Histórias de Macarrão | “Antes o calote que a solidão”

Você já comeu macarrão a parisiense? Tome nota, coloque na lista de desejos, é um conselho de amigo daqueles que você agradece depois. Macarrão com um molho maravilhoso a base de manteiga e trigo, com ervilha, presunto (há quem prefira peito de peru) e leve toque de pimenta do reino. Quer um conselho adicional (afinal, é de graça)? Salpique com queijo prato ou parmesão e pronto: comerá um prato barato e saboroso que lhe fará esquecer do molho bolonhesa e do alho e óleo. É esta receita cheia de aromas que conto a história de hoje.

Foto: Blog Tem Delícia na Cozinha

Há quatro dias conheci Dona R, filha de um japonês falecido e de uma italiana que, em suas próprias palavras, “está melhor que ela e é ruim, ruim, ruim” — a mesma que fazia macarrão a parisiense no aniversário de todos os filhos, lembrou carinhosamente. Dona R é polida, fala baixinho e mora sozinha. Tem três filhos homens, dos quais dois moram em São Paulo e o outro está numa petroleira no Rio de Janeiro. Sua miscigenação é visível: tem olhos puxadinhos, mas seu cabelo é claro, meio avermelhado, além de ter quase minha altura (tenho 1,84). Trabalhou na polícia até aposentar, já teve restaurante, já foi manicure, babá e hoje é consultora de beleza. Avon? Vende. Natura? Claro. Boticário? Vende, mas nem tanto (as clientes acham caro). Hermes? Mary Kay? Morena Lingerie? Tem a linha toda. Perguntei sobre Jequití: “ofereço mais pra concorrer ao Roda-Roda do Sílvio” — faz sentido, então contei que em casa a gente briga pra acertar as palavras. Riu com gosto.

Dona R é informada. Não gosta de computadores mas sabe do mundo. Perguntou sobre minha carreira, falei que trabalhei anos com logística e ela fez um monólogo sobre a importância do setor no Brasil. Falamos sobre empreendedorismo, sobre a cidade que ela aprendeu a chamar de lar e quando perguntei um pouco mais sobre seus filhos, bom, enfim, bateu aquela ardência na garganta, de que não deveria ter feito. Não por ela, mas por mim. Dona R vive com seus cosméticos. Vive com suas lembranças. Dona R é sozinha.

Amigas? Sim, até receberem a cobrança do desodorante que não pagaram, aí não aparecem mais. Clientes? Na urgência, quando precisam do presente de última hora. Pagam? Nem sempre. “Mas a senhora vende ainda pra elas?”, pergunto. “Vendo. Antes o calote que a solidão, né, meu filho?”. Me calei. Não cobrei o prato, ficou pela boa conversa. Me deu uma amostra grátis de um perfume. Foi embora agradecida e voltou ontem pra falar oi.

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