Um telegrama da maior urgência

É muito importante que você saiba que quando você sorri aparecem essas duas covinhas nas suas bochechas e isso me faz descer dois quilos de gelo no estômago, toda vez, nunca falha.

Você precisa saber que quando esse sorriso pequenininho aparece, aquele quando você faz um barulhinho engraçado e encolhe os ombros e estreita os olhos, isso é tão doce que eu podia esquecer tudo que existe de complexo nesse mundo porque tudo que eu queria é cuidar de você e deixar você cuidar de mim, também, e a gente ia ser indestrutível como aquelas pedras ancestrais na beira dos oceanos.

Você tem, absolutamente tem que entender que quando eu te abraço sua pele é a coisa mais macia que eu já encostei na vida, mesmo, mais macia até que aquele cobertor novo hipoalergênico que meu pai me deu e eu gosto de ficar enrolada o tempo todo e eu gosto mais ainda quando tem você embaixo dele comigo assistindo alguma besteira na TV quando consigo que você venha me visitar.

Eu não posso deixar de dizer, de todas as maneiras que me são possíveis, como você me escapa pelas mãos, fluida feito água ou uma porção de contas coloridas muito redondas e muito pequenas, e quando eu consigo te segurar um pouquinho nas palmas, fugindo pelos vãos dos dedos, parece uma espécie de milagre que você exista e seja feita de carne e osso e tudo que existe de mais suave.

Você tem que saber que o perfume que eu sinto quando te abraço e enterro o rosto na sua nuca, no fim do dia quando ele já está fraco e quase sumindo, é o cheiro mais gostoso que eu já senti na vida; eles deviam engarrafar isso e vender em toda esquina, mas eu acho que sem os fios curtinhos do teu cabelo enroscando nos meus dedos o cheiro ia acabar sendo diferente.

Eu quero muito, eu preciso mesmo te falar que eu queria que você guardasse os brilhinhos autocolantes que eu te dei, e toda vez que você olhar pra eles mudando de cor eu quero que você se lembre do que a gente conversou aquele dia na sacada dos cigarros quando eu te dei o único presente que foi sério, e eu quero te dar todos os presentes do mundo, os bobos e os sérios e, acima de tudo isso, é de máxima urgência que você saiba que se eu pudesse eu abriria mão de tudo isso e eu descobriria tudo de novo diferente se eu conseguisse, de algum jeito, qualquer jeito, te dar um pouquinho mais de tempo.