Governo Temer é um zumbi

Atuando como morto-vivo, governo Temer se mantém somente graças aos parlamentares

Michel Temer (PMDB) em discurso sobre as delações de Joesley Batista (18/04/2017)

Então eis que surge uma notícia bomba proferida pelo jornalista Lauro Jardim d’O Globo. Nela está descrito que o presidente Michel Temer havia concordado com pagamento de propina para manter o silêncio do ex-deputado Eduardo Cunha. No mesmo momento o governo começou a viver seu pior momento desde quando assumiu após a deposição de Dilma Rousseff (PT/RS) um ano atrás. Poderia ser o começo do fim se não havia sido decretado o fim antes mesmo do começo.

Sem sustentação popular, o governo Temer se sustenta em cima do apoio do Congresso Nacional, lugar este tomado por diversos investigados pela operação Lava Jato. De acordo com o site Congresso em Foco, 91 dos 594 congressistas (deputados e senadores) estão sendo alvo de inquérito. Sem contar ministros de estado, outros políticos de menor vulto, prefeitos, vereadores e agora o presidente da República.

Temer tenta de toda maneira convencer deputados e senadores aprovarem as reformas trabalhista e da Previdência o mais rápido possível. Ocorre que a partir do ano que vem, como de costume, políticos não se preocupam mais com votações. Suas atenções de voltam ao pleito seguinte. Ficaria complicado para qualquer parlamentar votar algo em pleno ano eleitoral, ainda mais se o assunto é controverso.

Depois da aprovação do teto dos gastos públicos, congelamento nos aumentos das despesas da União por 20 anos, não existe outra saída para o presidente a não ser votar com pressa a reforma da Previdência. Inclusive já relatei aqui sobre isso, como sinal de premonição.

Sendo sustentado pelos congressistas, Temer não tem outra saída a não ser lotear o próprio governo ou conceder diversas emendas parlamentares. Neste quesito se assemelha a sua antecessora e ao ex-presidente Lula. Tal medida foi veiculada como nota de rodapé pelo Estadão, deixando claro que o presidente estaria inclusive exonerando de cargos afilhados de políticos “infiéis”.

Demonstra com isso que o governo está na mão dos parlamentares, sendo que estes podem barganhar auxílios para si ou para seus afilhados. Foi o caso do Podemos (antigo PTN) que forçou uma nomeação para a presidência da Fundação Nacional de Saúde (Funasa), conforme relatado também pelo Estadão.

A delação de Joesley Batista, dono da JBS, demonstra que o governo caiu a beira do colapso. Nela o empresário relata que pagou propina a Temer desde 2010, e continuou até o mês de março, conforme relatado pelo site O Antagonista. Em outras palavras: áudio com Temer consentindo um crime (no mínimo cometendo prevaricação), a delação de Batista e seu pronunciamento demonstrando que prefere ser investigado a deixar o cargo somente demonstra que o interesse de seu governo é se manter no poder e evitar a prisão.

No meio de todos estes fatos está a opinião pública, que como já havia descrito acima, não gosta nada de Michel Temer. Sua aprovação é baixa, praticamente nos mesmos números de Dilma próximo do impeachment. Com base na pesquisa Barômetro Potítico do Ipsos, o presidente tem 87% de desaprovação. Este número pode ser comprovado pela Paraná Pesquisas em questionário online sobre um possível afastamento de Michel Temer: 86,9% acreditam que Temer deve renunciar, e 88% são favoráveis a um afastamento do presidente.

Sem apoio popular um governo não consegue se manter no cargo por muito tempo, prova disso foi o governo Lula. Mesmo no auge da crise do mensalão, Lula teve as maiores altas de popularidade chegando ao patamar de 80%. Figura inconteste até a Lava Jato, o ex-presidente petista tinha um respaldo popular gigantesco. Diante da crise seu apoio diminuiu consideravelmente, entretanto ainda mantém uma base eleitoral sólida, nos mesmos moldes de velhos políticos como José Sarney ou Paulo Maluf (PP/SP).

