Mesa lotada, café ralo do starbucks e corno job on repeat: bem vindo a geração Y.

Geração Y, soft porn e feijoada light

A nossa geração tropeça nos extremos, publica textão e se perde colecionando ulceras e bonecos de ação. Vale a pena?

Temos a capacidade de fazer mutirão, vaquinhas e publicar textão com a intenção de mudar para melhor a vida de quem nem conhecemos, mas ao mesmo tempo chutamos qualquer um que nos contrarie e somos incapazes de responder a estafa diária com um sorriso na cara para nossos coleguinhas geracionais. Por sinal, se tem uma definição para a geração Y é ultra sapiência azeda.

Nós incorporamos todas as características comportamentais que faria um baby boomer nos chamar de mal comidos”: tudo nos indigna, tudo nos revolta, não sabemos lidar com críticas, mas ao mesmo tempo adoramos criticar e fazemos uma verdadeira shitstorm com uma simples frase no Facebook.

Não somos fáceis! 
Chegamos ao mercado criando novas dinâmicas, questionando os modelos de negócios, mudamos as interações pessoais e derrubamos muros sociais, só que quando alguém nos questiona, do alto de nosso troninho ultra tecnológico, nos armamos e nos sentimos na obrigação da catequização, conversão e desmoralização do individuo oposto. Precisamos trazer o outro pro nosso lado da força, ou então rechaçá-lo.

Precisamos convencer á todos — principalmente á nós mesmos — que o nosso estilo de vida é cool, é consciente, sustentável, revolucionário e libertador. Ignorando o fato que muitas vezes ele é na verdade, chato pra caralho.

Fazemos horas extras sem ganhar um puto por isso. Trabalhamos de final de semana e até transloucamos o happy hour para dentro do escritório para não ter que sair de lá. Levamos a nossa criatividade e a nossa saúde mental ao limite pelo menos três vezes por dia.

-Não vemos nossos amigos de colégio com a frequência que gostaríamos. Pulamos aniversários, casamentos e batizados.

-Não viajamos com a frequência que idealizamos. Abolimos o almoço em família de domingo.

-Muitas vezes não ganhamos o suficiente que precisamos para fechar as contas no final do mês. Tá tranquilo? Não. Tá favorável? Não, não tá.

Podemos nos considerar workaholics enrustidos: já que apesar de nos orgulharmos de nosso empreendedorismo, fugimos desse rótulo e nos envergonhamos de não sabermos diferenciar estilos de vida, das escolhas de vida que fazemos.

Além disso a gente perde muito tempo se preocupando muito … e com tudo. 
Criamos safe-spaces, trigger warnings e nos preparamos para enfrentar um coliseu por dia em um comentário aleatório no Facebook.

Mas diferente do que reflete nossas timelines, não somos assim tão ferozes. Muito menos destemidos como gostamos de imaginar: mais da metade dos meus conhecidos tem crises existenciais aos 20 anos, síndrome do pânico, depressão ou são obsessivos compulsivos e frequentam terapeutas três vezes por semana.

Vivemos dopados de ibuprofeno e entupidos de omeprazol. 
Paracetamol, Cefalexina, Ritrovil, Stent e Netflix, tudo de fácil acesso e consumo rápido.

Perdemos nosso tempo entretidos pelo pebolim da agencia de publicidade e a esteira da academia. Discutindo quem é melhor, Pugliesi, Kéfera ou Camila Coelho: afinal além de tudo ainda somos extremamente competitivos, indecisos e contraditórios.

Gostamos de colecionar úlceras em nome de um puritanismo ideológico que é extremista e brega:

Na política queremos todos sejam de esquerda ou que todos sejam de direita. Mas tem coisa mais brega do que a unanimidade?

A nossa geração adora gritar: seu fascista! Mas nós somos fascistas porque não aceitamos o jogador do outro lado da quadra. Torcemos pelo partido como pelo time de futebol, como se dessa história alguém saísse campeão.

Para a gente não existe meio termo, não existe argumento de que dê conta da moderação e no final das contas é tudo preto ou tudo branco. Os 50 tons de cinza que seriam ótimos para dar um pouquinho de sobriedade só é aceito se for no cinema, transformando o sadomasoquismo numa coisa lindinha, limpinha e politicamente correta de se ver.

Tentamos higienizar a humanidade: soft porn, feijoada light, cerveja sem álcool, brigadeiro de quinoa e salada de frutas do Mc McDonald’s

Cadê a foda? Cadê o arroz com feijão não-gourmet? Cadê a empresa sem dicionário de vocabulário startupês copiado do Vale? Cadê o filme trash sem textão de crítica? …

Não aceitamos a imperfeição, não aceitamos a decepção e não sabemos lidar com a frustração. Esquecemos que a vida real, mesmo que toda torta dá muito mais tesão.

Cada palavra contrária á nossa é sempre um ataque ao sistema nervoso central de nossos organismos que se contorce na vontade de publicar mais um textão cagando regra.

Gritamos demais, só que quanto mais você grita, menos as pessoas te escutam. E nesse balaio de gato de vozes supersônicas, nos recusamos a aceitar que estamos todos falhando.

Pecamos ao acreditar que redescobrimos a política, a ecologia e o deboísmo. “De boas” eram os hippies, nós somos neuróticos mesmo. A treta vive plantada, os nervos á flor da pele e as relações sociais em uma guerra fria de indiretas.

Nos relacionamentos precisamos do Tinder, Happn, POF e talvez até do Badoo enquanto lemos algum texto guia do casal não-sei-das-quantas. Vamos assumir que a gente não sabe lá muito bem o que tá fazendo?

Você sai com um cara que tá mais preocupado em dobrar a barra da calça do que em te abraçar. Fica horas ouvindo um sujeito narrar como ele consegue fazer uma parada de mão por 15 minutos porque mudou de vida depois que conheceu a yoga transcendental plutônica inspirada em Froozen.

Você sai com uma guria e tem medo de abrir a porta do carro para ela e já receber um olhar reprovador, pretendendo desconstruir o que você entende por cavalheirismo, educação e gentileza. Chega no cinema e percebe que ela verifica o e-mail do trabalho á cada 5 minutos ou sai da sala para atender o cliente no Skype. Fica horas like a zumbi ouvindo sobre estética byroniana pós-moderna da Lana fucking Del Rey.

Às vezes dá preguiça de sair, às vezes dá medo mesmo. É muito mimimi, muita ofensa gratuita e muita bullshitagem way of life.

Não dá pra nos levar a sério. Somos reizinhos destronados, misturando Black label com Nescau: não sabemos o que estamos fazendo, para onde estamos caminhando, mas queremos ter sempre razão. A gente enche saco!

Mas minha vó já dizia que isso é coisa de gente infeliz, porque gente feliz não enche o saco. Simples né, não?

Claro que não dá para generalizar, nem todos Millennials são iguais. Pessoas tem responsabilidades diferentes e por isso lidam com a vida de forma diferente. Mas será que sendo bem honestos, realmente vale a pena defender esse estilo de vida de agencia de publicidade que tem cada vez mais definido a nossa geração?

Vale a pena ficar fazendo esse serviço de corno enquanto se acha o último empreendedor do vale? Ou a última cult-power girl?

*E para os revoltados que ficam tirando seu discurso de resistência da caixinha de sucrilhos: desistam! Vocês nunca serão mais rebeldes que esse cara ;)