Fluxo

Tessi Ferreira
Nov 6 · 3 min read

(-Quer acender a luz pra ler?

-Não… Vou só deitar aqui do lado, tá bem?)

Por vezes é mais fácil colocar devorar despejar escrever parir jogar vomitar falar tudo em uma tacada só. Sem ordem, na desordem, como um único fluxo de pensamento (os) que é possível esgarçar em um punhado de palavras e condensar em uma única respiração. Uma única respiração. Não prever o momento do próximo fôlego. Não ter certeza se haverá um próximo fôlego, pode ser que depois do vômito venha a morte. Venha o sufocamento. Pode ser que todas as palavras voltem para dentro e não dê tempo de engolir tudo, pode ser que elas se embolem na garganta e impeçam a respiração. Hoje eu não coloquei nenhuma música, pode ser que você me chame e eu não ouça. Então estou escrevendo no silêncio. Não absoluto. Tem o barulho dos teclados, da minha respiração, o barulho do silêncio e da chuva caindo lá fora. Também uma chuva despencando aqui dentro. Eu acho que estou chovendo. Estou sangrando também. Eu nunca tive nenhum problema em tirar sangue, doar sangue, fazer exames no geral. Mas eu lido mal com ferimentos. Tinha uma adaga atravessada na minha garganta. Quanto mais se aproximava mais a adaga crescia. Eu quis tanto chorar. Você disse que eu fiquei “sem cor” e eu devo ter ficado. Chovi. Você tentou me acalmar, e eu cheguei a pensar “não fala nada, não tá ajudando”. Pensei que era um pensamento egoísta e tentei repelir. A sua cicatriz é bem grande, mas me parece que o médico fez um bom trabalho, ficou bem fininha. Eu queria saber qual é a sensação de costurar a pele. Qual a textura? O peso? Qual a força necessária? Eu queria saber tudo isso mesmo sabendo que talvez eu seja incapaz de realizar tal atividade. Costurar a pele é fechar a ferida, guardar o corpo, esconder as entranhas, cobrir o sangue, colar de novo, refazer, juntar as partes, é preciso ter mãos firmes. Corpo estendido. Corpo nu estendido. Intimidade. Sigilo. Senti que só eu poderia pertecer àquele momento. Segui todas as suas instruções e pronto. Consegui. Não desmaiei, não chorei, não passei mal. Eu não sou mãe. Não imagino o que seja isso. Não sei se quero experienciar. Acho que não. Mas eu sou filha. E nasci de uma mãe. Cuidar carece coragem, carece decisão, ousadia e força. Cuidar exige assistir os ferimentos serem abertos e serem costurados. Será que a gente sempre escolhe com quem dividir as mazelas e as curas? Às vezes é preciso agulha de costurar alma, de laçar segredos, é preciso segurar o choro e bater no peito, forjar a coragem, pra que uma hora ou outra ela se faça de verdade. Para amar é preciso selar um pacto com as feridas, do outro, minhas. O amor. Uma linha cheia de cerol passando pertinho do pescoço enquanto o corpo boia no mar, enquanto os olhos transbordam o céu, enquanto seguro seu corpo e enquanto você segura o meu. A parede do fuzilamento. O veneno na boca. A beira do precipício. A caverna escura. Mas os fogos de artifício preenchendo o céu e não os tiros. Mas a víbora que ama a mortandade vital do veneno. As mãos que me empurram do precipício mas que me dão asas largas e eu pouso no chão, e não a queda. A fonte das bençãos no fundo da caverna e não a cegueira. Quando eu estiver ferida eu quero correr pro mar, eu quero deitar em um oceano manso, quero que o sal purifique o meu tecido exposto. O meu sangue tem gosto de ferro. O seu tem também? Você já provou? Posso provar? Será que o nosso sangue tem memória? Será que ele recorda? Regenerar é estancar o sangue. Colocar o punho no vazamento e impedir o escoamento. Se você precisar, eu te empresto o meu punho. Pra um tanto mais de vida. Mas essa água toda, que eu estou chovendo, tá desaguando aonde? Espero que quando eu passar a língua o gosto seja salgado. Como o suor, como as lágrimas, como o mar.

    Tessi Ferreira

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    Autora do livro de crônicas “Campo Minado” (à venda aqui bit.ly/campominadolivro). Artista da cena, das palavras e estudante. Esse é um espaço de troca.