Economia cambaleante

Como motivo para sua permanência, Temer em seu discurso enalteceu seus feitos na economia. Disse que está em recuperação e já dava sinais de melhora. Entretanto horas antes o IBGE divulgou um número alarmante. Hoje no país estamos com 26,5 milhões de pessoas desocupadas ou subutilizadas, ficando o índice em 24,1%. Soma-se a este número 14 milhões de desempregados (que não trabalham e não tem fonte de renda), chegando em torno de 40 milhões de pessoas em busca de uma colocação profissional, praticamente metade da população economicamente ativa (PEA).

Outro fator é que não existem bases sólidas sobre o futuro do país, forçando a investidores pensar mais do que duas vezes sobre colocar seu dinheiro aqui. Exemplo foi a queda gigantesca do índice Ibovespa antes do pronunciamento do presidente no dia 18/04, chegando a incríveis -8,8% comparado com 17/04. Entra nessa contabilização o dólar que sofreu uma valorização de 8,15% no mesmo 18/04. Mesmo com os mercados estáveis e mais calmos em 19/04 a recuperação das perdas será lenta, pois ainda o futuro do governo e da nação é incerto.

Sem emprego e sem investimentos falta o essencial para a população: poder de compra. Diferente dos governos FHC ou Lula, mesmo em meio as crises não ocorreu uma perda significativa do poder de compra, as pessoas podiam comprar de maneira igual ou com pouca queda. Graças a política econômica errática de Guido Mantega (PT/SP) no governo Dilma, que culminou com a recessão, as pessoas passaram a comprar menos. Boa parte dos salários foi corroída pela inflação que chegou a mais de 10,67% em 2015 e 6,29% em 2016, claramente diminuída graças ao menor consumo.

A previsão é uma inflação menor neste ano girando em torno 4%, ficando perto da meta, mas não sendo um estímulo para a geração de empregos. Observa-se que o intuito do governo Temer é aprovar as reformas (principalmente a trabalhista) para incentivar o investimento de grande porte, propiciando a geração de empregos em larga escala no curto prazo. Porém vale ressaltar que com uma massa de 40 milhões de pessoas há a necessidade de composição econômica mais rápida, fortalecendo o pequeno negócio e não o grande empreendedor. Este último almeja a lucratividade em escala, pouco importando na manutenção de seus negócios aqui ou em outro país mais vantajoso.

Com recursos escassos no BNDES para “segurar” novos empreendimentos de vulto e sem respaldo político para tocar reformas seguras e aceitas pela opinião pública, se torna difícil gerar empregos, foco principal de qualquer governo.

Decadência

Jogando todas suas fichas em sua inocência, Temer tende juntar o que sobrou da base aliada depois da hecatombe política. Em meio a investigação pela Lava Jato (que já tem fortes indícios de prevaricação), com manifestações de movimentos sociais ligados a setores de esquerda (notoriamente mais firmes em seus propósitos), baixa popularidade, pressão de líderes políticos por sua renúncia, ficará praticamente impossível tocar o barco. Se com Dilma estávamos a deriva, navegando por inércia, com Temer estamos flertando com o abismo.

Alvo de inquérito o presidente ficará preocupado em não manchar sua reputação política e pessoal ou tocar o país? Se optar pelo primeiro poderá acabar com aquilo que sobrou, se optar pelo segundo poderá ser preso. Fica extremamente complexo lidar com essa situação, fica impossível governar dessa forma.

Alguns políticos e partidos da base aliada já deixam o governo. Preocupados com as eleições de 2018 não querem ter sua imagem vinculada a quem possa ser preso em seguida. Exemplo seria o próprio Podemos, que resolveu entregar seus cargos e assumir postura independente. Diferente de Dilma que foi demovida do cargo por irresponsabilidade, Temer cometeu um crime comum, pode acabar indo parar na prisão.

Sobra para nós, brasileiros, convivermos com o abismo ao lado, acreditando que tudo isso sirva de lição: não podemos entregar nosso destino pessoal nas mãos de quem pega em malas cheias de dinheiro de origem ilícita.