learning to love the bomb

(a) about the bomb — novembro

Talula encheu os dois copos um pouco rápido demais, a cerveja dela começou a transbordar e ela embicou pra cima do copo pra beber antes de ela cair na mesa.

Eu fiquei olhando, com meu copo na mão, esperando pra brindarmos, uma batidinha na garrafa e Talula virou metade do copo de uma vez.

“Aconteceu uma coisa, hoje,” eu disse. “Eu estava na cozinha, fazendo um chá, e enquanto a água fervia eu fui olhar a estante de livros. Fiquei dividindo mentalmente quais eram meus e quais eram da Clau e, por nada, lembrei de uma coisa. Quando morava com o San, toda vez que tínhamos uma briga grande eu começava a arrancar todos os meus livros da estante dele, falando que ia embora. No começo a coisa até causava algum tipo de impressão dramática, mas, depois que começou a acontecer pelo menos uma vez por semana, ele só entrava em desespero porque sabia que ia ter que arrumar toda aquela zona depois, e era só mais uma pequena consequência pragmática das nossas tragédias domésticas. Mas o que estava pensando era no por quê dos livros. Sei lá. Tinham várias coisas minhas, lá. Roupas seriam o óbvio, eu acho. Eu nunca ia conseguir levar uns trinta livros debaixo do braço até o ponto de ônibus pra sumir dali. Se eu quisesse ir embora de verdade, faria uma mochila com carteira e umas mudas de roupa pra ficar na tua casa por uns dias, ou, na pior das hipóteses, ir pra Taubaté. Daí eu fiquei pensando. Por que os livros?”

Talula franzia as sobrancelhas, pensando, com a cerveja perto dos lábios. Ela ficou em silencio, e eu ia começar a falar de novo quando ela disse:

“Bom, sei lá. A gente não pensa muito, nessas horas. Você provavelmente só queria chamar a atenção dele com alguma coisa que fosse incomodar ele, também. Só pegar suas roupas não ia incomodar tanto, tinham livros dele lá, também.”

“É essa a questão! Acho que eu nunca quis ir embora, de verdade. A estante era só uma boa metáfora, a vida toda eu me defini pelos meus livros, e lá eles estavam misturados com os livros dele. Eu queria me arrancar de lá, da casa dele e da vida dele, e por isso eu arrancava os livros, porque eles eram meus e estavam misturados nele, e eu me queria limpa.”

“Você era muito dependente do San quando vocês moravam juntos. Eu lembro que a gente quase nunca se via, no final. Só quando eu ia na casa de vocês pra uma das festas fracassadas de zona leste.”

“É. Mas eu não conseguia ver ninguém, naquela época.”

“Sabia que o San me ligava, às vezes? Eu não sabia direito o que estava acontecendo, e nem ele queria me contar, mas a única coisa que eu dizia era que vocês precisavam ser felizes.”

“Mas eu era, juro. Esse era o problema. A gente tinha momentos muito terríveis, mas nossos momentos bons também eram muito bons. Até o último dia.”

“Mas isso não é ser feliz. Vocês viviam angustiados.”

“Eu sei. Eu sei, agora. A gente era doente. Sei lá. Não foi nem como se a gente tivesse terminado. A gente acabou, do jeito que as bombas nucleares acabam com a terra, fazem um cogumelo enorme e um puta estardalhaço e depois não sobra nada vivo pra fazer barulho nenhum, só aquele silêncio de morte absoluta. A gente não terminou, a gente morreu.”

“Sei lá. Você sempre vê as coisas como um grande drama, tudo parece um filme. Eu já disse, não sei direito o que acontecia entre vocês, só sei que o San te fazia mal, e eu ficava triste de não conseguir fazer nada pra ajudar. Eu gosto muito de vocês dois. Acho que vocês têm que ser felizes.”

“Eu sei. E é engraçado porque… namorar com ele foi uma das melhores coisas que me aconteceram. Mas terminar com ele deve vir logo em seguida na lista. Acho que hoje eu não preciso de ninguém pra me preencher buraco nenhum.”

