Fetiche e realismo
Ou, qual é o seu hamster?
Slavoj Žižek é um dos meus autores favoritos. É disgressivo, verborrágico, obscuro, zoeiro e um poço sem fim de referências (aparentemente) desconexas. Em A Defesa das Causas Perdidas (Ed. Boitempo, 2011) há um capítulo onde o cara junta Beethoven, Kant, Bill Clinton e Marx. No meio, claro, o fetiche. Ele faz seu papel de bom marxista (?) e disseca o fetiche-econômico à sua maneira. Mas são as considerações mais gerais é que são incríveis. Segue:
“(…) o fetiche pode ter um papel muito construtivo, permitindo-nos lidar com a dura realidade. Os fetichistas não são sonhadores perdidos em seu mundo particular, são pessoas extremamente “realistas”, capazes de aceitar o modo como as coisas de fato são — afinal, elas têm o fetiche, ao qual podem se agarrar para anular o impacto total da realidade.
(…)
[o fetiche é] um objeto minusculo e estúpido ao qual me agarro e que me permite suportar todas as concessões imundas que fiz na vida.
E continua com um exemplo:
Nos círculos psiquiátricos conta-se a história de um homem cuja mulher recebeu o diagnóstico de câncer agudo de mama e morreu três meses depois; o marido sobreviveu ileso à morte e conseguia falar friamente sobre os últimos momentos traumáticos que passou com ela — como? Ele seria um monstro frio, distante e sem sentimentos?
Seus amigos logo notaram que, quando falava sobre a esposa falecida, sempre segurava nas mãos um hamster, o bichinho de estimação dela e agora fetiche dele (…). Não admira que, dois meses depois, quando o hamster morreu, o homem desmoronasse e tivesse de ser internado por um longo período para tratar uma crise aguda de depressão.
Finalmente,
Assim, quando somos bombardeados por declarações de que em nossa cínica época pós-ideológica ninguém acredita nos ideais proclamados, quando encontramos alguém que afirma ter sido curado de todas as crenças e aceita a realidade social do jeito que realmente é, sempre se deve contrapor a tais afirmações a pergunta: “Tudo bem, mas cadê o seu hamster, o fetiche que lhe permite (fingir) aceitar a realidade ‘do jeito que ela é’?”
E aí…qual é o seu hamster?