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Queria sumir, mas num deu. Queria vagar pelo mundo, mas divagou só no seu. Queria criar um novo “eu”, mas lá no Medium só um poema escreveu. Queria beber água e, finalmente, algum querer daquele dia aconteceu. Voltara da cozinha e o círculo ao lado da sua foto de perfil contava mais duas notificações. Não queria que respondessem nada, mas tava lá — e era “write a response” não “add a comment” — então um cara respondeu. “Se servir de dica, ainda que não supra o seu querer”, ela começou a ler e, puta que pariu hem, porque três linhas de dois dias atrás tinham feito aquele cara escrever tanto? Continuou…

Você pode fingir que sumiu, põe um papel na porta — trancada — do quarto com “NÃO ESTOU, NÃO BATA, FUI ALI” escrito assim mesmo, em caixa alta; daí se o espaço não é suficiente pra ficar vagando, não há qualquer problema em ficar só divagando, e você nem precisa fingir que tá no mundo, porque você estaria no seu quarto que é justo o melhor mundo, o seu — mas tem que ficar divagando com papel e caneta do lado ou perto do computador, ligado e com uma tela do Word ali só esperando pelo terceiro e último ato do espetáculo; e quando você perceber quantas outras pode ser, sempre que quiser ser, sendo até a mesma porque não queria e agora quer…

Ela dividia o quarto com a irmã mais velha, impossível colocar um aviso na porta e se fazer dona do espaço. O que logicamente transformava aquele mundo mágico que o outro falava em algo realmente fantástico e tudo a ver com fruto de divagações. Sentiu saudades de escrever com papel e caneta, mas a modernidade tinha seu encanto. Havia escrito no Medium, mas falar da tela do Word a fez sorrir, os dentes sutilmente amarelados, resultado dos cigarros de filtro amarelo que lhe acompanhavam em dias como aquele. Quase todos os dias.

porque não queria e agora quer. É aí que a mágica vai acontecer, você vai ver. O espetáculo se encerra. Num piscar de cortinas, a plateia outrora sentada aplaude de pé. Era um monólogo e ninguém sabia. Estavam surpresos, encantados e constrangidamente inspirados…

Ainda há pouco ele dizia que era uma dica que não supriria o querer dela — o que a fez se perguntar se não teriam sido palavras suficientes para que ela não desse continuidade à leitura — e agora a coisa parecia não estar mais fazendo sentido nenhum, porque ele começou a falar de espetáculo, cortina e plateia e… Bem, era só ela, um computador e a irmã na cama do outro lado do quarto. E talvez ele também estivesse num quarto. Ou no trabalho, ou na casa da amante — não, ele não teria se prestado a isso. “Que viagem”, pensou alto e a irmã perguntou se ela tinha fumado um também. A irmã mais velha que ela achava um ótimo exemplo. E era mesmo.

constrangidamente inspirados. Era melhor não dar vazão à inspiração, então seguiram todos no rumo dos bares. Vinte três e quinze ainda, a noite era longa. Todas as mesas dos bares ocupadas, as cadeiras eram contadas, exatamente o mesmo número de poltronas do teatro era o número de cadeiras que se distribuíam entre os bares com todas as mesas ocupadas. Tinha apenas uma vazia, mas a casa estava cheia. Onde o rapaz estaria?

“Onde?”, ela pensou em voz alta de novo e a irmã resmungou alguma coisa inaudível do outro lado. Até que estava curiosa agora. Porque o number seven de três linhas tinha dado pano pra uma manga de um monte de linha daquela? Porque ela tava achando que aquele cara era louco e continuava a ler aquelas loucuras? Era só fechar a página e… Estava loucamente curiosa pra saber se podia ficar melhor ou era só aquela baboseira toda mesmo. “Vai que no final disso tudo o cara vem e diz obrigado, você me inspirou o começo de um livro e daqui uns anos ele aparece na minha porta, rico porque o livro foi sucesso e eu ajudei na inspiração e ele me dá cinquenta por cento e”, ela não estava pensando alto até aquele momento. “Eu to ficando louca”, dessa vez pensou mais alto que as outras vezes, e a irmã disse pra ela relaxar e curtir a onda também. Ah, se a mãe delas ouvisse uma coisa daquelas.

