A CULPA É DOMINGO

Mais uma vez, entre tantos motivos, nós nos desencontramos na vida e chegamos a este fatídico dia: o domingo. Digo isso porque fim de relacionamento é como um domingo qualquer: falta perspectiva, falta tato, sobram o sarcasmo e a preguiça de levar a vida.

Você tenta transcender, mas permanece ali completamente apocalíptica como uma noviça de Nostradamus, prevendo obviedades e achando que será o fim do mundo. Então cansada/descabelada com as unhas roídas, como em um mantra, tenta convencer-se de que “tudo passa”.

Se fosse qualquer outro dia, passava. Mas é domingo. 
Sabe como é, todos os domingos que largamos pela vida vão se somando e se tornando engrandecidos. É questão de tempo para que se tornem também malqueridos e lascivos.

No domingo não existe a doçura evocativa dos outros dias.
De fato, a desprazer é perverso, te dilacera como os dentes de um canalha e por hora, não te deixa nada.

Grande Nelson Rodrigues já advertia:
“ O amor que morre não deixa nenhuma nostalgia, e eu diria mesmo, não deixa nada. O que nos fica dos amores possuídos e passados, é simplesmente o tédio, talvez o ressentimento, talvez o ódio.

Sim, o ódio move. 
É bem verdade que dizem que este é um sentimento para os fracos, mas tomar um pé na bunda é como ver um sonho rolando escada a baixo. 
É sentir a cara esfolar no asfalto.
Dói o estomago, trava a garganta, atropela e fere a alma. 
Então, por fim, sim, sentimos-nos fracos.

E não adianta tentar remendar um amor arruinado: ligar com um sorriso, convidar pra um café e chamar aquela pessoa agora tão distante e estranha de amigo. O laivo da dor tá ali, estampado tal como o desconforto de perceber que tudo foi apenas tempo perdido.

Quando acaba dói como um gol contra aos 45 do segundo tempo, sem prorrogação. Então, você olha para o “ex-ser amado”, aquele zagueiro acanalhado, e sabe que é cartão vermelho.
Expulsa!
Pra fora do campo! 
Exige respeito e intimamente sabe que o acusa de ter destruído o seu sonho de ser feliz.

Por isso os domingos são como uma espécie de mácula: nos causam pasmaceira, ócio emocional, dor que parece contemplar com coroa de miss a solidão de quem antes era amada: tudo culpa do domingo!

E nesse momento a distância cai bem. 
Os poetas e os boêmios já sabiam que é sempre melhor o silêncio com duas pedras de gelo para enterrar de uma vez por todas o que já não se pode mais amar.

Mas, apesar de você, apesar de nós, sempre há de chegar a segunda-feira.
A segunda não é exata, pode ser por necessidade ou acaso. 
Ela é impulsiva e pode até parecer forçada, mas não importa os males, ela sempre lava a alma.

Segundas são sempre como um manifesto suave pela delicadeza, pelo recomeço, pela barba na nuca e pela gentileza.