O mundo real de ‘Malhação - Viva a Diferença’
Há pouco mais de dois meses no ar, a vigésima quinta temporada de ‘Malhação’, vem chamando a atenção, em diversos aspectos. Aliás, a diversidade é o principal pano de fundo de uma história, cujo o enredo, se faz próximo e onipresente na nossa realidade.

Escrita por Cao Hamburger com direção artística de Paulo Silvestrini, ‘Viva a Diferença’, trata as temáticas do cotidiano, com profundo realismo, sutileza e pitadas de dureza. Questões que geralmente circundam o campo das teorias, ganharam vez e voz, no texto do autor: que deixa explícito na fala dos personagens, todas as suas falhas, lacunas, preconceitos e equívocos; Bem como suas nuances e traços de humanidade e bondade. Nenhum perfil é vilão por mero acaso ou comodidade. E nem é altruísta por benevolência. O maniqueísmo não se faz absoluto, nem quando a bondade ou a maldade, grita na voz de algum perfil.
Essa temporada, ainda inovou em dois aspectos comuns e tradicionais: A ambientação: Pela primeira vez, ‘Malhação’ se passa em São Paulo. E o protagonismo: Que diferente das outras temporadas, não trouxe um casal abrindo os créditos de abertura. Mas sim, cinco jovens e talentosas atrizes que dão vida a cinco meninas protagonistas de ‘Viva a Diferença’.

‘Malhação - Viva a Diferença’ consegue debater temas amplos - como por exemplo, o racismo. O tratamento da questão dá-se através de um paralelo estabelecido com a vida real - A prática do preconceito de forma velada, como aconteceu com a Ellen (Heslaine Vieira) - menina forte e empoderada, que nesse caso, sofreu ofensa da mãe da amiga e do diretor da escola particular em que é estagiária: Como se não fosse nada demais, nada além do tom pejorativo e desrespeitoso das palavras, da questão social e moral, implícitas na situação.

Anderson (Juan Paiva), irmão de Ellen, que não tem sua relação com Tina (Ana Hikari), vista com bons olhos pela família da menina. Justa, Tina sempre protesta contra esses tipos de injustiças, ao invés de colocar “panos quentes” nas questões que assolam a sociedade.

Questão social, tão corriqueira no nosso dia após dia - como a gravidez na adolescência. Tratada com toda seriedade que o tema pede, sem desleixo ou romantização do fato. Keyla (Gabriela Medvedovski) vive um drama, está metida numa confusão, até o pescoço e não há licença poética que faça as coisas ficarem mais fáceis.

Elenco afiado, direção coesa e eficiente. Também trazem para essa ‘Malhação’, uma catarse de emoção. Manoela Aliperti dá vida a Lica: rebelde com causa, ela é responsável pelos grandes confrontos com seu pai, Edgar (Marcello Antony), trazendo para a tela, toda a intensidade e emoção aflorada da personagem que ainda vivencia os conflitos típicos de uma adolescente. Lica, aliás apresenta o contraponto da ingenuidade de Benê (Daphne Bozaski). As duas meninas são diferentes. Mais a veracidade de suas angústias se equiparam. Daphne trouxe para sua Benedita, muita luz e ainda, um olhar emotivo sobre o diferente; Buscou no pueril, um dos ingredientes para a composição perfeita para a Benê… Que é capaz de nos provocar risos e lágrimas, num só momento. A carga emocional de ‘Viva a Diferença’ parece uma paleta de cores, de inúmeros tons, vibrações e alusões. De colorido intenso, vivo e diverso.

Uma grata surpresa e uma excelente obra de dramaturgia. Com a funcionalidade do realismo, atado a engrenagem da verossimilhança, sem pieguice gratuita ou relativização das mazelas. Tudo isso, sem perder a característica de um bom folhetim, com os seus clichês que, em ‘Malhação - Viva a Diferença' se fazem adoráveis e só contribuem e somam com esse projeto maravilhoso.

Daiane Anselmo