Onde o rapaz estaria? Constrangidamente inspirado, caminhando a curtos passos pelas ruas escuras da cidade, ele se perguntava sobre os quereres da artista. Sobre os quereres que não podia, sobre os não quereres que podia e sobre se algum dia pôde algum, quiçá só um, do que ousou querer. E pensava sobre a vida da artista. Sobre ter certeza que era filha, mas não saber se era mãe. Sobre talvez ser irmã e quem sabe até tia. E divagava sobre a artista. Sobre não saber se era mesmo Letícia ou nome de personagem fictícia. Sobre não saber se ela gostaria se a chamassem Let — se fosse mesmo Letícia.

Agora o cara tava brincando com o nome dela. Dois minutos antes a irmã havia ido saciar a curiosidade do que tanto fazia a outra conversar com o vento. Letícia esperou até que ela chegasse no mesmo ponto da leitura para poder continuar. “Você entendeu alguma coisa?”, a mais velha perguntou. “Claro que não né?!”, ela respondeu. “Imaginei, depois eu te explico”. “Como assim?” Letícia pensou, mas estava mais curiosa pra saber até onde ia aquela bobeira mirabolante que só agora ela via o quão estranho era o nome do outro que a escrevia.

…se fosse mesmo Letícia. Foi assim até que chegasse em casa, de onde, na verdade, nunca havia saído. Enquanto se perguntava sobre quereres, pensava sobre a vida e divagava sobre arte, não caminhou sequer um único passo pelo quarto com botões, telas — de tv, celular e computador — e lâmpadas acesas. Estava constrangidamente inspirado e mais constrangido ainda porque se dispôs a usar o espetáculo de três atos da outra para escrever um roteiro sem pé nem cabeça, tentando encontrar com si mesmo. Tentando re-encontrar a si mesmo. O artista que ele não só queria ser, mas que era. Que é. Um dia ele, com certeza, iria a ela agradecer. Ainda que não tivesse nem cinquenta centavos como direitos inspirais pra oferecer.

Era assim que terminava? Queria sumir, mas num deu. Queria vagar pelo mundo, mas divagou só no seu. Queria criar um novo “eu”, e acabou que outra dela aquele cara criou e sobre ela escreveu. Talvez não tivesse suprido o querer dela, de fato. Mas queria encontrar outra e de fato um encontro aconteceu. Com as palavras de um outro. “Ele nem sabe quem sou eu”, pensou alto e a irmã deu uma risadinha, fazendo pouco da percepção de Letícia, que nem lembrava da outra ali. E nem lembrava do que ela tinha falado — Imaginei, depois eu te explico — o que acabou lembrando também. “Você disse depois eu te explico como se tivesse entendido mais do que eu”, o que não era uma pergunta, mas ela esperava uma resposta que a mais velha não deu. “Agora eu tô com preguiça e você também deveria estar depois de tudo o que leu. Deixa essa história pra outra hora”, foi só o que disse. E sumiu. Como se nunca houvesse existido. Como todos os fatos da história contada — com exceção do poema que a Letícia escreveu. Number seven, #7: três linhas num sete que como um só poema existiu.

Um sete que peço perdão por tê-lo feito tão meu. É o dia do meu aniversário e chamo número da sorte. Sempre foi assim, como aconteceu nesse texto: quando eu dava por mim lá estava ele, entre palavras, anos ou — o que eu só percebi durante a escrita desse montão de coisa aí, porque, mea culpa, tinha aberto em nova aba e, quando cheguei nessa que era a sua, já fui de cara nos versos — no título de um poema tão sutil que me inspirou a escrever intensa ininterruptamente. Peço perdão e agradeço — porque não sei se estaria certo dizer ofereço minha gratidão que era o que eu verdadeiramente queria dizer . Nos últimos dias isso tem acontecido com frequência — desde que ingressei no Medium, e é muito bom quando, além de poder dar um feedback pra quem escreve as coisas que eu leio, eu consigo escrever umas muitas palavras que se ligam, ainda que fugindo ao padrão. Vou parar de falar. Esse último parágrafo era só pra dizer “obrigado” e veja só… Só agora que eu disse. Obrigado, de novo. :)