O que penso de Dilma Vana Rousseff — um ano depois

Imagem: Alan Marques/Folhapress

Hoje faz um ano que Dilma foi ao Senado defender seu mandato - e lembro que ela se defendeu com bastante dignidade durante um dia inteiro. Vou requentar algo que escrevi na ocasião do afastamento dela em maio de 16, e que republiquei no dia em que ela foi se defender no Senado, em 29 de agosto. Adianto que continuo concordando com o que escrevi lá atrás.

Gostaria de salientar que não me considero um dilmista. Por essa razão, me sinto à vontade para escrever algumas reflexões sem incorrer em favoritismos rasos. Ainda que esteja certo da regressão de uma série de pautas desde seu afastamento e impedimento, não sei se estariamos em posição tão melhor. De outro lado, penso que ela merece respeito e alguma reverência.

Sei separar três coisas — ainda que as três sejam dimensões distintas de um mesmo fenômeno:

1. A presidenta Dilma Rousseff: que errou miseravelmente em vários níveis; que foi intransigente até o osso; que, na ausência das virtudes do antecessor, foi incapaz de corrigir os vícios que marcaram a administração anterior; que cercou-se de uma equipe incapaz de realizar diagnósticos precisos dos problemas externos e internos e resolvê-los a tempo, deixando um passivo econômico de potencial destrutivo, de fato; que, muito embora tenha peitado financistas, alimentou oligopólios às custas da capacidade fiscal do Estado; que poderia ter levado adiante um projeto que colocasse o Brasil no centro das discussões contemporâneas (sustentabilidade, tecnologia, direitos civis, integração internacional), assegurando e reforçando o papel de protagonismo que o país merece em âmbito internacional; mas que deveria ter tido seu mandato assegurado por respeito às instituições democráticas

2. O processo de impeachment: questionável sob vários aspectos, colocado em marcha pelas figuras mais obscuras da nossa fauna político-partidária, a partir de um fato jurídico situado em uma zona cinza da legislação, sem consenso técnico-jurídico (e que, semanas depois, convenientemente passou a não mais configurar como crime), com amplo apoio de setores conservadores e oligopolistas, bem como de parte da população. Os objetivos do processo foram vários e alguns muito bem explicitados desde o final de 2015: da tentativa de alguns bandido se safarem de processos contra si (a chama Solução Temer, com Supremo, com Tudo) à imposição (goela abaixo) de um projeto liberal que em doze anos não conseguiu apoio nas urnas e que, portanto, não ressoa com o desejo da maioria da população;

e 3. A mulher Dilma Vana Rousseff: uma figura interessantíssima que, décadas após ser perseguida pela ditadura por lutar ativamente contra ela, foi duas (duas!) vezes eleita democraticamente. Vítima de uma conspiração palaciana, não se acovardou sob o recurso da renúncia e lutou até o último minuto; atravessou a Praça dos Três poderes, entrou no ninho da serpente e enfrentou com dignidade seus acusadores durante um dia inteiro. Uma pena que o discurso dominante vai reduzi-la a uma figura fria e opaca e jamais admitirá que se trata de uma das mulheres mais instigantes de nossa História.

O fato é que, curiosamente, ela é a única figura que saiu de todo oprocesso maior que entrou. Todos demais saíram menores. Todos os demais perderam alguma coisa — e isso inclui você e eu.

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