Quatro afirmações sobre amor em tempos de discursos opostos

Há algumas semanas, em meio aos diversos gritos de #LulaLivre ou #LulaPreso, publiquei uma provocação: como você pode AMAR aquela pessoa com quem você não concorda?

Aqui compilei algumas das coisas que mais gostei do que foi dito pelos meus amigos e conhecidos na publicação, coisas sobre amor ao próximo que podem servir para qualquer um que queria o melhor pro mundo, de qualquer fé ou tradição.

A minha única resolução de ano foi que queria tentar semear paz, amor e reconciliação. Acho muito importante nos posicionarmos, lutarmos pelo que acreditamos, mas tenho cada vez mais crido que o “como” conta muito pra profundidade da nossa ação e que nossos relacionamentos podem ser a chave da transformação. Ou, no mínimo, a chave para a não transformação negativa. (Será que estou virando uma pacifista contraditória?)

Vamos lá.

1. Você não está sempre certo e não tem mostrado amor

Parece estranho começar uma lista sobre amor com essa afirmação ruim, né? Mas me parece que a autocrítica sincera é o primeiro ponto pra conseguir amar o outro. Tente, por exemplo, “traduzir” suas palavras para o “outro lado”, como se fosse quem você discordasse falando para você. Esse simples exercício nos ajuda a vermos como nós mesmos temos semeado ódio. Estou falando nós, me incluindo, tá?

Uma das pessoas (alguém que amo muito) comentou como certa vez criticava umas pessoas e sua irmã lhe corrigiu, mostrando que ela mesma tinha feito algo semelhante ao que criticava. Todos nós temos ideias boas e más, expressamos ideias boas e más de formas boas e más, além dos dias bons e maus. Todos estamos provocando esse clima e temos responsabilidade no que está acontecendo.

Mas somos cegos pra autocrítica. Até aqueles que exigem demais de si mesmos: exigem num certo âmbito, mas em outro se sentem os “corretões” que lutam por um “país melhor, livre desse grupo”.

Muita gente está dizendo que só quer o melhor, diz não estar nesse extremismo exagerado de ódio, que não quer guerra, que só quer justiça, que só está compartilhando suas opiniões. Mas (e estou pensando aqui em casos específicos mesmo, tudo bem você se identificar) usam palavras como “lixo” e “burros” para se referir a quem pensa diferente ou não conhece o que acham necessário saber. Ou usam mentiras para humilhar os outros e se justificam dizendo que “era só uma historinha”, “só minha opinião” (alerta: mentiras não são opiniões). Dizem com prazer que os outros devem estar desesperados de forma bem estereotipada e acham que tudo bem rir disso.

Sejamos sinceros: dizer a verdade, acusar a maldade, lutar pelo seu lado, precisa ser com essas palavras? O que há de amor em se posicionar com tamanha grosseria? Em expor e perseguir quem pensa diferente?

2. Amar é amar, gostar é gostar

Gostei muito do que uma amiga disse, e que eu há pouco tempo também tinha ouvido de outra: amar não é o mesmo que gostar. Semear amor no mundo não significa gostar de todo mundo. Gostar implica certa aceitação, talvez até concordância, e implica considerar o outro bom, ou pelo menos bom o suficiente pra conseguir gostar dele. Gostar de Hitler não dá, entende? Compreender isso alivia muito e coloca as conversas em perspectiva.

Algumas pessoas citaram “tentar ver coisas boas nos pontos do outro”, “separa ideias de pessoas”. Pra mim isso é diálogo, tolerância ou tentar gostar de quem pensa diferente, são coisas boas, mas não é amor. E se você não encontrar pontos bons na opinião do outro? Vai deixar de amá-lo?

Amar é outra coisa, que vou tentar descomplicar nos próximos pontos. Poder amar as pessoas que não gostamos é o grande desafio. Até porque amar não significa não criticar ou acatar.

3. Amar é servir ao outro

Sim, é bem estranho isso, mas precisamos tirar do abstrato e trazer pra realidade. Ficar tentando inventar um sentimento de amor que não toca na sua vida prática é fácil demais, e não é amor.

