O machismo disfarçado de amor livre e liberação sexual

Em primeiro lugar eu quero deixar bem claro que não é da minha intenção criticar o amor livre, ou apontar os defeitos dessa prática em si. O problema do amor livre e da liberação sexual em relações heterossexuais é tão somente o mesmo problema das relações ‘fechadas’ que já estamos habituados: MACHISMO!

A primeira coisa que precisamos esclarecer para começarmos a entender o porque essas relações tendem a ser unilaterais é compreender que o amor livre, ou qualquer outra forma de relacionamento que questione a monogamia, não diz respeito a quantos parceiros sexuais você tem, mas sim, sobre a forma como você se relaciona. A escolha do amor livre implica que percebamos as situações de poder que existem em todas as nossas relações, sejam elas ‘amorosas’ ou não e, a partir disso, repensemos a forma como nos posicionamos com essas pessoas. O amor livre, de uma forma geral, ensina que o sentimento de posse, seja de uma pessoa ou de controle de uma situação, não é saudável para nenhuma das nossas relações afetivas.

O segundo ponto crucial para aprofundarmos essa discussão é entendermos quão mais difícil é para a mulher a desconstrução do moralismo sexual, vendo que, a sexualidade da mulher ainda é um tabu para a nossa sociedade. Infelizmente, apesar de aparentarmos um grande progresso sobre esse assunto, caminhamos muito pouco ainda em direção a uma melhora. A sexualidade da mulher ainda é tratada como uma ferramenta de satisfação para o homem. Podemos perceber isso claramente só de observarmos os cortes de roupas que fundamentam o guarda roupa feminino e os cortes de roupas que fundamentam o guarda roupa masculino. Se de um lado a mulher é induzida a se vestir para mostrar suas curvas e estimular a libido masculina, do outro, o homem é completamente induzido a usar roupas que eliminem qualquer desejo sexual da mulher. Isso também fica claro em propagandas. Nos roteiros dos filmes. Meios televisivos. Nas características que qualificam uma mulher e das que qualificam um homem.

No mundo em que vivemos atualmente, nós mulheres, somos ensinadas a sermos completamente inseguras em relação a tudo, somos ensinadas a competir com outras mulheres e a não expor nossas vontades sexuais, enquanto os homens são condicionados desde sempre a manterem várias parceiras sexuais e acostumados a ter sentimento de posse sobre elas, além da famosa ‘brotheragem’ que circunda o meio masculino e se reflete, tão somente, em opressão às mulheres.

Também vivemos, e somos obrigadas a conviver, em um mundo aonde o homem fetichisa as relações homossexuais entre duas mulheres, porque ele não enxerga outra mulher como uma rival sexual, na verdade ele a enxerga apenas como mais um objeto de prazer. Em contrapartida, é muito raro um homem que, adepto da liberação sexual, vê a relação sexual com duas parceiras da mesma forma que vê relações sexuais com outro homem.

A partir disso já começamos a entender a diferença de um homem reivindicar o amor livre, e de uma mulher fazer o mesmo. Mas, além de todos os problemas que isso tem gerado em torno dos atos sexuais, que incluem desde a aceitação unilateral do sexo com mais parceiros até o estímulo cada vez maior do não uso da camisinha de uma forma completamente irresponsável, o que podemos ressaltar como o maior problema da falácia do amor livre é que, essas relações só existem e coexistem em harmonia enquanto o homem não se sente afetado ou coagido dentro da mesma.

O homem que adere esses conceitos, mas ainda carrega dentro de si todo o machismo velado da nossa sociedade, tende a reagir como o ‘macho alfa’ quando, de alguma forma, a mulher dessa relação fere seu posicionamento de principal objeto de adoração da relação, seja entre a relação que ele tem com a parceira ou entre a imagem que ele reflete para o grupo social que ele entende como o seu. Nesse momento de ruptura do conforto o macho alfa costuma ter todos os comportamentos agressivos (verbais ou não verbais), possessivos, violentos, incoerentes e imaturos que ele teria dentro de qualquer outro formato de relacionamento, porque ele não mudou a sua forma de pensar, ele só mudou a forma de agir e de se impor perante a sua parceira.

Agora, se é de uma forma mais acentuada, ou não, que em relações fechadas não me cabe o julgamento. Deixemos esses homens de lado. Eu acredito que existam homens dispostos a desconstruir o machismo em qualquer tipo de relacionamento que eles se propuserem, o que nós mulheres temos que tomar cuidado é pra não confundirmos esses com os que só fazem uso do discurso para maior liberdade sexual e menor responsabilidade emocional. Tenhamos fixos em nossas mentes que uma relação sadia, não importa qual modelo siga, sempre vai ser uma relação de igualdade, compreensão e muito diálogo.

Amor livre não é falta de amor. 
Liberação sexual não é desrespeito. 
Machismo é sempre machismo.