uma mão na manivela e outra no switch. On. Off. On. Off. On. Off. On. Off. Das 10 horas da manhã às 18 em ponto.
A escolha por nós tinha sido objetiva: no primeiro dia, levaram-nos para um quarto e pediram que tirássemos a roupa, deitando um ao lado do outro. “Gozem”, disse o operário-chefe e obedecemos, ao mesmo tempo, como indicaram nossos cronômetros idênticos.
Por isso, hoje ocupávamos uma sala superior, no vigésimo quarto andar. Acima de nós, apenas mais um andar, uma sala, uma máquina e três manivelas. Ou duas. Ou uma. A cada andar, nos diziam, éramos menos em número, até que fôssemos apenas um. Uma unidade de nós.
Naquele dia, às 10h05, um de nós parou de mover a manivela, seguido pelos outros dois, em sintonia adquirida.
– Vamos subir, dissemos, apontando para o topo da máquina que encerrava nosso andar.
– Vamos descobrir o que tem lá em cima.
Saímos da sala na ordem em que saíamos todos os dias, pela porta lateral, passando pelo quarto. Sabíamos que entre dez e treze horas, ninguém passaria por ali. Mas precisaríamos estar de volta às doze e cinquenta e cinco, pois às treze horas o operário-ajudante entraria em nossa sala e nos entregaria três copos com o mesmo líquido. Tínhamos que estar lá para bebê-lo.
Após cinco minutos na sala, fomos até a escada. A mesma de todos os dias, com degraus superiores nunca antes explorados por nós. Subimos, então, um número de degraus equivalente àquele que subíamos e descíamos todos os dias. O que nos separava do último andar era a mesma coisa que nos separava do primeiro, e no primeiro éramos milhares.
Quando finalmente chegamos ao topo, eram quase onze horas. Estávamos em um quarto com objetos supérfluos e resíduo informacional. Uma cama branca ocupava a parte central do espaço. Aproximamo-nos.
– Oi, disse a mulher coberta com o lençol.
– Onde estamos?, perguntamos.
– No último andar.
– Onde está a sua manivela?
– Eu não tenho manivela.
Ela olhou-nos mais uma vez, demoradamente.
– Ah, disse sorrindo. Vocês são do vigésimo quarto andar.
– Sim, respondemos.
– Por favor, sentem-se — ela disse, estendendo os braços sobre a cama, em que cabíamos nós três, ela e possivelmente outros.
Sentamo-nos um de cada lado da cama e o outro ao lado dela.
– Me contem. Como é no vigésimo quarto andar?
Nós contamos.
– Vocês gostam?
Demos de ombros.
– Não preferiam ficar aqui, comigo?, jogou os cabelos para trás, revelando um pedaço de pele branca, com sardas.
– Depende, respondemos.
Perguntamos se havia mais alguém com ela, e o que fazia durante o dia inteiro. Ela nos explicou que todo aquele edifício e os milhares de nós de todos aqueles andares existíamos exclusivamente para aquele quarto, e o quarto para ela. Perguntamos se ela era a continuidade, encerrada em seu andar, e ela nos disse que ali não era um andar, embora o quarto fosse mesmo acessível por escada.
Perguntamos, mais uma vez, se ela era a continuidade, agora com o cuidado de não usar nenhuma outra palavra, mas ela nada respondeu. Jogou os cabelos para trás e, secretamente, segurou minha mão sob o lençol — eu que havia sentado ao seu lado pois não havia uma terceira lateral.
Quando eram quase doze horas, um de nós disse. “Precisamos voltar”.
Ela assentiu com a cabeça, quase triste. Pensei na solidão de uma máquina sem andar.
Dois de nós se levantaram e foram até a escada.
Eu fiquei.
– Como é ser uma máquina sem andar?, perguntei.
– Como é ser uma unidade?
Ela sorriu e abriu o cobertor sobre a cama, mostrando que era diferente de nós.
*Texto escrito durante o Laboratório de Escrita — Contos do Próximo Milênio com Ronaldo Bressane.