Meu corpo, (quase) minhas regras.

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Estamos numa era onde o conceito de diversidade first está presente em todos os lugares. A mídia se alimenta das diferenças e da aceitação para abarcar uma série de personagens que por anos se viram excluídos dos padrões; padrões estes que a própria mídia chancelou como belo, perfeito e rentável. Mesmo caminhando por entre visões desconstruídas, a busca pela beleza inatingível continua fazendo vítimas.

A indústria da beleza no Brasil movimenta milhões em suplementos, exercícios, produtos de beleza e pasmem: até cintas e espartilhos do tempo da vovó que prometem o corpão violão, almejado por muitas. Mas o engodo das comidinhas da terra, zero plástica e a cara limpa ainda induzem, confunde e maquia uma realidade dura: A diversidade ainda é uma falácia e não sabemos lidar com as diferenças.

Abraçamos nossas amigas gordas, dizemos o quanto elas são lindas e as incentivamos a usar aquele cropped lindo na festa da firma. Mas nos ofendemos quando alguém nos diz que engordamos de um verão para o outro. Nos sentimos derrotadas quando aquela calça que entrava perfeitamente, hoje depende de uma deitada na cama pra vestir ou as vezes nem entra. Vejo de perto mulheres lindas e incríveis, inseguras com os seus corpos fazendo dietas promessas surreais, jejuns e até remédios para doenças crônicas para perder aqueles 5 kgs.

Eu mulher, empoderada, 30 anos, feminista, me escondo por trás de todas essas bandeiras para não mostrar a minha pancinha de chopp e pizza cultivada com muita risada e bons momentos e escolhi a dedo as fotos da minha viagem de férias, para postar no instagram. Apesar de vestir um biquíni pequeno e chamativo, peça que viveu muito tempo longe do meu guarda roupa, e exibir os meus 78 kilos com muito orgulho e óleo bronzeador na praia, cogitei em retirar as manchinhas e imperfeições num uma app de edição de imagem.

Lemos Beauvoir com uma mão e clicamos com a outra os mais invasivos anúncios de procedimentos estéticos que tiram pelos, tatuam estrias, congelam gordura e chegam ao absurdo de reduzir e clarear a genitália. A insatisfação com os nossos corpos, com todos nossos pequenos defeitos (que nem são defeitos) movimentam muito mais dinheiro que a livre aceitação de que ninguém é, nem precisa ser perfeito.

Marcas precisam reinventar seus nichos, criar novos produtos e aprender capitalizar a diversidade. Mas precisa ser logo, já, urgente. O discurso de abraçar as diferenças é lindo, toca no coração, cria um propósito, amplia a voz de muitas causas, mas muitas vezes não se sustenta diante da necessidade de desconstrução do mercado, no que tange o “padrão de beleza feminino”. É no mínimo estranho ver atrizes falando sobre aceitação de corpos, vestindo 36. É surreal, modelos exaltando o feminismo, estrelando campanhas “com nenhum defeito”. Não adianta discursar sobre sororidade entre as nossas e olhar com nojo um abraço peludo de uma companheira de luta.

É preciso sacudir as estruturas e pensar fora do padrão. Mas para isso é preciso compreender que o que te incomoda no outro é apenas um problema seu. E o que incomoda em você, pode ser um problema do mercado.