Fuck you very much, your fucking clichê!
O texto é em português, mas o título tá em inglês só pra oprimir

NEW LEFT OU OS REVOLUCIONÁRIOS DE CAUSAS PASSADAS:
Se eu pegar pra lembrar de uma tarde aleatória lá de 1999, eu provavelmente vou me deparar com a cena da menina/maria-moleque, cheia de sardas e com o cabelo todo embaraçado, sentada no chão do quarto rebobinando uma fita k7 do Capital Inicial ‘Ao Vivo’ com um lápis — aqueles que tinha tabuada estampada.
A fita tinha sido comprada na feira.
E eu escutava ‘Fátima’ uma vez, duas, três…
Escutava sempre num walkman surrado que já tinha sido do meu velho.
Meu velho tinha orgulho, a vitrola portátil que o acompanhou tocando Raul, agora parecia grudada na minha mão.
Nessa época eu surfava no rock nacional, principalmente nas músicas da década de 1980: mas a verdade é que eu ouvia muita coisa que eu não entendia — como por exemplo, ‘Faroeste Caboclo’ que pra mim era um verdadeiro enigma.
Depois disso virei grunge, depois fui punk, em outros tempos gótica.
Em uma galáxia meio distante já devo até ter feito cosplay do Dee Snider do Twisted Sister com o visual glam rock de butique que adotei no colegial.

Já tive tênis all star rabiscado, calça jeans rasgada, blusão de flanela xadrez, mochila com cravos spikes, batom preto, cabelo azul e quiçá uma coleira pink.
Minha adolescência foi cheia de referencias diferentes: New wave, hair metal, hard rock, surf music, thrash metal, classic rock, metal industrial alemão, country, acid rock, funk metal, blues…
Tudo que eu aprendia sobre o mundo refletia no que escolhia ouvir.
E tudo que eu ouvia, parecia refletir na minha aparência.
Como se em mim coexistissem identidades diversas e certas vezes até mesmo, contraditórias e que eram impulsionadas em diversas direções, dependendo da “vibe” na qual eu estava.
Mais tarde descobri que todo adolescente é um pouco assim: um clichê ambulante, todo enfeitado, metido a revolucionário.
Sem ingratidão contra meus tênis pichados, ou contra a minha coleção de k7 e revistinhas com cifras, — até tenho algumas ainda — , mas a verdade é que a nossa geração a lá Nintendo e Kinder Ovo, era muito óbvia e se rebelava contra o nada.
Com tão pouco entendimento sobre o mundo e sem grandes dificuldades mundiais, só possuíamos na bagagem a imaturidade da juventude, uma arrogância messiânica e a ânsia de se libertar do “sistema malvadão” e dos “pais conservadores regulões”.
Exibíamos nossos cortes de cabelos exóticos e repetíamos discursos vazios da MTV, nos segregando em panelinhas no colégio e exibindo orgulhosamente rótulos bem toscos.
Ainda assim achávamos que éramos “filhos da revolução”.
Triste não?
“Quem tenta ser diferente apenas fica igual a todo mundo”
Já alertava Dinho Ouro Preto em ‘Espelho no Elevador’ de 1987, uma pena que eu não tinha essa faixa na minha k7 de 1999…
… Mas uma pena ainda maior é que mesmo que se eu tivesse, ainda assim não teria entendido o recado nos anos seguintes.
Não teria entendido porque no final das contas a construção da identidade na adolescência ocorre por meio da identificação e da diferenciação. Por isso a gente acaba construindo estereótipos grupais e sociais: separando de forma maniqueísta as nossas referencias.
Isso é natural.
Tem até papo certo na psicologia, com direito a Hall e Bauman pra explicar porquê somos assim nessa fase.
Binários.
Tempestuosos.
Extremistas.
Insolentes.
O bom é que essa fase passa né?! Ou não??
Tão lá os seres humaninhos, com quase 30 anos de idade pagando de descoladx do DCE, todo rebelde como se o cabelo colorido/raspado ou a roupa hippie rasgada fosse realmente alguma forma de resistência inovadorx.

