goodbye baby blue

Eram duas e meia da manhã.

Eu estava do lado de dentro do banheiro, ele estava do lado de fora, nós dois apoiados contra a porta trancada, só a madeira entre a gente, ele tinha cansado de bater, eu tinha cansado de gritar. Eu não lembrava mais por que estávamos brigando, não lembrava desde quando a realidade tinha sido distorcida — uma realidade paralela se abria quando a gente começava a brigar, e entrávamos os dois, sozinhos, sorrateiros, deixando o resto do mundo pra fora, e vivíamos sob regras incompreensíveis pra qualquer outra pessoa. A densidade do nosso ar mudava, ficava envenenada, e o veneno penetrava nossos cérebros e fazia com que a gente ficasse louco, de uma loucura intoxicada que ia embora com o sono, quando as coisas reptilianamente voltavam para seus devidos lugares. A gravidade se restabelecia e acordávamos com o peso familiar nos puxando pelo umbigo de volta pra Terra. A loucura ficava selada naquele outro mundo, esquecida, seu gosto residual nas costas dele arranhadas, nos botões arrancados da camisa, no sangue seco nas minhas costelas.

A gente via esses sinais, sorria melancolicamente e virava o rosto. Ele ia pra cozinha fazer um chá e eu ligava o videogame, deitada de bruços na cama, o gato nas minhas costas me massageando com as unhas. Ele voltava com a chaleira em uma bandeja, água fervendo, duas xícaras, dois sachês de jasmim, bolachas e um pote de requeijão. Largava tudo na cama e, só depois de sentar de pernas cruzadas, dava um tapa na testa e levantava, com frustração exagerada, pra ir pegar uma faca na cozinha. Eu virava o rosto pra televisão, começava a jogar antes de ele voltar pro quarto, e ele ficava com raiva fingida, me tomava o controle das mãos, colocava em algum canal esdrúxulo de domingo, e a gente criticava a mediocridade da TV aberta enquanto comia bolacha com requeijão e tomava nosso chá. Depois, eu empurrava a bandeja pro pé da cama, ele sentava com as costas apoiadas na parede, eu me encolhia entre as pernas dele, com a cabeça apoiada na coxa esquerda, as mãos dele segurando o controle do videogame em cima da minha cabeça e o gato do nosso lado.

A gente ficava quietos, os três, bem quietos, em um silêncio confortável, enquanto os nossos duplos continuavam vivendo na realidade paralela.

Minha outra eu finalmente abria a porta, quando o outro ele ameaçava ligar pro meu pai, e ele entrava no banheiro e via as marcas nas minhas costelas, horrorizado, e se ajoelhava do meu lado repetindo baixinho, “o que você fez, o que você fez, por quê, por que você fez isso…” e eu, deitada no chão frio, imóvel, encarava duas formigas passearem entre os vãos dos azulejos, sem dizer palavra nenhuma, enquanto ele, pra compensar minha imobilidade, balançava pra frente e pra trás, as mãos espalmadas pra cima, a boca aberta e os olhos desfocados, perguntando, “por quê, por quê, por quê…” até eu acordar do meu estupor, abraçar ele forte, bem forte, e pedir desculpas, todas as desculpas do mundo, sentindo o corpo dele drenado, sem vontade, a boca dele derramando saliva sem perceber no meu ombro, e eu abraçava ele repetindo minhas desculpas.

Na realidade paralela o tempo corria muito devagar, e a gente ficava abraçado assim por horas, com o gato como única testemunha, até um de nós dois vencer a gravidade (a gravidade na realidade paralela era sete vezes maior, nos mantendo sempre colados ao chão, nos arrastando). Ele ligava o chuveiro, eu era fraca e engatinhava até sentar embaixo do jato de água quente, ainda vestida. Ele desligava o chuveiro e me abraçava com a toalha, secava meus cabelos, me levava até o quarto, tirava minhas roupas molhadas e me dava um pijama dele. Eu deitava, com os cabelos úmidos, ele sumia por alguns minutos e voltava, me abraçava, e nós dois dormíamos, porque na realidade paralela era impossível confiar na linguagem. Eu murmurava desculpas apenas pelo som das palavras. Ele não me beijava, e dormíamos assim, imóveis, com a gravidade nos enterrando no colchão, até a substância da noite se dissolver de volta pro mundo conhecido.