“É.”

Eu enchi os copos, Talula acendeu um cigarro e se levantou pra fumar além da faixa amarela desenhada na calçada.

“Felicidade conquistada é a coisa mais valiosa do mundo,” eu disse.

Talula soltou fumaça pro céu, pensativa, e disse:

“Sabe, a gente pensa demais, às vezes. A gente se esforça, de verdade, e por isso a gente nasceu pra ser infinitamente feliz. Eu quero abraçar a vida com toda a força do mundo.”

Eu levantei e peguei um dos cigarros dela, acendi e também olhei pra cima. O céu não tinha estrela nenhuma, como sempre, mas a lua estava bem cheia.

“Sim. Eu também.”

(a.2) são três estágios da bomba atômica:

Quinze minutos depois de ele sair até eu levantar da cama, ligar o computador e digitar a senha que continuava a mesma. Histórico de conversas recentes. O nome estava lá. Eu estou sempre certa eu odeio estar sempre certa eu odeio —

Eu abri a conversa e fui até o início.

1_queda

Você é uma demônia.

Que saco! Por que a gente não foge no barco do seu pai? Larga tudo e fica vivendo no mar, eu pesco e você cozinha.

Eu sei!! É uma ideia excelente.

Sei lá, Lilian. Só quero te ver. Por que é tão difícil?

2_cogumelo

Por que você não termina com ele, se tá tão ruim?

Eu sei como é. 80% dos meus terminaram porque descobri que minha ex-namorada não era a pessoa incrível que eu achei que fosse.

…?

Não, com ela não. Ela foi outra coisa.

Aliás, aconteceu uma coisa engraçada hoje.

De madrugada, ela me ligou. Eu devia contar ao vivo, a gente devia se encontrar e conversar direito, sobre tudo! por aqui nem tem graça contar.

Bom. Tá. Ela me ligou de madrugada e eu achei que fosse você.

Não sei, eu tava meio com sono e um pouco bêbado.

…?

Pois é, eu notei, claro, mas antes falei seu nome duas vezes.

…?!

Hahahaha, não. Acho que ela não percebeu, eu tava falando tudo enrolado.

3_devastação

Hoje devolvi as últimas coisas dela.

…?

Hahahaha! Não, foi bem tranquilo, na verdade. Tenho um amigo que diz que eu funciono com um tipo de botão. Quando eu gosto, gosto com tudo o que eu tenho, mas, depois que passa, só o que eu consigo sentir é indiferença.

Indiferença: s.f. 1) estado de tranquilidade daquele que não se envolve com as situações, boas ou más; desprendimento. 2) falta de interesse, de atenção, de cuidado; descaso, desinteresse, negligência. Ex.: indiferença pela dor alheia. 3) ausência de comoção ou interesse para com qualquer estímulo; apatia, indiferentismo, ataraxia. 4) estado daquele que não se deixa conduzir por sentimentos arrebatadores como amor, ódio, raiva etc.; distanciamento, frieza. 4.1) ausência de interesse com relação a um ser ou aos homens em geral, esp. pela pessoa em quem se inspira amor; frieza, desinteresse. Ex.: deixo de amar como quem desliga um botão – só o que sobra é indiferença. 5) sentimento de altivez; falta de consideração; desdém, menosprezo. Ex.: foi engraçado, chamei ela pelo seu nome e ela nem notou.

Fiquei parada, relendo as conversas por muito tempo. Li outras, vasculhei cada linha do histórico do último mês, li também conversas com outras pessoas, sobre como Lilian era a menina mais bonita de todas, sobre como San devia parar de pensar nessas besteiras de fim de namoro já que ele era tão, tão sortudo por estar ficando com uma garota daquelas. Li emails para o Vitor com as lamúrias dele sobre como deveria estar preocupado com questões pragmáticas da vida mas só conseguia pensar no que Lilian dizia na janela no chat, analisar suas reações, odiar o namorado dela. E tantas declarações, tão óbvias, de que ele estava completamente hipnotizado, intoxicado.