A pessoa apenas repete o discurso da bolha new left, mas acha que seu rótulo revolucionárix por vivencix conferido pelo partido “Y” é sinônimo de intelectualidade gratuita e elevada.
Gritam!… E como GRITAM!
Querem potência, originalidade, engajamento e mudança social.
Mas são todos ecos, sem nenhum resquício criativo ou capacidade realmente insurgente contra o sistema político vigente. Na verdade, eles são o sistema político vigente.
E por trás de tanta revindicação via textão, são só adultos com uma adolescência tardia, repetindo discurso oficial radical, enquanto colocam tachinha no tênis e pedem por trigger warning nos livros da facul.
Essa política dos trigger warning é tão absurda que só pode emergir de mentes histéricas e sem nenhuma maturidade emocional.
Parece ruim? Pera, que fica pior!
Ficam frustrados pela pouca importância e relevância que seus espectros digitais possuem no mundo real.
E com o trem expresso da humanidade parado, porque ninguém sabe como fazer ele andar fora da realidade 2.0 dos grupos de Facebook, os passageiros super descolados começaram a brigar uns com os outros… É a tal da cultura da rachação.
A new left funciona como as panelinha de colégio: excluindo e apontando o dedo pro coleguinha que deu alguma mancada.
Cometeu uma gafe? Não foi descontruidx o suficiente? Fez uma piada babaca?Então ela te persegue. Intimida. Difama. Desmoraliza. Humilha. Expulsa do grupinho e você vai acabar ficando desempregado, isolado e tendo que sentar pra tomar o lanche sozinho no recreio.
Apesar do meu tom jocoso, essa autofagia política é um modus operandi baseado na psicologia do medo. Tem um texto muito bom do Henrique Guilera sobre isso aqui
Então se você não tá afim de se sentir com 14 anos de novo e ser perseguido pelo corredor da escola, sendo exposto porque algum boçal acredita que é melhor que você, fique longe dessa esquerda pseudo-cult moralista, vai ser melhor.
Além do mais, vocês não vão estar perdendo grande coisa: são revolucionários de causas passadas.
- Se não são capazes nem de soltar da mãozinha do Lula e do PT, quanto mais de entender que Lênin já morreu tem quase 100 anos.
Aí ficam nesse copy & paste mental de ficar recitando o cara como se ele fosse um messias 100% aplicável em pleno 2016. Discurso ultrapassado que atrasa toda a esquerda e engessa o debate político. - Por pura esquizofrenia delirante se recusam a perceber que não é benéfico para a humanidade descer da motoca tecnológica e viver numa comuna hippie usando a tabelinha como método contraceptivo, a menstruação como tinta aquarela e consultando o horoscopo para os dilemas sociais.
- Não percebem que a ideia totalitária do marxismo, em querer acabar com as liberdades individuais em nome do coletivo é retrograda e asfixiante.
- Acham que vão chocar a sociedade e fazer revolução pintando o cabelo, usando roupas estilo “punk de boutique” e gritando abaixo o capital.
Well, nada disso é novo, já foi feito na década de 1980 e hoje é apenas, trend, ou seja, só tá moda.
EDIT 1: Roupas não-binárias é a mesma porra que moda unissex e existe a long long time ago.
Homem usando saia também é old! Já ouviram falar de Flávio de Carvalho? Há mais de 50 anos atrás — mais especificamente em 1956 — esse multiartista paulistano já lacrava, cruzando o Viaduto do Chá, trajando saiote.

Vários ícones já fizeram o mesmo, ou fizeram até mais, adotando o look feminino completo: David Bowie, Freddie Mercury, Kurt Cobain, Alice Cooper, Iggy Pop, Mick Jagger… e eu me recuso a listar todos os caras que foram bem mais disruptivos que essa galerinha pela saco.
No fim das contas, se formos bem honestos até a nova embalagem do Yakult sem açúcar é mais revolucionária que essa new-left, seja na aparência ou na suas cagações de regra.