Não recuse se eu te chamar para meus cafés

Tenho comigo que o café não é uma simples bebida; faz parte de algo maior. Anima os cansados, serve de desculpa aos amantes que querem se encontrar, esquenta o corpo nas manhãs frias e chuvosas e, principalmente, serve para lembrar do cheiro da casa das avós. É um ritual doméstico. Se no oriente há a cerimônia do chá, nas bandas de cá o café é parte do nosso ethos.

E para todo rito há um mito. Conta-se que o café veio de algum lugar da África, onde os guerreiros tribais usavam os poderes da cafeína como arma em suas guerras, embora tenham sido os Árabes quem primeiro tornaram a infusão uma bebida cotidiana. Assim, ela se disseminou conforme o povo do deserto ia viajando pelo mundo e foi considerada um traço característico do povo muçulmano a ponto de ser proibida aos cristãos — o que durou até o dia em que um Papa experimentou a bebida. Sem argumentos diante do aroma, o pontífice resolveu abolir a regrinha nonsense e houve comunhão entre muçulmanos e cristãos (talvez se isso houvesse ocorrido antes, as Cruzadas teriam sido resolvidas em uma tarde).

Mais recentemente ele chegou às terras brasileiras e outros deuses passaram a se beneficiar do grão. O Mercado é um deles. Graças ao café, riquezas imensas foram (e são) criadas e movimentadas por aí, contribuindo para o crescimento e desenvolvimento de pequenos impérios no interior do Brasil ou nas franquias do mundo hipster desenvolvido. E quando vejo baristas com tanto zelo em seu ofício, percebo que elevaram o café a arte ou ciência, não sei ao certo.

Brinco dizendo a amigos que o mineiro é o mais cordial dos brasileiros. E essa cordialidade tem cheiro e gosto. Aqui em Minas, o cafézin é uma cola social. Serve de ponte para que laços sejam criados e mantidos, pois demonstra apreço. Um almoço ou jantar em casa não tem sentido completo se não finalizado com café coado. Uma visita ao meio da tarde é recepcionada com café (e pão de queijo, seu melhor complemento) que, muito provavelmente, foi feito com a seriedade e diligência que só algo muito sagrado requer e com a agilidade e a alegria que só algo muito profano pode ter.

Café coado. Imagem: Pinterest.

Nunca fui muito afeito ao café até há alguns anos, quando, em meio aos compromissos sem fim do Mestrado, me vi na necessidade de algum tipo de substância que me deixasse mais alerta. Um dia lembrei que na despensa da cozinha havia um pó quase-negro que, em outros tempos, fazia guerreiros africanos ficarem ligadões e encararem uma guerra. Se ele me ajudasse a encarar uma prova de microeconomia, já tava valendo. E, naquela noite, o Papa, o Árabe, o Guerreiro Africano, o Hipster, o Barista e o Estudante Ferrado se entenderam na cozinha da minha casa.

Desde então tenho aprendido sobre a bebida e passado a apreciar suas nuances — o grão, a origem, a torra, o método. Não sou dos compulsivos (duas xícaras de coado ou espresso por dia são o bastante para mim), mas é na companhia de uma xícara e sentado num café que tenho meus melhores pensamentos. É nos cafés da cidade que travo os melhores diálogos, encontro meus melhores amigos, ouço os melhores conselhos e dou meus melhores palpites. O café, mais que uma bebida, é um momento de paz, consagrado aos amigos e a mim. É um espaço de bem-aventurança onde estreito laços e demonstro apreço.

Por isso, não recuse quando eu te convidar para meus cafés (ou me convide para os seus).