Como a Miley Cyrus mostrou que ainda me faltava desconstrução

Ou como o caminho é longo, por mais feminista que a gente se considere.

Vamos lá. Eu não sei se em algum momento tive idade pra gostar de Hannah Montana — que começou a passar quando eu tinha 13 anos, em 2006 — mas eu gostava e bastante. Assistia sempre no Zapping Zone do Disney Channel (como todas as séries desde Lizzie Mcguire até Zack & Cody. Me processe). Sempre gostei da Miley Cyrus e como ela parecia ser gente boa. A trilha sonora do filme da Hannah Montana é uma das minhas favoritas da vida.

Quando a Miley lançou o Bangerz, alguma coisa me incomodava muito e eu não conseguia entender o que era. Eu sei que amava Wrecking Ball, mas todo o conceito por trás do álbum me incomodava, o comportamento da Miley me incomodava, as letras, as ideias, o que ela tava vendendo ali simplesmente não me pegava.

Então, por muito tempo, fiquei com essa micro-implicância com a menina por nenhum motivo, porque todo o lance com a língua, a sexualização e as roupas não me agradavam. Eu sei que pra Miley pouco importa se a Jessica-Who não ouve seu álbum novo no metrô pra Pavuna. Mas pra Jessica que curtia a Miley, essa nova percepção sobre a artista me incomodava, porque eu não conseguia encontrar o porquê de não curtir mais. Faz sentido?

E eu SEI que é um processo normal você não gostar de uma obra de um artista. Maroon 5 é minha banda favorita da vida e lançou um álbum chamado Hands All Over que salvam duas músicas e o resto é melhor esquecer. Mas esse álbum ruim não fez eu desgostar do trabalho deles, ou ter implicância com a banda e não me impediu de ir a todos os shows que eles já fizeram no Rio de Janeiro.

Depois de um tempo eu simplesmente deixei pra lá e parei de ouvir… inclusive as músicas que eu gostava (tirando The Climb. The Climb é um hino).

Pula pra 2017 e a Miley anuncia que vai lançar um álbum novo (inclusive O QUE É MALIBU? AMEI!), voltando às raízes country(a era Marília Mendonça chega pra todos), dá uma entrevista incrível pra Billboard e de repente eu percebi que ela não me incomodava mais. Engraçado, não é? Quando ela “admite” que está numa fase diferente da vida, que mostrar os mamilos não é mais prioridade, eu finalmente volto a gostar dela?

Aí veio insight. Eu não gostava da Miley Cyrus porque em 2013 ainda tinha (e provavelmente tenho hoje ainda) resquícios desse machismo enraizado, que manchava minha visão e me fazia entender que o que a mulher fazia com o próprio corpo dela era errado. Me incomodava porque não importa o quão queremos ser livres, ainda nos incomoda se a liberdade do outro não se encaixa nos nossos padrões pré-concebidos.

Você pode ser livre sim… pero no mucho. Você pode usar essa blusa sim, mas com essa calça? Você pode transar com essa pessoa sim, mas com essa também? Olha, esse cabelo cacheado é incrível, mas com essa franja? Piercing no nariz tudo bem, mas esse no septo?

Eu não comecei a gostar automaticamente do Bangerz, não é assim que funciona. Eu só percebi que tá tudo bem. Ela não fazia nada errado, o modo como ela se expressava era a verdade dela (ou não, podia ser tudo marketing) e que quem tava errada era a minha cabeça.

E vamos combinar que a Miley Cyrus (ou a Rihanna, a Anitta, a Maria do Bairro ou whatever) não precisa da minha validação pra coisa nenhuma, mas é bom você perceber que quebrou mais uma caixinha e deu mais um passinho. Vitória das meninas!