O geist da sustentabilidade no filtro de barro da cozinha

Existe um filtro de cerâmica na cozinha da minha casa. Repousado num canto estratégico da pia, e graças ao método de filtragem mais eficiente do universo, ele serve água limpa, fresca e com gostinho de casa de vó. Sempre que quero água, lá está ele, realizando seu papel com simplicidade e precisão, tal qual um monge de barro.

Numa tarde banal de calor e sede, abri a torneira e meu coração se encheu de desesperança: nem uma gota pingou do filtro. Culpa do Alckmin? Não (neste caso, pelo menos). Ninguém havia abastecido o coitado com água da torneira. O momento ordinário de descrença se mostrou como um minuto de iluminação: ali entendi um dos geists da sustentabilidade e nunca mais deixei de alimentá-lo.

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Se pudesse definir sustentabilidade diria, de cabeça e sem muito rigor, que é a propriedade que determinado sistema possui em continuar funcionando/existindo ao longo do tempo, mantendo seus aspectos estruturais mais ou menos intactos. Quando falamos de sustentabilidade ambiental, portanto, queremos dizer que é preciso manter mais ou menos intacta a estrutura biofísica sobre a qual esse sistema chamado Humanidade funciona — claro, caso queiramos que ela continue existindo por aí. Pelos fatos recentes, contudo, tenho tido minhas dúvidas com relação a este ponto.

Para que o sistema humano continue é preciso manter mais ou menos intactos os estoques de recursos naturais — os rios, as florestas, o ar, etc. — para que possamos usufruir das utilidades que eles nos oferecem. E por que os estoques acabam, já que é só plantar mais árvore? Em razão dos fluxos. O filtro não pôde me oferecer água, porque o fluxo de retirada foi maior que o fluxo de inserção. Ou seja, tirei mais que coloquei E só me atentei para o fluxo depois que o estoque acabou.

Se a taxa de retirada é maior que a taxa de regeneração, a depender da velocidade com que o recurso é utilizado, o estoque acaba rapidamente — mais ou menos um dia, no caso da água filtrada da minha cozinha. Acontece que existem recursos cuja regeneração demora décadas, séculos, milênios, ao passo que a taxa de retirada desse mesmo recurso rola de forma muito mais rápida — e acelerando. É o que acontece frequentemente com os recursos hídricos de regiões muito populosas. Já viu o filme?

É precisamente este o ponto que qualquer pessoa minimamente séria que esteja envolvida com sustentabilidade deve se atentar: equilíbrio de fluxos, dado o estoque de recursos. Qualquer ação ou discurso que fuja disso será ou oportunismo picareta ou ingenuidade.

As sereias do Cantareira são vítimas do descompasso entre fluxo e estoque. Imagem: G1.com

Até a tarde de glória em que encarei o filtro da cozinha como simulacro da Natureza, apenas minha mãe se preocupava em abastecê-lo — muito mais pelo zelo típico de dona de casa que por alguma noção formal de sustentabilidade. Não me surpreendi com o fato, dado que é a dona de casa quem entende tão bem e de forma tão instintiva dos fluxos e estoques desse microssistema chamado lar (inclusive acho que a Conferência do Clima deveria chamar mais donas de casa e menos burocratas para a reunião de Paris). Meu pai jamais colocou água no filtro e não é estranho o fato de que é o que menos possui sensibilidade ecológica aqui em casa.

O desafio de fazer as pessoas se conscientizarem sobre sustentabilidade é justamente introjetar noções como “cuidado”, “fluxo e estoque”, “responsabilidade” e “limitação” nos padrões comportamentais do cidadão comum. Sabemos que alterar comportamentos demanda esforço contínuo e “táticas” que não necessariamente atinjam o lado racional e objetivo do cérebro, mas também o inconsciente, o subjetivo, o abstrato.

E talvez uma forma de instilar subjetivamente a noção de sustentabilidade passe por fazer as pessoas cuidarem de um filtro de barro na cozinha.

*Agradeço ao amigo Marcos Godoi pela leitura crítica.