saudade

Não tenho medo de ficar triste. Se Buddha está certo e a vida é sofrimento, tristeza nada mais é do que evidência de que estamos vivos. Quando a gente fica triste, é por consequência do apego: em outras palavras, se a gente fica triste, é porque foi importante. Essa é a parte mais difícil do caminho pra iluminação: não é difícil se libertar do sofrimento uma vez que a gente decide trilhar esse caminho, mas a libertação implica em abrir mão do apego. A parte difícil é que fazer a escolha de deixar pra trás a intensidade da dor implica em deixar pra trás a intensidade do amor, também. Se apaixonar vicia porque nunca nos sentimos mais vivos do que no abandono desesperado do amor correspondido e na solidão absoluta da perda.

Com o desapego, sobra uma tranquilidade, uma compaixão equânime por todos os seres; é bonito, é muito bonito, não existe ego, o eu que ama o outro, não existe romance. É difícil abrir mão da dor do romance, desse prazer masoquista que Álvares de Azevedo exprimia tão bem, seduzindo com essa narrativa o meu eu adolescente que nunca tinha se apaixonado por ninguém. A gente aprende por expectativa antes de aprender por experiência, né?


“Ok, acho que vamos ficar por aqui, então. Detesto covardia.”

“Olha, eu também detesto covardia, mas você tem que entender que as coisas nem sempre se resolvem da maneira e na velocidade que você espera.”

Eu sorrio quando ele me conta, me sinto orgulhosa. Eu me lembro do Roland Barthes dizendo, no Diário de Luto, que sua moral é a coragem da discrição. É corajoso não ser corajoso. Alguém me perguntou, brincando, dia desses, qual é a cura para um coração partido, e eu respondi: honestidade e paciência. Honestidade com os outros, porque a única tristeza que não é saudável é a tristeza de ser enganado. Honestidade com a gente, pra admitir nossa dor, nossos sentimentos, nossa frustração, nossa tristeza. Paciência porque não existe machucado que cure rápido: um monte de coisas não precisam ser resolvidas, não precisam ser conversadas, não precisam de coragem: só precisam de tempo. Honestidade e paciência. Essa é a minha moral.


Faz mais de quatro meses que estávamos sentadas na varandinha do cigarro, e eu dei pra ela o anel com dois triângulos, um pra cima e um pra baixo.

“Eu quero que você se lembre, sempre, que se a gente sente tristeza isso só acontece porque também temos a capacidade de sentir alegria. Que se a gente sente dor, essa dor só existe porque é doloroso perder algo que foi muito importante.”

“Mas eu me sinto tão culpada. Você me disse que tinha medo de eu ir embora, e eu te convenci que não era pra ter medo, e agora estou indo embora.”

“Você não me convenceu de nada; eu sempre tive medo de você ir embora, mas escolhi ficar contigo assim mesmo. Talvez se eu tivesse me afastado quando a dúvida de você ir embora surgiu, agora essa despedida seria muito mais fácil… mas eu não tenho medo de sentir tristeza, na verdade essa tristeza me enche também de uma alegria imensa por saber o quanto você foi importante pra mim nesses últimos meses, e me enche de alegria pensar na sorte que tivemos em nos encontrar. Essa tristeza é saudável, é a tristeza que prova que você deixou uma marca indelével no meu coração. Não importa em que continente você for morar, você vai morar pra sempre no meu coração.”

A gente chora, é claro, e se abraça, e é tudo muito triste. A saudade sempre é uma sentença muito dura.

Quatro meses se passam e eu vejo o anel em todas as fotos que ela posta, e eu digito sem parar na tela do meu celular, contando sobre minha mãe, sobre o processo de descobrir quem eu sou, sobre quando decido começar a meditar, e parar de fumar, e beber menos, e cuidar da minha casa e cuidar de mim.

Ela lê todas as mensagens, escuta todos os 30 áudios seguidos que eu mando, e nem sempre precisa me responder de maneira elaborada: eu sei que ela entende, eu sei que ela está ouvindo. Se amizade é a forma mais doce de amor, eu só quero amar quem também for meu amigo.

Tem um bloco de post-its pendurado na minha parede, eu acordo e arranco o “10” e fico olhando pro número 9. Falta muito pouco, agora.

“Eu consegui um trabalho, então tudo ficou mais difícil. Só vou ficar um mês.”

É o velho buraco no meu coração, de novo. Eu estou tão cansada, eu ainda estou cansada. Eu quero o abandono infantil de não precisar me preocupar com nada, e ser mimada um pouquinho enquanto esqueço tudo que é áspero. Eu quero que as coisas sejam simples, que a gente possa ter a liberdade apaixonada de um coração ainda não mastigado. Mas, dessa vez, eu já estou preparada. Barthes: região atroz em que não sinto medo.

Eu mudo de assunto; não sinto medo mas a tristeza está impregnada no ar. Quero responder: boba. Você não entendeu ainda que vai ficar pra sempre?

Não digo nada.