No mundo conhecido, ele jogava enquanto eu assistia, abraçando sua perna, e no mundo conhecido nós éramos simples, fáceis. A gente jogava videogame no domingo, transava de tarde, comia porcarias e tomava cerveja. E toda vez que ele se levantava pra pegar outra lata, eu via os rasgos paralelos das minhas unhas, vermelhos, nas costas dele, meu umbigo descia um degrau, lembrando da gravidade antiga, e eu olhava pro gato e o gato me olhava de volta, sem piscar, feito uma esfinge, e nós dois sabíamos.

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Era tarde, os vidros estavam escancarados, ele dirigia o Kadett 92 pelas ruas perigosas do subúrbio, Led Zepellin tocava em um volume tão absurdo que os alto-falantes vagabundos rangiam e reclamavam. Ele cantava junto, com uma voz grasnada e convicção inabalável, enquanto eu, com os pés apoiados no painel, observava o perfil dele, os olhos dele brilhando, ele sorrindo enquanto cantava, o ar da noite entrando gelado e jogando meu cabelo na cara.

Everybody trying to tell me that you didn’t mean me no good
I’ve been trying, Lord, let me tell you, let me tell you I really did the best I could
I’ve been working from seven to eleven every night

Estávamos fazendo uma excursão noturna até o supermercado 24 horas pra repor nosso estoque de pães de queijo. A gente tinha acabado de voltar de uma viagem de três dias pra uma cidadezinha na serra, onde estávamos gravando um curta que ele estava fazendo pra Faculdade de Cinema dos Príncipes, que era caríssima e ele acreditava que odiava. O roteiro era meu, ele era o diretor, eu era a diretora de arte e tinham aranhas de um palmo na casa alugada, mas o resultado final parecia ter sido muito bom. Tinha sido uma viagem gostosa, a equipe tinha trabalhado bem (apesar de serem todos Príncipes, o que ele acreditava que odiava). A gente tinha acabado de assistir o material, e era o primeiro filme de verdade que ele dirigia, e eu estava muito orgulhosa de nós dois. Sorríamos feito dois babacas, cruzando a cidade em busca de pães de queijo, e eu olhava pro perfil dele com muita atenção, o nariz meio torto, os cabelos muito pretos e bagunçados, a camisa com colarinho encardido, as mãos segurando firme no volante, os olhos brilhando demais, e eu queria imprimir esse momento na memória, gravar a tinta pra quando lembrasse poder sentir até o cheio fresco da noite.

I’ve been working from seven, seven, seven to eleven every night… It kinda makes life a drag
But baby since I’ve been loving you I’m about to lose, I’m about to lose my worried mind

Ele olhou pra mim, cantando alto e desafinado, espremeu os olhos e me pediu pra acender um cigarro. Acendi dois, e fumamos, em silêncio, Robert Plant sofrendo a rouquidão do alto-falante quebrado, até chegarmos no supermercado. Fizemos nossa tradicional compra de refugiados do apocalipse zumbi: pão, queijo, cerveja, molho de tomate, pão de queijo, lasanha congelada, mais cerveja. Ele estava indo pro caixa, mas eu parei e disse:

“Peraí. Quero comprar um presente pra você.”

“Por que presente?”

“Porque agora você iniciou sua rota brilhante com destino Diretor de Sucesso,” eu sorri, ele tentou não sorrir de volta mas seus olhos se estreitaram assim mesmo.

“Besteira. Foi só um filme bobo de faculdade. Eu ainda tenho um longo e árduo caminho pela frente.”

Eu abanei as bobagens que ele dizia pra longe da gente e respondi:

“Bem, pelo menos é um bom começo. Estou orgulhosa de você e se quero te dar um presente, o problema é meu e você não pode fazer nada a respeito.”