Como uma onda, a tristeza começou a crescer a cada linha lida, mas, quando ela rebentou, o que veio na espuma foi ódio, ódio puro, filtrado e racional. Eu tive uma coisa boa. Uma coisa especial, uma coisa que a maioria das pessoas morre sem sentir como é, e, por mais que essa coisa tivesse apodrecido de dentro pra fora, por mais que ela tivesse estragado e só restasse uma carcaça feia e seca, ainda assim aquilo tinha sido meu.

Cada dia passado era meu, e eu os guardava como um tesouro secreto, como vários diamantes coloridos muito claros, e ele contaminou tudo, ele transformou tudo, até o que existia de mais transparente, em um término vulgar, comum.

Eu repetia o nome dele todos os dias antes de dormir e quando acordava, como uma pequena oração silenciosa, mesmo que distante. E ele jogou meu nome, com descaso, displicente, pra uma menina, só mais uma menina bonita, que sorriu sem se impressionar e atirou ele junto do resto da pilha de oferendas.

Eu senti o ódio me cegando, liguei pra ele, esbravejei no telefone por uns cinco minutos, e a cada negação e mentira meu ódio crescia, porque a ternura estava sendo convertida, a cada palavra, toda ela, em vulgaridade, em uma cena de novela barata, em amor comum e pouco.

Nada tinha acontecido. Eu estava louca. Eu estava, de novo, sendo paranóica, pressionando.

Eu tinha lido tudo.

Vulgaridade.

Ele desligou, estava indo pra casa pra conversarmos.

Eu queria quebrar o lugar todo. Queria destruir qualquer coisa que fosse importante.

Fui até o quarto, abri a Gaveta das Lembranças e tirei o calhamaço da última carta que tinha entregado pra ele, a carta em que pedia desculpas e em que dizia que, por mais doentes que estivéssemos, eu teria carinho por ele pra sempre, e sempre saberia que, apesar de tudo, ele era uma pessoa boa, única, especial. Quando entreguei essa carta pra ele, ele chorou, e disse que ela tinha chegado tarde demais, e abraçou as folhas amassadas, chorando bem suavemente, e me abraçou depois, e eu sabia que a gente era mais que um namoro e um fim de namoro, a gente era família, independente dos caminhos distintos que as nossas vidas tomassem. Nosso amor era irrevogável.

Eu rasguei a carta em mil pedaços e espalhei ela pelo quarto.

Eu sentei no chão, com ódio demais pra chorar, esperando ele chegar. Eu queria machucar ele, queria destruir tudo que sobrasse de bom, porque, no fundo, eu sabia que por mais cruel que eu fosse, existia a muralha de indiferença que bloqueava meu veneno.

Finalmente, eu era invisível.

Sentada no chão gelado, olhando pra casa vazia como se tudo fosse alienígena, ou, pior, como se tudo fosse devastadoramente concreto e o fantasma fosse eu, chorei; enquanto eu chorava, olhando pro teto e pras cortinas e pras cobertas bagunçadas, uma voz maliciosa e ancestral me disse, com muita propriedade: “mas você já sabia que ia terminar exatamente assim desde o primeiro dia, não sabia?

Ele nasceu pra te jogar fora.”


Depois de ele me pedir perdão, de tantas formas quanto eram possíveis, eu, chorando, colei a carta, pedaço por pedaço com durex.

Ele não é uma pessoa ruim, no fundo. Não é culpa dele se é impossível amar você.

(b) tibet — janeiro;maio

“Se você fosse um país, seria o Tibet.”

“Massa. E você?”

“A União das Repúblicas Socialistas Soviéticas.”

“Mas isso não é mais um país.”

“Isso é o que a gente quer que vocês pensem.”