Amor requer serviço ao outro: oferecer ajuda, a outra face, um prato de comida, um abraço. Cuidar do outro quando ele precisar, ser gentil, cordial, prestativo. Considerar as necessidades do outro. Doar-se, sacrificar-se, dar sua vida pelo outro. Pois é… amar não é bonitinho, não. Não é fácil. Amar requer nosso sangue, nosso ventre, nossos calos.

Como estamos falando de pessoas que não concordamos e muitas vezes algumas dessas pessoas nos fazem mal, nos machucam, nos abusam, é preciso um alerta: tudo bem se afastar de alguns, deixar alguns círculos, se isso estiver te fazendo mal. Especialmente se estiver te levando a odiar, sentir-se superior ou afetando sua saúde mental. Ou ainda se você já ofereceu tudo o que tinha, mas em troca está sendo esmagado cada vez mais. Somos seres humanos falhos. Não vamos conseguir amar plenamente, e é sempre um exercício pessoal encontrar esse equilíbrio.

A conclusão, quando pensamos em termos práticos, é que realmente não sabemos e não temos força para amar sozinhos. O que nos leva para o próximo ponto.

4. Não é possível amar sozinho

Achar que amamos isolados, numa ilha, é perder novamente a autocrítica. Precisamos dos outros para nos mostrarmos o quão falho e limitado somos. Precisamos de exemplos de gente que abriu mão de si mesmo para nos inspirarmos e não perdermos a esperança. Para vermos que há porque insistir no amor.

E aqui não consigo fugir da minha fé (e só por isso adicionei esse vídeo acima), peço desculpas se você não tem a mesma perspectiva religiosa que tenho. Sou cristã, por isso acredito num Deus que se insere na história como Jesus para morrer por amor pelas pessoas. Para mostrar que as consequências do nosso ódio levam à morte, e para morrer por essas consequências nos permitindo viver e conhecer o amor, semeando reconciliação onde antes havia apenas rupturas. Não acho que seja possível amar sem a ajuda desse Deus. Eu não consigo, pelo menos, e nunca conheci um amor puro e altruísta que pudesse provocar reconciliação que não fosse o dele.

Confesso que não consigo amar

Eu não sei me sacrificar pelo outro, eu me acho superior que muita gente, e constantemente reclamo sobre o quanto as pessoas esperam de nós. Tenho reclamado muito também sobre o quanto os posicionamentos políticos de gente próxima tem me magoado muito mais pelas palavras insensíveis do que pelo conteúdo, muito mais pela falta de percepção da violência que comentem do que pelo que pensam. Até porque às vezes eu concordo com a pessoa.

E daí eu fico lutando dentro de mim, julgando essas pessoas e não conseguindo amá-las. Justificando minha dificuldade e meus pecados pelos erros dos outros. E, óbvio, esqueço de me autocriticar. É o que mais faço. Esqueço de ver o quanto de gente já magoei só por ser “a diretona” falando “a verdade”.

Sempre quero achar que sei como criticar os outros, como acusar os pecados deles que precisam ser acusados, e assim acabo percebendo que manipulo o exemplo de como Jesus criticava os falsos, hipócritas e opressores religiosos de sua época pra esconder as minhas falhas. Eu não sou Jesus e não consigo ser. Eu sou muito mais aqueles homens que pediam pra ele apedrejar uma mulher pega no adultério. Quero me ver como essa mulher, mas isso é falsidade. Eu sou os falsos religiosos, doidos pra apedrejar. As mãos suando nas pedras. E os olhos em lágrimas quando Jesus escreve na areia e com toda delicadeza do mundo mostra minha própria violência e arrogância: “Você não tem pecado? Então pode atirar a pedra”.

E a pedra cai no meu próprio pé.

Por isso essa pergunta tem me angustiado: como amar em tempos de ódio, de rupturas? Tenho consciência de que este compilado não é suficiente pra responder essa pergunta, mas espero que pelo menos encoraje alguns de vocês a pararem com alguns comportamentos ruins que só tem causado mais separação. A buscarem amor e reconciliação. E espero que vocês possam me inspirar e ajudar a fazer o mesmo, porque preciso de vocês pra aprender a amar.

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