“Tá,” e agora ele estava sorrindo de verdade, provavelmente porque estávamos chegando no corredor de bebidas.

Eu escolhi um whisky exorbitantemente caro para nossos padrões de jovem casal falido. Dividimos a compra (eu fiquei imaginando ela bem guardada no freezer do nosso bunker com altas muralhas contra a Saúde), mas eu paguei o whisky sozinha.

Chegamos em casa e o gato fez seu corriqueiro ritual de ir correndo pra escada, fugindo entre as nossas pernas quando a gente abria a porta, só pra voltar assustado exatos trinta segundos depois.

“Já que eu paguei o whisky, acho justo que você me sirva com Pizza de Pão.”

(- A Pizza de Pão é uma iguaria composta por uma fatia de pão de fôrma, uma fatia de queijo mozarela, uma fina camada de molho de tomate pronto e orégano pra temperar. Você leva tudo ao forno por uns quarenta minutos, o pão fica crocante e o queijo derrete, seu colesterol e o êxtase apostam corrida rumo ao topo logo na primeira mordida.)

Ele disse: “Ok, mas você prepara o whisky.”

Preparar o whisky era pegar o único copo adequado, colocar duas pedras de gelo, abrir a garrafa e permitir que o líquido caísse corretamente dentro do copo. Parecia uma distribuição de tarefas justa.

Fomos para a cozinha, o gato ficou sentado na porta enquanto ele preparava as pizzas de pão. Quando terminei de servir o whisky, fui até a sala e coloquei o disco do Miles Davis preferido dele pra tocar (não era o Kind of Blue, era o com o John Coltrane). Ele colocou as pizzas no forno, voltou pra sala com o copo na mão, colocou na mesa, tirou os jeans e os sapatos e sentou no sofá, de camisa, cueca e meias. Eu apaguei a luz, liguei a luminária, peguei o copo da mesa e sentei entre as pernas dele, apoiando as costas no peito dele. A gente raramente fumava dentro de casa, mas a ocasião era propícia — ele acendeu um cigarro, alcançou o cinzeiro de ferro ao lado do rádio e colocou no chão.

“Eu acho que você vai ser gigante, um dia.”

O queixo dele se apoiou na minha cabeça.

“Como você sabe?” e eu nunca vou ter certeza se ele duvidava de verdade ou se era só um vício em esperar o pior.

“Porque a gente não fica gigante. A gente nasce gigante. É como se existisse uma certa substância escondida dentro da gente, que fica subordinada pelas circunstâncias, falta de dinheiro, morar na zona leste, não ter tempo, ter que trabalhar como mecânico, etc. Mas a substância está lá.”

“Por que você acha que está?”

“Porque é o jeito como você olha pra vida. Porque qualquer coisa que você produza, independentemente de ter recursos ou referências, vai ser, em última análise, uma extensão sua. Seus Príncipes podem ter verba e tempo livre, mas isso não vai fazer com que eles sejam gigantes. Talvez alguns sejam, não sei. Mas a questão é que não importa quanto você regue terra infértil. E você é cheio de estrume.”

“Obrigado.”

“É sério. Eu sei que você vai ser gigante porque você já é.”

“Mas você não conta, você é minha namorada. É sua função me achar gigante.”

“E por que você acha que sou sua namorada, tonto? Porque me apaixonei por um cara boçal e sem qualidade nenhuma e agora não tenho outra opção além de me enganar acreditando que no fundo ele é um cara bacana e que talvez até consiga ganhar o suficiente pra um dia a gente sair da zona leste?”

“Tipo isso.”

“Não. Quero dizer, você é meio babaca, mas você é babaca porque não se toca que é especial. É tão óbvio! Você sabe quantos namorados eu tive antes de você?”

“Nenhum, mas porque você era feia e tinha o cabelo laranja.”

“É. Não tive nenhum namorado antes de você porque nunca achei ninguém que valesse a pena. Você vale. Eu sei que vale. Você é a pessoa mais fantástica que eu já conheci, e você vai ser gigante.”