A gente estava no bar de sempre, o das cadeiras de plástico e toldo com goteiras mas, por sorte, não estava chovendo. Os garçons eram simpáticos, mas volta e meia fingiam que não enxergavam a gente acenando, por preguiça, e as cervejas sempre demoravam uma eternidade pra chegar. Era nosso bar preferido — uma preferência compulsória, uma vez que ele era o único que sempre tinha uma mesa vaga, a pior de todas, quase além dos limites do estabelecimento e em um canto escuro. Escondida como era, ainda assim tínhamos que lidar com os eventuais pedidos de um trocado pra pagar um lanche, um cigarro, comprar um brinco de pena ou um livro de publicação independente. Talula e eu estávamos de frente uma pra outra, uma cerveja, um isqueiro magenta e, entre a gente, um maço do terrível cigarro de canela que costumávamos fumar.

“A questão é que ele era tudo que eu queria ser,” eu disse. “No começo eu fiquei meio deslumbrada com isso, eu não conseguia entender como tudo funcionava pra ele. Ele era muito organizado, e planejava tudo meticulosamente, mas sem stress. Mais que planejar, ele seguia o plano!”

“Ele morreu?”

“Haha. Não. Sei lá, um pouco. Mas o que eu quero dizer é que depois de um tempo isso começou a me dar um desespero que eu não entendia de onde vinha. Primeiro achei que era inveja; que o jeito de ele orquestrar a vida só mostrava como eu estava sempre fora de sintonia, e isso era meio opressor. Mas daí eu percebi, e essa é a pior parte, que quanto mais eu via a maneira de ele ser, menos eu queria ser daquele jeito. Era como se ele me jogasse na cara que se eu não era feliz e funcional, não era por falta de capacidade, mas por falta de vontade. Ele me esfregava na cara meu livre arbítrio, boicotando todas as minhas ilusões de frustração. Tem idéia do tamanho dessa responsabilidade? Saber que você está no controle, e que seus problemas, no fim, são só seu jeito de fugir do tédio da vida regrada e previsível? E toda vez ele me dizia que as palavras têm poder, e me mandava parar de dizer que eu era a rainha do autoboicote… E eu ficava de saco cheio de ele levar tudo tão a sério, sabe? Foi demais pra mim. Surtei. Porra, ser feliz devia ser pelo menos um pouquinho difícil, sabe? Senão qual é a graça?”


“Me conta. Por que a União Soviética?”

“A vida é perigosa. Vivemos na iminência de uma guerra nuclear. Somos frios e duros, e ninguém pode com nosso inverno. Hitler é nossa putinha. Napoleão também. Temos Rasputin, que é Alan Rickman dançando pelado e bêbado em cima da mesa de algum lugar que parece hostil e gelado. Dostoiévsky! Ah, e as kalashnikovs. Coquetéis molotov. Meu, sério, a pergunta correta seria por que não a URSS? Tem país melhor pra ser?”

“Tibet.”

“Só se você tem os chakras alinhados.”

Ele sorriu, e ele sempre sorria mais com os olhos do que com os dentes, com tanto gosto que tinha ruguinhas de setenta anos de idade, mas só quando sorria. A gente se beijou, embaixo do edredom apesar do calor de fevereiro, mas ele levantou, checou se a porta estava trancada, tropeçou na gata e colocou ela pra fora, trancou a porta de novo, sentou na beira da da cama, tirou as meias e voltou pra baixo do edredom.

“Você é tão magrinho. Consigo contar todas as suas costelas.”

“Isso é ruim?”

“É ótimo.”

Ele sempre ficava por baixo, e colocava dois dedos dentro da minha boca, invariavelmente eu acabava mordendo o pulso dele, enquanto ele, meio sorrindo, meio de olhos fechados, repetia, como um mantra: “shh, shh…”


“Quer de novo?”

“Quero!”


INTERPOL (02:12)
Mas, afinal, vocês estão namorando?

URSS (02:12)
Claro que não, não sou dessas.

INTERPOL (02:12)
Mas vocês saem toda semana?

URSS (02:13)
É.

