Cartas que as traças não comem: para L. M.

Olá, L.M.! Tudo bem?

Me deu saudades do tempo em que a gente se escrevia. Escrevia na forma literal, papel, caneta na mão e enfeitava o envelope. Te escrevo agora assim, abertamente, pois a vida é curiosa, tanto quanto é veloz. Há tanto tempo não falamos mais seriamente, não tocamos mais nos assuntos que adorávamos, nada mais sobre nossos livros, da última pessoa que beijamos, do show que fomos. Trocamos rápidas mensagens nas redes sociais, mas nada tão caloroso, não foi? O carinho persiste, claro, não esfria, mas onde estamos mesmo um na vida do outro?

Há pouco tempo te mandei uma mensagem pedindo seu novo endereço, porque queria te enviar uma coisa: era uma carta para você que encontrei aqui. A última que escrevi, mas não enviei. Falta de tempo, talvez. Esquecimento, talvez. Descaso? Não. Descaso nunca. Sei lá, só sei que não enviei e ponto. Mas veja que curioso: a carta é dividida em três cartas individuais: a primeira em resposta a uma sua, uma segunda complementando-a (pois a encontrei tempos depois e já tinha ocorrido muita coisa, precisava atualizá-la) e uma terceira, também complementando a segunda. Uma vergonha, não enviei, mas foi assim.

O porquê de falar que a vida é curiosa (ou ambígua, sei lá): uma carta com anseios e reclamações. Outra com anseios que se tornaram reais. E a terceira com novos anseios e repleta de reclamações sobre os anseios da primeira que, após se tornarem meu dia-a-dia, caíram no lugar comum e não demoraram a gerar insatisfação. Merda, no fim tudo gera insatisfação. Tudo vira incômodo. Tudo dá dor de cabeça. Sendo o que a gente gosta ou não. Sendo algo prazeroso ou não. Sendo um sonho realizado ou não. Sendo um olho de peixe no pé ou não. E, na pior das situações, vira arrependimento.

Passados quatro anos desde que foram escritas (pois é, quatro anos), haveria uma quarta carta só pra contar o desfecho de tudo narrado nas outras. A solteirice ainda estaria lá, já adianto, há coisas que não mudam. E mais uma pra contar tantos outros rodopios que nem tinha como mencionar. Mais uma, ainda, pra falar das andanças atuais, inimagináveis até então. E, quem sabe, uma apenas para os novos anseios. Porque, pensando bem, é por isso que sempre há algo novo sendo vislumbrado: para termos sempre uma nova carta, ainda que não escrita. Ou, vai ver, pra sempre ter um motivo pra estar junto, nem que for pra contar aquilo que, provavelmente, nem aconteça. Mas pode ser que seja apenas pra você querer falar algo e, na falta da pessoa ali, mantê-la viva na sua memória. Presente, ainda que ausente. E seu novo anseio passe a ser você encontrá-la de novo, para então falar o que quiserem, com anseios ou não, incômodos ou não, arrependimentos ou não: pois não me venham ditar regras para o meu querer bem.

Um beijo, prometo aparecer.

Jessé