Eu senti o peito dele subindo e descendo com um trago demorado, e eu sabia que ele tinha um mecanismo de defesa meio batido que o impedia veementemente de acreditar que o que eu estava dizendo pudesse ser verdade, mas eu sabia também que devia dizer assim mesmo.

“Talvez,” eu disse, “algum dia você até seja gigante suficiente pra alcançar as pizzas de pão sem precisar levantar do sofá. Mas, por hoje, acho melhor você ir buscar elas antes que elas queimem.”

Ele fez um resmungo indignado.

“Já fiz as pizzas! Você pode ir buscar! E você está em cima de mim!”

Eu me afastei, sentei nos calcanhares olhando pra ele, com as mãos apoiadas na minha frente no sofá, e disse, espertamente:

“Eu já fiz o whisky.”

“O whisky já vem pronto!”

“Mas eu paguei.”

Quando a gente mora na zona leste, nunca têm grandes argumentos contra a questão financeira.

Ele voltou com a bandeja em uma das mãos e a garrafa na outra, sentou na minha frente e deixou a comida entre a gente.

Nós comemos conversando sobre o filme, as cenas que tínhamos gostado mais, os pequenos defeitos que, naquela hora, não eram suficientes pra acabar com nosso entusiasmo, os desastres tragicômicos que aconteceram durante o set.

“Nunca achei que, de todas as pessoas no mundo, o sucessor oficial do Zé do Caixão ia ser sua alma gêmea na fobia de borboleta,” ele disse.

“Nunca achei que o sucessor oficial do Zé do Caixão ia ser a pessoa mais gentil e engraçada do set! Ele é fantástico!”

“Sim, vou chamar ele pra ser animador de todos os meus sets, daqui em diante.”

“Não consigo ver uso pra feridas expostas artificiais em tantos roteiros assim…”

“A gente arranja, nem que tenha que enfiar um cachorro zumbi mordendo o braço de alguém.”

“A troco de nada?”

“É, por nada.”

Já estávamos um pouco bêbados. As pizzas acabaram, a gente colocou a bandeja no chão e continuou bebendo de frente um pro outro. Eu me apoiei em um canto do sofá e ele ficou no outro, uma das pernas dobradas, apoiando a mão do cigarro no braço do sofá e olhando pra mim enquanto soltava a fumaça, fechando um dos olhos.

Eu sorri, e chutei a perna dele, de leve.

Ele continuou me olhando, sorrindo quase nada, e sem desgrudar os olhos dos meus, fez sinal com a cabeça pro copo de whisky.

“Bebe.”

“Você tá querendo me embebedar?”

“Eu gosto de você bêbada.”

Transamos no sofá, o gato subindo de vez em quando e a gente atirando ele no tapete toda vez, depois fomos dormir, completamente bêbados. Eu disse:

“Queria te guardar comigo pra sempre.”

Ele passou as mãos pelos meus cabelos, já de olhos fechados, e deu um beijo muito leve na minha testa. De acordo com minha Lei do Mundo, beijos na testa são o mais alto grau de ternura que se pode alcançar.

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Bebemos o resto do whisky até o fim do mês, e a garrafa com os dois cachorrinhos ocupou lugar permanente de destaque na estante, depois. Eu me lembro exatamente do lugar onde ela ficava, na terceira prateleira, do lado do virabrequim de enfeite e de dois dados coloridos empoeirados. Ela ficou lá por uns dois meses, até a gravidade dar um solavanco, de novo, e a outra eu, enlouquecida, atirar ela contra a parede, cuspindo de ódio, mil cacos cor de caramelo se espalhando no chão.

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“Você quebrou a garrafa,” ele disse, sem acreditar, e ajoelhou no chão pegando os cacos entre os dedos, depois olhou pra mim, o rosto transfigurado por alguma coisa entre tristeza, surpresa e decepção. “Você quebrou a garrafa, o melhor presente que eu já tinha ganhado.”

