samsara

Uma pessoa me disse:

o outro é um espelho.

Hoje foi um dia bom. Fazia tempo que eu não tinha um dia tão bom. Consegui trabalhar sem aquele estupor desconcentrado que me perseguia nos últimos meses. Acordei muito cedo, meditei, fiz exercícios, grelhei legumes pra levar pro almoço. Saí tarde do escritório, feliz. Cheguei em casa, sentei no sofá, fechei os olhos, serena, mas não consegui mais levantar. Perdi duas horas, imóvel, olhando pra tela do celular. Não posso ficar parada: se fico parada, parece que consigo contar cada nervo do meu coração.


“Com certeza você já foi essa pessoa pra alguém, essas coisas são tão normais que são banais.”

“Você nunca entende nada.”

Ele não quer (“eu já vim preparado pra te consolar, o que eu faço com essa disposição agora que to vendo que você tá bem?”), mas eu mudo de assunto. Deve ser inédito, mas ele não precisa conversar. Ele não precisa de ajuda. Não tem nada de errado, mas eu rebato.

“Parece que não dá mais pra ter uma conversa de adultos com você sobre isso. Obrigado por nada.”

Eu não sei direito o que dizer, fico tateando argumentos muito fracos, o que eu sinto é que não ter nada de errado não é o suficiente —essa apatia venenosa — falo sobre deslumbramento, sobre a necessidade do encanto perene. Digo que sou deslumbrada por ele até hoje, que eu quero escrever sobre nossas conversas, e não só por ele, eu sinto um transbordamento de alegria e um encanto que nunca desbota pelas menores coisas, pelos meus gatos, pelas minhas pessoas, mesmo que já tenha decorado todos os trejeitos e particularidades das minhas favoritas. Eu sou apaixonada por todos os meus amigos.

Dois dias depois, eu vejo as palavras dele saindo da minha boca em outra conversa, e outra pessoa me devolve as minhas; “não é o suficiente” não é uma resposta que eu consigo aceitar. Eu estou apaixonada.

Se estou sempre errada, como posso depois de todos esses anos ainda ser sua pessoa número um?

(Você é meu número um, pra sempre.)


Os corpos que eu deixei pra trás são tantos, meu Auschwitz particular.


Ela gostava da guerra.

Parece uma coisa esquisita de se dizer, “ela gostava da guerra”, mas era isso mesmo. Os uniformes, literatura. Ela dizia que a guerra fazia as pessoas se darem conta do que importa de verdade.

Quando você sonhou com meu casamento, como era a pessoa que saía do altar ao meu lado enquanto você jogava arroz na gente?

Nunca consegui perguntar.

Nunca vou entrar em um altar.


Os corpos que eu deixei pra trás, nenhum foi enterrado.


O corpo de uma criança.

Ela batia diariamente, todas as tardes, mas eu tinha tanto sono. Meu corpo de criança sempre foi grande demais, pesado demais.

Ela queria andar de bicicleta, jogar videogame, andar na pracinha, inventar brincadeiras novas. Ela queria que fosse como antes, a naturalidade despreocupada da infância, mas eu não estava mais lá. Ela sentava triste ao meu lado na cama, tocava de leve meu braço com receio de uma resposta ríspida, dizia com a tristeza absoluta da inocência que não era normal dormir tanto assim, e eu fingia que não conseguia acordar. Será que eu conseguia?


Todo mundo que eu não consegui amar.


Quando a cachorrinha morreu, eu não fiquei triste. Eu senti alívio.

Nunca contei pra ninguém.

Ela já estava comigo há quase dez anos, éramos inseparáveis. Usavam a gente como exemplo do puro amor incondicional de uma criança e seu melhor companheiro. Ela tinha a devoção inabalável que só os cachorros oferecem, mas eu sempre quis um gato.

Quando envelheceu, ela não conseguia mais pular no sofá pra ver tv comigo. Ela tinha deixado de conseguir fazer muitas coisas. Ela raspava as patas nas almofadas e balançava o quadril hesitante, ensaiando o salto que nunca vinha, e eu precisava estender a mão e ajudar ela a subir, eu precisava ajudar ela em tudo.

O câncer já estava avançado demais quando descobrimos.

Eu não vi o câncer avançar.


Raspo a cabeça, paro de usar maquiagem e sutiã, minhas roupas são confortáveis. Às vezes, me sinto bonita. Me sinto limpa.

Raspo a cabeça, paro de usar maquiagem e sutiã, minhas roupas não fazem sentido, tudo ela iria odiar, mas faz tanto tempo que não atendo o celular que não penso mais nisso.


Eu ouço as minhas palavras saindo da sua boca. A mesma certeza, a mesma intransigência, a mesma paixão.

Quando eu perdi o fervor?

Eu achei que ficar morna era amadurecer.

O caminho do meio.

Quando falo com você, parece que estou vivendo tudo de novo. É tão bonito ser jovem! Mas eu não sou tão velha assim, eu não sou velha, por que falo como se carregasse todos os anos da Terra nas costas?

É que estou tão cansada.

Eu queria pedir desculpas por ter te deixado sozinha, foi sem querer, e eu me lembro de ser sozinha, eu me lembro da dor que nunca vai embora, a gente só se acostuma.

Eu tento te dizer, você vai se acostumar.

Você responde: “eu não quero”.

Eu também não queria.


Todos os corpos que eu deixei pra trás.

108 contas de osso tibetano.


“Você tem ideia da sorte imensa que é a gente ter se encontrado? Do quanto isso é raro? É perfeito, porque funciona, mais que isso — é muito bom, é muito gostoso, mas não precisamos um do outro. A gente fica junto só porque a gente quer. Que sorte!”

Eu não quero.

Em dias como hoje, sinto que posso contar cada nervo do meu coração.

Śānti, śānti, śānti.

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