Conto musicado — Mad World (feat. Gary Jules) — Michael Andrews

Sua mãe sonhava que sua filha fosse uma princesa. Que fosse muito cobiçada e que encontrasse um príncipe que lhe levasse às nuvens.

Ela estava certa. Num conto desencantado, Alice, através do espelho, via seu reflexo principesco, de maquiagem e cabelos feitos em um penteado impecável. Seu vestido, rodado, de um azul brilhante, lhe pesava um pouco.

- Alice, a fila já está formada. Vem logo!

Alice era a Cinderela do grande complexo de entretenimento Disney World. Com aquele rosto de princesa, corpo esbanjando juventude e desinibição suficiente, custou apenas satisfazer algumas “bestas” para que a bela conseguisse um papel ou outro (oras de certo destaque, oras não).

Em verdade ela gostaria de ser sua princesa homônima, vaga já preenchida, infelizmente. Mas ela já estava acostumada a ser sempre outra pessoa, completamente diferente do que ansiava.

Ao fim do dia, suas bochechas já doíam de tantos sorrisos e os braços restavam tesos e suados. Eram centenas de crianças (e adultos!) por dia para abraçar, beijar e dar autógrafos. Logo ela, que se tornou meio avessa à muito contato. Tirando, por óbvio, com seu namorado Charles.

Charles chegava em sua moto branca de incontáveis cavalos. Era o príncipe dela. Vê-lo lhe dava um alívio. Relaxava os ombros, curvando-lhes um pouco pra frente, mostrava a língua de fadiga num entre sorriso, enquanto revirava os olhos.

Iam para seu minúsculo apartamento, bem longe dali. Uma princesa sem castelo, longe de magia.

- Trouxe pra você, baby.

Charles entregava o mínimo papelzinho com o desenho de uma pequena coroa para Alice. Com o dedo, juntos eles depositavam sobre suas línguas, num belo pacto. Após, era só sonho.

Alice podia ser gigante e mínima. Entrava em estado líquido e gasoso e fluía. Tudo se tornava incrível e imensurável. Via as nuvens rosas, púrpuras e lilases, que tão lindamente brilhavam e iluminavam todo o entorno. Ela podia tocá-las.

Caiam na cama, jogando-se. Ambos com um sorriso débil em seus respectivos rostos. Aquela noite, Alice sonharia que finalmente seria famosa atriz, e não mais aquela quase inocente meretriz.

De todos os sonhos, sua mãe deveria ter desejado apenas que sua filha fosse feliz.