INTERPOL (02:13) 
Em programas que vão desde drive-in vagabundo a ir ao shopping comprar meias?

URSS (02:13)
Eram botas.

INTERPOL (02:13)
E não ficam com outras pessoas?

URSS (02:14)
Não posso afirmar. É o que parece.

INTERPOL (02:14)
Então…?

URSS (02:14) 
Então nada.

(02:16)
Ele me deu uma jaqueta demais.

INTERPOL (02:16)
Pff. Você sabe o que dizem, né? A única batalha que a União Soviética já perdeu foi contra o capitalismo.


A gente estava dentro do carro, que era muito limpo, Benji dirigindo, eu ao lado sem me atrever a colocar os pés no painel e, atrás, espremidos, estavam Talula, Breno, Max e Santiago. A gente estava voltando de uma vernissage de um professor do Breno, que tinha sido em um prédio velho no centro. Disseram que durante o dia o lugar funcionava como escola de DJs. Nenhum móvel era de cor ordinária e, onde você parasse os olhos, via uma coisa inusitada, tipo placas de trânsito e plástico bolha gigante, fotos penduradas no teto, manequins desenhados, sinais luminosos neon e quadros de arte experimental na parede, mas se você não prestasse atenção, tudo se misturava em uma massa plástica bacana. Disseram também que tinha drinks de graça, mas Talula, Benji e eu chegamos tarde, e só tinha sobrado guaraná e cerveja de qualidade questionável, que bebemos assim mesmo. Breno e Max já estavam bem à nossa frente, e Santiago já tinha nascido à frente de todo mundo, por mais que geralmente se limitasse a uma ou duas taças de vinho.

“Igor, valeu mesmo, viu?” Max tinha decidido que o nome de Benji era Igor.

“De nada.” Benji respondeu, sorrindo.

“Não, sério, valeu mesmo. De verdade.”

“Já ia passar por lá.”

“Vocês querem parar em mais algum lugar?” Santiago perguntou.

“Hum…” eu disse.

“Acho que por hoje já deu nossa hora.”

“Acorda, né gente! Eles vão transar! Só eu vou dormir abraçando travesseiro hoje… Acho que a gente devia parar em algum lugar, sim!”

“E teu príncipe, Talula?”

“Ai, sei lá, esfriou. Não sei explicar, só esfriou.”

“Tara, vocês fazem frango assado?”

“Sou vegetariana.”

“Gente, vocês lembram da história da Bruna e do namorado com o frango assado?”

“Que história é essa?”

“Não era frango assado, Max, era fraldinha!”

“Verdade! Era fraldinha!”

“Gente, o que é fraldinha?”

“Nós temos uma amiga, a Bruna,” Santiago disse, se debruçando no vão entre os bancos da frente por cima de Max. “E ela tem um namorado, e um dia saímos e ela estava bêbada.”

“Bem bêbada.”

“E ela disse que precisava ir embora porque estava a fim de uma fraldinha com o namorado.”

“E o que é uma fraldinha?”

“Então, foi o que a gente perguntou,” Max disse. “Ela disse que é quando seu namorado te dá uma fodidinha segurando suas duas pernas apertadas fechadas pra cima.”

“Haha, não sabia que isso chamava fraldinha.”

“Acho que é um apelido carinhoso deles. Você gosta de fraldinha, Igor?”

“Claro.”

“Igor, valeu, viu? Obrigado mesmo.”

“E aí?”

“E aí que ela foi embora, e nem lembrava mais dessa conversa, mas o aniversário dela foi uma semana depois, fechamos uma mesa em um bar, umas trinta pessoas, e o Max levou um pacote de fraldas da Turma da Mônica pra ela, e escreveu um bilhete dizendo pra aproveitarem bem.”

“E os sete caras de hoje, Max?”

“Foram quatro, gente!”

“Desculpe! E os quatro caras de hoje?”

“Gente, que absurdo!”

“Quatro é um número de boas energias, é o que dizem. Teu ano vai ser bom.”

“Eu não sei como isso aconteceu, eu fui pro banheiro com o cara e depois apareceu outro, meu, Igor, chupei quatro caras no banheiro!”

“Você já contou isso pra ele algumas vezes hoje, Max.”

“Que bom que pela boca não engravida.”

“Ele tem útero infantil, queridinhas.”

“Max é o prêmio DST 2011.”

“Gente, nem brinca com isso…”

“Quatro caras, Max.”

“Igor, quatro caras, você acredita?”

“Acredito.”

“Chegamos!”

“Talula, quer dormir na casa do Benji?”

“Imagina, gente, vou ficar aqui com os meninos, curtam a fraldinha de vocês! Beijo!”

“Tchau!”

Os quatro desceram, e o carro ficou parecendo um navio abandonado, enorme e silencioso.

“Você está escandalizado com meus amigos?”

“Haha, não.”

“Juro que eles não são sempre assim, apesar de serem frequentemente. São pessoas ótimas!”

“Eles parecem ótimos.”

“É, só estavam um pouco bêbados.”

“Topa uma fraldinha hoje?”

Eu apoiei a cabeça no ombro dele, sentindo o osso da clavícula contra a minha bochecha e agradecendo pelo ângulo não deixar ele ver a cara feia que eu estava fazendo pro rádio. Mas achei que, se ele tinha acompanhado o podcast fraldinha, nada mais justo que eu tolerasse o ruído desconexo que ele chamava de música.

“Você odeia essa música, né?”

“Está ok.”

Eu estava um pouco bêbada e sonolenta, ele mudava as marchas com a mão esquerda enquanto, com a direita, desenhava meu rosto no escuro, as sobrancelhas, o nariz, as pálpebras, o queixo e a boca.

Eu beijei os dedos dele, ele começou a respirar pesado, mas eu despenquei no colo dele, quase dormindo, e senti uma coisa. Benji abriu o zíper, eu olhei pra cima.

“Isso é uma indireta?”

Ele sorriu.


“Todo mundo é um país?”

“Médio. Minha melhor amiga é a Interpol.”

“Não devia ser a KGB?”

“Ela também. Tenho várias. Somos muito tolerantes, nesse aspecto.”

“Quem mais?”

“Meu ex namorado, por exemplo, é a Coréia do Norte.”

“Por quê?”

“Não consegui pensar em nenhum país pior.”

Benji estava sentado no computador, metade de costas pra mim. Era de tarde, ele estava trabalhando e eu tinha matado aula. Enquanto ele tentava colocar o site da academia no ar em troca de uns meses de aulas de natação gratuitas (mais um bico que um trabalho), eu lia O Sol Também se Levanta pela quarta vez, com os pés jogados por cima do braço de uma poltrona bem confortável. Estava tocando alguma coisa brasileira moderna, uma espécie de samba contemporâneo dos bacanas, enquanto eu imaginava odres de vinho branco gelando no rio e festas de rua espanholas.

Quando cansei de ler, peguei o caderno e dois lápis conté, um preto e um sanguine, e desenhei Benji trabalhando. Quando ele viu ficou bem surpreso, e começamos a pensar em jeitos legais de aproveitar meu desenho e as habilidades dele com o digital. Ele trabalhou mais um pouco, e estava meio irritado. Perguntei se tinha alguma coisa errada. Ele tinha certas burocracias pra resolver, e dependia de certos documentos que poderiam, ou não, estar com a ex-namorada, com quem ele tinha morado, mas não conseguia entrar em contato com ela, o que o incomodava tanto pelas razões práticas quanto pelas subjetivas, ainda que ele concentrasse sua irritação nas práticas. Contei algumas coisas sobre Coréia do Norte, também, e trocamos algumas frustrações de fim de namoro.

Benji me agradeceu e disse que eu tinha uma maneira muito particular de olhar para as situações.

Ele disse que faltava só um pouco pra terminar o site, e que depois podíamos tomar um banho. Eu sorri, e abri o livro de novo pra matar o tempo, exatamente na página em que Brett Ashley estava dentro de um táxi com Jake Barnes, que tinha ficado impotente na guerra, coisa que ela sabia porque tinha sido sua enfermeira. Ela diz: “Oh Jake, we could have had such a damned good time together!” O táxi freia jogando Brett de encontro a Jake, e ele responde: “Yes. Isn’t it pretty to think so?”

Era meu livro preferido.


Saímos com um casal de amigos de Benji, nós dois mais Talula e o filho deles. Eles tinham nossa idade, mais ou menos, mas decidiram ter um filho, porque era uma coisa legal de se fazer. Era um bebê, e não fez muita diferença na noite além de ser pauta de conversa e objeto dos trejeitos de voz infantil da Talula. Fomos em um restaurante baiano e tomamos uma cerveja bem gostosa. Benji conversou por alto com Ralf sobre o projeto dos dois no qual ele queria me incluir. Ralf era diretor de cinema, e eles tinham algumas ideias pra uns curtas informais que Benji estava cogitando transformar em quadrinhos em uma interface interativa, com nossa força-tarefa conjunta.

O tema da narrativa era cotidiano e simpático, mas a plataforma parecia ser mais interessante do que o conceito. Talula falou surpreendentemente pouco, e, no fim da noite, foi embora de carona com Ralf, a esposa e o bebê. Benji ia me levar até o metrô.

Eu estava com a cabeça no colo dele, e dessa vez ele acreditou que eu estava dormindo, mas eu só conseguia pensar em todas as coisas certas daquela noite, em como aquele bebê era redondo e bonito e em como o casal era bonito, e em como era legal que ela tivesse tido o filho em casa, sem anestesia, sem ir pro hospital pra fazer o parto, e em como era legal que Benji e Ralf tivessem seus projetos conjuntos bem estruturados, com slots de tempo bem-definidos pra serem distribuídos dentro do cronograma de vida de cada um… Eu ficava pensando nessas coisas no lugar, e me sentia toda fora do lugar, porque não tinha me divertido, nem de longe. Eles eram pessoas ótimas, o casal, até o bebê devia ser uma pessoa ótima, mas eram tão felizes, tão fluidos, com vozes tão macias e roupas em tons terrosos tão bem combinados, que eu não conseguia enxergar eles como pessoas tridimensionais, me pareciam retratos alegres de parede.

E eu comecei a pensar em como todos os meus amigos eram tortos, em como a gente era torto junto, e em como essa vida equilibrada, às vezes, parecia morna — não confio em nada que vem de graça, e esse equilíbrio parecia natural demais pra ser real. Parecia um cenário de papelão.

Benji dirigia achando que eu estava dormindo. Ele tinha pedido desculpas por não me levar até em casa, mas eu morava tão longe.

Chegamos no metrô, ele tocou minha cabeça de leve pra me acordar, eu levantei o rosto pra dar tchau e não consegui evitar que ele visse que eu estava chorando. Eu não sabia como explicar, e disse que era a pressão de ter que ir visitar meus pais, e como toda minha família era errada, e esse choro improvisado se acumulou com o anterior, e eu disse que visitar minha cidade sempre era muito doloroso, e era verdade.

Benji me deu conselhos muito sensatos. Disse que a gente tinha que quebrar os problemas em causas e conseqüências, e em problemas menores cujas razões pudessem ser facilmente compreendidas. Ele prometeu me mandar um email com um livro que ia me ajudar. Eu me acalmei, ouvindo a voz dele sem prestar muita atenção no conteúdo, e disse que precisava correr senão ia perder o ônibus, nós nos beijamos e eu agradeci: mesmo sem ouvir, sabia que ele tinha dito tudo certo.

Entrei no metrô sentindo medo. As pessoas pareciam ameaçadoras e indiferentes. Eu sentia saudades de San.

Algum tempo atrás eu tinha lido que Kim Jong-il, o ditador da Coréia do Norte, na verdade era russo. Eu achava que devia ser o contrário.

(c) ternura — novembro

Sun, 08 Nov 2011 12:41:32
sonhei que você tinha me emprestado um apartamento em higienópolis que você estava morando, ele era enorme e você pagava muito pouco e eu queria alugar de você pra ficar perto do set que eu tava trabalhando de uma produtora falida (que aconteceu ontem) e eu queria alugar — porque agora sou rico e o gato só come patê enlatado de gatos ricos — e além de uns desertos místicos no meio de umas favelas da zona leste tinha o natal, que acho que surgiu no sonho porque estive em dois sets de natal, de uns comerciais bizarros, e um deles foi pra tok stok e eles fizeram umas decorações natalinas com móveis da tok stok muitíssimo bregas e eu lembrei da sua mãe e de taubaté e uma diretora de arte xingou o lucas porque eu tive que explicar pra ele o que era um suplá, porque eu sempre soube, porque usávamos suplás mesmo comendo lanches e enfim, acho que misturei o sonho com a vida, só queria te contar que pensar no natal é muito dolorido.

(…)

Fri, 11 Nov 2011 09:37:49
o gato come patê misturado com ração, eu estou rico mas ainda tenho que pagar meu nintendo dsi xl de tela gigante, ou seja, não estou tão rico. sim, estou fazendo umas elétricas em uns sets que nem quero lembrar, com gente que nem quero citar e filmes que… enfim, queria poder te contar, não assim, e sei lá também.

que bom que você se resolveu com essa questão, fico muito feliz e sinto que faço um pouquinho parte disso, e isso é engraçado porque eu estava falando pro vitor que durante esse tempo todo eu vim percebendo que muitas das coisas que você acreditava e que pareciam absurdas pra mim, que me faziam discutir e tentar te convencer a ser menos intransigente e dura com a vida são coisas que hoje eu entendo e concordo com você. na verdade esse era o motivo inicial do email, dizer que você estava certa em muitos aspectos e que você não devia ponderar muito antes de ouvir algumas das coisas que eu disse.

claro, fiquei chateado por perceber isso, já que parecia que eu não tinha adicionado nada a sua vida, mas vendo essa coisa que você contou talvez eu tenha te ajudado de alguma forma com isso, não sei.

passei muito tempo ensaiando esse email, não esses dias, mas durante todo esse tempo. e, bom, é isso, ele não tá saindo como eu imaginava, mas pelo menos não é o de ontem, que eu decidi não enviar por estar bêbado demais.

engraçado, nos primeiros dois meses fiquei muito surpreso pela facilidade que eu tive pra te esquecer, eu sempre pensava em como foi fácil fazer isso, depois eu comecei a perceber que pensar muito em como foi fácil esquecer alguém talvez não seja esquecer, meu cérebro malandro apagou os caminhos óbvios pra você, mas não apagou você, e durante todo esse tempo foram surgindo os caminhos alternativos e livres de lembranças dúbias e tudo mais, cada vez mais. enfim. é muito maluco isso.

eu quero ficar mais rico pra te pagar um indenização por lilian zerbeto, não tem um dia que eu não me sinta como um principezinho numa mesa de sinuca gigante correndo de bolas monstruosas enquanto o mestre do cosmos grita “shame! sorrow! regret!” com ventos e trovões ao fundo.
as vezes acho que o gato sente sua falta, não tenho certeza, mas ele tenta invadir a sua gaveta e fica na porta esperando alguma coisa, não sei. o filme tá me esmagando monstruosamente, me sinto como pouca manteiga em muito pão.

Fri, 11 Nov 2011 19:13:02 
não é só por causa da comida, eu realmente sinto falta da sua mãe, do seu pai e do taubaté shopping brega.

fiquei pensando nesse seu email durante o dia, me senti meio bobo, parece que você tá realmente feliz e não precisa de mais nada, acredito que você tenha encontrado o equilíbrio que estava buscando, enfim, é isso.

a vida é cheia de amores perdidos, mesmo.