Assim que atirei a garrafa na parede, me arrependi, mas a Outra Eu tinha mecanismos inteligentes pra lidar com o remorso.

“Que diferença faz?!” ela gritou. “Você não dá valor pra nada além de você, e é por isso que você nunca vai ser nada além de um merdinha da zona leste, um menino bobo que acha que vai ser grande coisa mas não tem coragem nem pra sair da barra das calças do pai!”

Ele ficou parado no chão, olhando pra mim, a boca entreaberta, sem conseguir dizer nada. Eu sabia que tinha dito a coisa certa, aquela específica que só se diz pra quem a gente conhece o suficiente, que estilhaçava as pessoas que a gente gosta feito vidro. Eu vi nos olhos dele que funcionou, mas a Outra Eu ainda não estava satisfeita.

“Eu não suporto mais você! Você é medíocre, medíocre, e eu não agüento mais dividir sua vidinha medíocre!” dizendo isso, fui até a estante de livros e comecei a puxar todos pro chão, descontrolada.

“Pára,” ele disse, mas com uma voz tão desolada que não arranjou forças pra vencer a gravidade de sete vezes.

Eu saí da estante, passei por ele, ainda no chão, ele estendeu uma mão falseante pra tentar segurar minha camiseta, mas eu passei direto rumando pra cozinha, abri o armário, mas, no primeiro copo que atingiu o chão, ele estava do meu lado, segurando meus braços, forte.

“Pára,” ele repetiu, e dessa vez os dentes estavam cerrados e os olhos estavam brilhando de novo, mas eram os olhos do Outro Ele, e não tinha nada neles além de ódio.

Ele apertava meus pulsos muito forte, eu me debatia e tentava me soltar, chutando as canelas dele, enquanto ele repetia, espumando, “pára, pára, pára!”. Nós fomos cambaleando até entrarmos no banheiro, eu pisei em um caco de vidro mas não me importei, ele me prensou contra a parede gelada e eu fiquei muito parada.

“Pára,” ele gritou. “Pára!”

Eu olhei bem fundo nos olhos dele, e cuspi.

As mãos dele soltaram meus pulsos e foram pros meus cabelos, apertando forte, e eu segurei os pulsos dele pra me equilibrar.

“Você tá louca! Você tá louca!” ele rosnava.

Eu cuspi no rosto dele de novo, mas dessa vez meio que errei a mira, e ele, furioso, bateu minha cabeça na parede.

Eu gritei, e ele bateu mais uma vez, dessa vez forte o suficiente pra me atordoar.

Eu parei, e a Outra Eu, machucada e desorientada, guardou as garras, encolheu os dentes, olhou bem pros olhos vazios na frente dela, e teve medo. Ela começou a chorar, e foi escorregando lentamente na parede, e, quando ele percebeu o que tinha feito, ajoelhou ao meu lado e me abraçou, a mão cuidadosamente, com medo de ser pesada demais, acariciando minha cabeça.

“Me desculpa,” ele disse, parecendo tão assustado quanto eu. “Por favor, eu não queria te machucar, me desculpa,” e me beijou na testa, de novo e de novo.

A forma mais elevada de ternura.

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É impossível viver em duas realidades ao mesmo tempo.

Eventualmente, uma engole a outra — a ponte entre as duas é povoada de insetos peçonhentos e venta muito forte, e toda vez que a gente atravessa, fica mais cansado e mais pálido. Começamos a passar cada vez mais tempo na travessia, apáticos, perdidos, sem saber qual era o lado certo pra encontrar a saída. De vez em quando, nossas mãos se tocavam, a gente apertava forte e conseguia acreditar que, se a gente fosse sólido o suficiente pra não desmanchar antes de chegar no final, tudo ficaria bem.

Um dia, ele ligou pro meu pai, mesmo. Eu falei no telefone, mas não sei qual foi o teor da conversa. O tempo parou. Eu só me lembro da textura do azulejo feio da sala, de estudá-lo intensamente, meio cinza, com uma textura marmorizada vulgar em preto, bem cafona, que continuava pra sempre, até esbarrar na borda do tapete de palha desfiado, com duas queimaduras gêmeas de pontas de cigarro, uma ao lado da outra.

