O que penso de Dilma Vana Rousseff — um ano depois

Jessé Pacheco
Aug 29, 2017 · 3 min read
Imagem: Alan Marques/Folhapress

Hoje faz um ano que Dilma foi ao Senado defender seu mandato - e lembro que ela se defendeu com bastante dignidade durante um dia inteiro. Vou requentar algo que escrevi na ocasião do afastamento dela em maio de 16, e que republiquei no dia em que ela foi se defender no Senado, em 29 de agosto. Adianto que continuo concordando com o que escrevi lá atrás.

Gostaria de salientar que não me considero um dilmista. Por essa razão, me sinto à vontade para escrever algumas reflexões sem incorrer em favoritismos rasos. Ainda que esteja certo da regressão de uma série de pautas desde seu afastamento e impedimento, não sei se estariamos em posição tão melhor. De outro lado, penso que ela merece respeito e alguma reverência.

Sei separar três coisas — ainda que as três sejam dimensões distintas de um mesmo fenômeno:

1. A presidenta Dilma Rousseff: que errou miseravelmente em vários níveis; que foi intransigente até o osso; que, na ausência das virtudes do antecessor, foi incapaz de corrigir os vícios que marcaram a administração anterior; que cercou-se de uma equipe incapaz de realizar diagnósticos precisos dos problemas externos e internos e resolvê-los a tempo, deixando um passivo econômico de potencial destrutivo, de fato; que, muito embora tenha peitado financistas, alimentou oligopólios às custas da capacidade fiscal do Estado; que poderia ter levado adiante um projeto que colocasse o Brasil no centro das discussões contemporâneas (sustentabilidade, tecnologia, direitos civis, integração internacional), assegurando e reforçando o papel de protagonismo que o país merece em âmbito internacional; mas que deveria ter tido seu mandato assegurado por respeito às instituições democráticas

2. O processo de impeachment: questionável sob vários aspectos, colocado em marcha pelas figuras mais obscuras da nossa fauna político-partidária, a partir de um fato jurídico situado em uma zona cinza da legislação, sem consenso técnico-jurídico (e que, semanas depois, convenientemente passou a não mais configurar como crime), com amplo apoio de setores conservadores e oligopolistas, bem como de parte da população. Os objetivos do processo foram vários e alguns muito bem explicitados desde o final de 2015: da tentativa de alguns bandido se safarem de processos contra si (a chama Solução Temer, com Supremo, com Tudo) à imposição (goela abaixo) de um projeto liberal que em doze anos não conseguiu apoio nas urnas e que, portanto, não ressoa com o desejo da maioria da população;

e 3. A mulher Dilma Vana Rousseff: uma figura interessantíssima que, décadas após ser perseguida pela ditadura por lutar ativamente contra ela, foi duas (duas!) vezes eleita democraticamente. Vítima de uma conspiração palaciana, não se acovardou sob o recurso da renúncia e lutou até o último minuto; atravessou a Praça dos Três poderes, entrou no ninho da serpente e enfrentou com dignidade seus acusadores durante um dia inteiro. Uma pena que o discurso dominante vai reduzi-la a uma figura fria e opaca e jamais admitirá que se trata de uma das mulheres mais instigantes de nossa História.

O fato é que, curiosamente, ela é a única figura que saiu de todo oprocesso maior que entrou. Todos demais saíram menores. Todos os demais perderam alguma coisa — e isso inclui você e eu.

)

Tentando transformar chumbo em ouro.

Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade