ama-te a ti mesmo

acredito que o amor-próprio é o remédio para a maioria dos nossos problemas privados. mas por ser tão crucial para as nossas vidas, ele também é extremamente difícil de ser conquistado. o amor-próprio é uma jornada que assumimos em algum momento da vida, e duvido que alguém já tenha chegado ao ponto em que seu amor-próprio é completamente impenetrável e incorruptível.

gosto de pensar que estou me saindo razoavelmente bem nesse negócio. talvez até minimamente melhor do que alguns, que ainda relutam (talvez até involuntariamente) para entender que devemos amar a nós mesmos da mesma forma que amamos as pessoas mais queridas. mas isso não significa que sou impenetrável e incorruptível. ainda tenho um bocado de trabalho para fazer nessa matéria, e a vida tem um jeitinho sutil e sagaz de me mostrar isso.

de quando em vez, a vida me lembra que o amor-próprio é uma competência adquirida, e por tanto, requer dedicação, esforço e prática. e todos sabemos que dedicação, esforço e prática podem resultar em uma combinação cansativa, desafiadora e até mesmo dolorosa.

há alguns dias, a vida me propôs um teste em amor-próprio. enquanto organizava papéis antigos, encontrei por acaso algumas cartas que recebi de um ex-amor, anos atrás. eu sabia que ainda as tinha, mas pouco me lembrava delas e ainda mais raramente sentia necessidade de relê-las.

mas ainda não tinha me desfeito delas.

nesse reencontro, tirei alguns minutos para lê-las mais uma vez. ri com os nomes ridículos com que nos chamávamos e com as promessas ingênuas que fazíamos, e fui invadida por uma sensação aconchegante de que outrora havia amado alguém, e mais que isso, também havia sido amada por outro. até aquele momento, entretanto, não tinha me dado conta de que esse era o motivo pelo qual nunca tinha tido a coragem necessária para me desfazer delas.

aquelas cartas eram uma espécie de confirmação de que eu merecia ser amada por outras pessoas. aquelas cartas eram evidências de que era possível que outra pessoa me amasse.

indiscutivelmente, ser e sentir-se amado por outros também é essencial, talvez tão fundamental quanto amar a nós mesmos. mas às vezes acabamos por condicionar nosso amor-próprio ao amor dos outros, como se só pudéssemos nos amar enquanto outros o fizerem.

era isso que aquelas cartas faziam por mim em cada uma das poucas vezes em que as reli. elas validavam meu amor por mim mesma, fundamentadas naquele que outro sentiu por mim, há anos. e ainda que seja prazeroso saber que fomos (e que somos) amados por outras pessoas, decidi que não mais permitiria que meu amor-próprio seja um produto do amor de outrem — nem mesmo uma mínima parte dele.

rasguei uma das cartas ao meio assim que terminei de lê-la. fiz o mesmo com a outra, e a seguinte, e com todas as restantes. joguei todas fora, com medo de que também estivesse jogando fora alguma forma de amor — passado ou futuro. com medo de que algum dia precise daquelas cartas para me lembrar de que eu posso ser amada por outros, não importa quão difícil, peculiar e complexa eu seja.

mas amor-próprio é uma competência adquirida, certo? como dançar balé, ou tocar bateria. é preciso praticar todos os dias, e continuar treinando mesmo quando o corpo inteiro dói e as mãos sangram, para que um dia seja possível dizer orgulhosa e humildemente que se é bom nisso. e mesmo depois desse dia, ainda será preciso continuar praticando, ou então os músculos enrijecerão, e a habilidade de fazer um plié ou improvisar um solo de jazz terá partido.

apesar disso, apesar do esforço, da dedicação e da prática que o amor-próprio exige, os praticantes dessa modalidade são recompensados de forma similar àquela com que os praticantes de balé e bateria são gratificados: eles também são invadidos por sentimentos de orgulho, contentamento, felicidade e realização plenos. e por fim, também são tomados por amor — por si mesmos e pelos outros.