Qual é o seu sonho?

Eu não sei mais o meu. Eu já tive muitos sonhos. Até pouco tempo atrás, eu cheguei a fazer uma lista de metas para conseguir realizar os maiores sonhos que construí nos últimos anos. Dias se passaram e agora eu não sei mais o meu sonho. A sensação é de estar perdida, como se algo em mim faltasse. Acho que é isso que acontece quando a gente rompe uma caminhada automática de buscar por algo, pelo momento grandioso da nossa vida. Passei a perceber a ideia de ter um sonho na vida como uma espécie de boicote à felicidade de sentir conquistas diárias. Muitas vezes a gente deposita uma grande expectativa em desejos e se dedica de corpo e alma nessa corrida ao objetivo. E o que a gente sacrifica no meio desse caminho não há mais recuperação. Eu sinto tanto por perceber que a esperança no amanhã tira boa parte da grandiosidade do presente. É por isso que me pergunto o que somos sem a necessidade de se doar para uma busca que pode nunca satisfazer. Acho a busca vicia e eu me viciei tanto que me vejo mais eufórica com ela do que com a realização. Eu não sei, mas vi a ideia do sonho como mais uma pressão/obrigação social. Tá tudo bem não ter sonhos. Tá tudo bem viver várias experiências que nem sempre seguem uma linha lógica.

Mas não está tudo bem (não ainda), não funciona assim, porque eu já tive muitos sonhos e eu não sei mais qual é o meu. Parece que perceber algo, ter uma nova perspectiva que soa libertadora, põe em cheque tudo que se sente e pensa. Por um lado, descobre-se uma forma de se libertar; mas, por outro, não é possível aderir a libertação porque a prisão social, aquele amontado de normas e condições que vagueiam como cultura do ser humano, não se esvai com facilidade. Afinal, é nosso molde.

Moldei-me em sonhos, nos vários que já tive; hoje não sei mais o meu. Mas, definitivamente, quero aprender a sair dessa forma e caber dentro de minhas realizações. As que foram conquistadas até agora. As que estão em progresso. As que vão se concretizar. Não tenho mais um sonho para me apegar, mas tenho uma realidade para viver todos os dias.