Competição
- Você tá magra
- Não, não tou magra. Engordei bastante nos dois últimos anos
- Você não pode dizer que tá gorda diante de mim, um obeso que precisa fazer bariátrica
- Mas não é porque você é mais gordo que eu que eu tenho que ser magra
- É sim, você está se exibindo por poder comer o que quiser e ainda assim ter cintura fina
Não, ele não aceitava. E tinha que dizer: a dor dela não era tão grande pra ser digna de comentários. Não quando tinha alguém do lado sofrendo mais. A Ana não podia dizer que era ruim não ter namorado, já que existem mulheres que apanham do marido. O Zé não podia dizer que era doloroso seu namorado morar em outro estado, considerando que algumas pessoas vão pra guerra e talvez nunca voltem pra completar a família. A Camila não podia achar chato morar sozinha, deveria era agradecer por ter essa liberdade.
E foi assim, num mundo onde ninguém era solidário, num mundo em que as pessoas competiam pra ver qual sofrimento era maior, que todo mundo teve que aprender a guardar pra si. Tiveram que aprender a calar, porque do lado sempre tinha alguém pior. Era chata a vida lá.
Ela fechou os olhos. Calou. Pensou que tinha o direito de ser quem quisesse, gorda ou magra. Sorriu.