Era como ver o mundo com uma lente de aumento.

Meu pai chegou pra me buscar, não sei quanto tempo depois. Não pareceram as duas horas necessárias do interior até São Paulo. Eu observava tudo em um canto, sentada de pernas cruzadas no sofá, enquanto minha Outra Eu tomava conta da situação, e chorava, se recusava a levantar do chão, tentava se desvencilhar do pai e pedia por Ele, se humilhando conscientemente e sem pudor enquanto Ele, desesperado, andando de um lado pro outro, as mãos nos cabelos e um olhar de pânico total e completo, implorava: “Vai embora com o seu pai, só vai embora com ele, pelo amor de deus, vai embora, vai embora, vai embora…”

A Outra Eu era muito burra. Ela continuava repetindo que só iria sair dali se Ele fosse com ela, se fossem os três para a casa do interior, enquanto Ele, o pobre coitado, estava completamente descontrolado e só conseguia pedir, implorar, para que ela fosse embora, embora, embora.

Meu pai me conduziu até o carro, onde chorei em silêncio até chegarmos. Lá, ele me deu alguns comprimidos. Minha mãe estava lá, e os dois me olhavam muito preocupados, queriam me tocar, me abraçar, cuidar de mim. Eu deixava as mãos deles me atravessarem, como se eu não fosse feita de matéria alguma e foi assim, invisível, que eu dormi.

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Acordei desorientada. Não sabia as horas, mas sabia que se me esforçasse, lembraria com clareza de cada detalhe da noite anterior, então resolvi não me esforçar. Fechei os olhos pesados e disse pra mim mesma que era hora de dormir mais um pouquinho, só mais um pouquinho.

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Acordei várias vezes, depois. Em algumas delas, era com alguém na porta espiando, apreensivo, se eu estava consciente. Eu fechava os olhos e apertava o edredom, bem quieta, e dormia de novo.

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Não sei quanto tempo depois ele apareceu. Não sei se foi no mesmo dia. Lembro que ainda estava claro, mas era fim de tarde. A casa toda estava em reforma, e uma cama de casal tinha sido realocada na sala deserta, e era lá que eu dormia. O lugar estava todo cor de laranja, inundado pelo resto de sol que passava através das janelas coloridas. Ele veio andando com seu jeito mole e meio torto, as chaves balançando presas nas calças. Ele desatarrachou o chaveiro e jogou as chaves do lado da cama. Eu levantei o tronco e me apoiei nos cotovelos, os olhos desfocados, sabendo que devia estar com a aparência de uma pessoa doente, com o cabelo sujo, o rosto amassado, olheiras e olhos inchados. Ele ficou parado ao lado da cama, sem dizer nada.

“Eu achei que você não ia vir,” eu disse.

Ele sentou na cama, muito sério, e disse:

“É claro que eu ia. Eu disse que vinha.”

Eu deitei de novo, de costas pra ele, porque, naquele momento, não sabia mais por que era tão importante que ele estivesse ali, afinal. Eu não conseguia pensar em mais nada para dizer, e a presença dele parecia vazia e fútil.

Ele deitou na cama, de sapatos, com os pés pra fora do colchão, e me abraçou. Ficamos os dois assim, em silêncio, parados como duas estátuas geladas, os dois com medo de fazer ou dizer qualquer coisa porque, debaixo da cama, o cheiro da carniça dos nossos duplos já subia e nos impregnava as narinas, as roupas e os cabelos.

“A gente acabou,” meu cadáver sussurrou, de baixo da cama, infinitamente triste.

“Eu te amo,” eu disse, mecanicamente, como quem atesta uma lei tão óbvia quanto a gravidade.

Embaixo da cama, o cadáver dele virou de costas para o meu e fechou os olhos, com raiva.

Em cima da cama, ele beijou minha testa, suavemente, e não disse nada.

setembro 02 2012

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