Sobre emoções e espirais

Vamos começar pelo clichê: a primeira crise a gente nunca esquece.

Primeiro vem a crise da adolescência: Que graduação vou fazer? Em qual universidade? Eu quero mesmo fazer faculdade? Dizem que somos a geração que não tem emprego fixo, que trabalha na praia, super de boa. Por que preciso estudar algo que não tenho certeza que quero? Eu tenho apenas 17 anos, poxa.

Depois da resignação e do diploma superior pendurado na sala para que as visitas elogiem, a crise dos 20 e poucos anos bate à porta.

Essa crise parece ser normal para qualquer um e acontece em várias décadas (as crises dos 30 e depois dos “enta” — 40, 50, etc.).

Agora, imagine colocar nesse caldeirão de emoções (olha mais um clichê aí!) um transtorno de ansiedade básico. Uma depressão “de leve”.

(Sim, é isso o que eu tenho. Ou o que os médicos disseram que eu tenho).

Pode ter certeza de que a crise é agravada.

A gente tenta entender o que se passa na nossa cabeça com livros, vídeos no youtube (alô, TEDx!), depoimentos em blogs e grupos em redes sociais. Às vezes dá um conforto na alma pensar que outro ser humano também passa por isso, com diferenças aqui e ali — afinal somos seres particulares, com vivências diferentes também. É bom parar de enxergar o próprio umbigo de vez em quando (ok, chega de clichês). Mas a ansiedade e a tristeza, ah! Elas são iguais.

Minha ansiedade é um caso sério. Se hoje é domingo, já estou pensando em como será minha próxima semana; cada dia tem um plano muito bem definido. Faço isso há anos, mas no alto de meus 20 e poucos ainda não aprendi que as coisas não funcionam assim. É bom ter planos, mas é melhor ainda saber lidar quando eles não dão certo.

Não adianta. Tenho cinco minutos de lucidez mas logo depois já estou à frente do tempo, planejando o que sei que pode não acontecer e nem um pouco preparada para a frustração.

Seria até normal se eu fizesse isso apenas com a semana seguinte. Meu problema, de fato, é tentar prever o que vai acontecer comigo no próximo ano, na próxima década. Nos próximos 30 anos.

Vou estar satisfeita com a minha vida? Terei filhos? Eu quero ter filhos, mas vou conseguir criá-los de forma adequada? Hoje não consigo nem pensar em preparar algo saudável pra eu comer, imagine para uma criança em fase de desenvolvimento. Se eu tiver filhos, vou conseguir continuar na carreira? Aliás, devo continuar na minha carreira? Serei bem-sucedida? E o que é ser bem-sucedida?

E é assim, amiguinhos, que começa o que chamo de Espiral da Ansiedade.

Uma pergunta leva a outra, e quando você se dá conta já está deitado na cama engolindo o choro, respirando aceleradamente com a sua gata te observando como se dissesse: você é muito idiota.

Minhas crises, enfim, são assim: começam com uma tentativa de planejamento de qualquer coisa e logo estou fazendo mil perguntas mentalmente, cujas respostas não são nem um pouco claras ou previsíveis, e então a respiração fica difícil, me sinto desesperada, sem ter controle de absolutamente nada — muito menos das minhas emoções.

Uma espiral bem bacana para ilustrar o texto

Não tenho uma dica, um conselho, um remédio. Inclusive, se você tiver, me fale! — por favor.

Só queria fazer o “famoso” desabafo. No Medium. Pra qualquer um ler. É, é. Pode ser que ajude alguém que está procurando “depoimentos” de quem sofre com ansiedade, como eu já fiz incontáveis vezes.

Será que essa pessoa vai gostar do meu texto? Ela provavelmente vai achar bem raso, bem “lugar-comum”. Ela usa muitas aspas, será que não tem confiança no que escreve?

E assim começa o que você já sabe.

Aquela espiral.

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