A religião, o desamor e o deus da morte

Jéssica Meireles
Nov 5 · 3 min read

Vivemos em um tempo de neo autoritarismo conservador religioso. A religião volta a se mesclar na política matando o Estado laico democrático. Existe uma bancada evangélica no congresso e a frente evangélica foi responsável por dar poder ao extremismo de direita representado por Jair Bolsonaro. O palanque vira altar, o altar vira palanque como em tempos medievais quando o Estado era a Igreja ou a Igreja era Estado.

Contudo é preciso notar pressupostos violentos ainda presentes da religião cristã, principalmente entre os protestantes. Bolsonaro é um militarista convicto, admirador do terrível Carlos Ustra, responsável por torturar e assassinar inúmeras pessoas durante a ditadura militar (1964–1984),a lista de horrores é grande, e inclui crianças. O livro Infância Roubada organizada pela Comissão da Verdade apresenta um pouco dessa história vergonhosa e desumana. Apesar disso muitas pessoas, inclusive Bolsonaro e aliados são afoitos pelo retorno de uma ditadura militar, tratam todos os prisioneiros, adultos ou não como bandidos que tiveram o que mereceram. Discursos de ódio e violência estão sendo ditos em claro e bom som e geram pouca indignação.

Atualmente muitas pessoas vem desprendendo espiritualidade de religião e prezando por discursos filosóficos pacifistas, empáticos e formulados em uma ideia magistral do amor focados em Jesus Cristo e em Buda. Contudo uma corrente muito maior é a da fusão da politica autoritária e da religião intolerante, essa que apesar de se predispor seguidora de Jesus Cristo parece desvirtuar o discurso na prática, ou até mesmo o discurso no discurso. A prática do amor ao próximo é posta em cheque com a intolerante ação contra a diversidade e pela normalização de politicas violentas e desumanas, a luta pelos oprimidos é substituído por enriquecimento individual, e a mesma velha ideia medievalesca de opressão criam fogueiras sociais e o incessante brado por homens com discursos violentos, intolerantes e amantes dos métodos de tortura, como Bolsonaro.

Não importa se Jesus foi também torturado e assassinado por suas visões destoantes da religião dominante, não importa a luta desde por pobres e oprimidos, pelo olhar coletivo, ou por seus discursos claros contra métodos punitivos degradantes quando defendeu Maria Madalena, ou quando indagava sobre os ricos que enriqueceram pela pobreza dos outros, ou ainda por sua posição contrária a comercialização da Igreja.

Apesar de Jesus ter redefinido a ideia do Deus punitivo e odioso por um fundamentado no perdão e no amor, não é esse que é visto por aí na boca de pastores ricos e raivosos, e sim um deus de morte, de raiva, de ódio, próximo do deus do velho testamento mas ao mesmo tempo nem tão próximo assim, já que esses religiosos não praticam a ideia do povo oprimido, subjugado por nações mais poderosas, hoje eles são o poder e eles são os opressores.

A ideia da morte, como são as vitimas da ditadura não geram tanta indignação como deveria ser entre os cristãos, e sim a aprovação de um grupo bastante numeroso entre eles. A fala de Mahatma Gandhi sobre gostar de Cristo mas não dos cristãos é válida nesse caso, pois no Brasil se percebe uma onda evangélica distante dos passos de seu profeta. O amor pelo próximo disseminado por aí, só se refere aos membros da sua própria família, claro, se todos tiverem o mesmo pensamento conservador em comum. Assim, o amor coletivo não existe, não tem “o próximo” e sim bolhas e o confinamento espontâneo em uma falsa moral.

Aqui o anticristo não é o ser maligno que iniciará o fim dos tempos, e sim a própria frente religiosa baseada no ódio oposta a figura e do discurso de amor aparentemente defendida por Jesus.

    Jéssica Meireles

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    Historiadora, mestra em Ciências sociais e humanidades. Tento não enlouquecer escrevendo banalidades.