Saber quando rir é pra gente grande.

Recentemente tenho visto várias pessoas, tanto na internet quanto em conversas em mesas de bares e cantos de festas, reclamando que, hoje em dia, todo mundo está chato e sem humor. Oras, você não pode achar graça em mais nada que já é julgado como preconceituoso, racista, homofóbico, lesbofófico, gordofóbico, transfóbico... daí em diante. E no fim das contas: Era só uma piada!
Bom, eu nunca fui muito fã de piadas prontas e memes da internet mas, confesso que, realmente, está cada dia mais difícil achar graça nas coisas que vejo por aí. Mas, porquê?

Esse assunto ficou na minha cabeça por bastante tempo, até que, resolvi estudar um pouquinho mais a fundo essa questão. O resultado? Menos graça. Uma dica? Não continue lendo se você for uma pessoa que preza as piadinhas durante os cafezinhos na firma. Agora, se você quer aprender a rir como gente grande, tá aqui uma boa oportunidade de você começar a pensar sobre isso.

Ao contrário do que pensamos, nossos primeiros sorrisos e risos, quando ainda bebês, não fazem parte de uma interação social pai-filho, nossos primeiros sorrisos são estímulos biológicos que emitimos para sobrevivência.

“ Entre o final do primeiro mês e o terceiro mês, o bebê começa a olhar nos olhos da pessoa que interage com ele. Este padrão é percebido subjetivamente pelo adulto como o primeiro sorriso realmente social, provavelmente por causa do contato visual olho-no-olho (FREEDMAN, 1964). No entanto, ao contrário da impressão do adulto, as respostas do bebê estão associadas, de início, a estímulos característicos, que não são necessariamente de natureza social. Aparecem diante de qualquer figura com configuração de olhos. Isto foi determinado apresentando-se máscaras de papelão ou partes do rosto humano (AHRENS, 1954; SPITZ & WOLFF, 1946).”

“Segundo SCHAFFER (1971), o bebê está estruturado de tal forma que certas seqüências, estímulo-resposta biologicamente importantes (como o sorriso em relação a padrões que se assemelham a olhos) são parte da sua dotação inata, colocando-o em contato com outros seres humanos e aumentando suas chances de cuidado, proteção e sobrevivência.”

A partir dos três meses de idade o bebê já consegue assimilar outras características do rosto (como sobrancelhas e boca) e detalhes do estímulo e seu contexto. Até cinco meses aproximadamente, o bebê responde da mesma forma ao rosto de uma pessoa sorridente, carrancuda ou que está chorando. Daí em diante, começa a diferenciar entre as várias expressões e também a diferenciar as pessoas entre si.

“Ao chorar, um bebê tende a se afastar do estímulo, mas, ao rir, mantém uma orientação positiva em relação ao estímulo (SROUFE & WATERS, 1976) Se situações discrepantes ou estranhas sempre evocassem reações negativas, a criança teria pouca oportunidade de se familiarizar com situações novas ou de aprender a lidar com elas. No entanto, como algumas vezes reage com riso diante destas situações, o adulto que cuida dela sente-se encorajado a reapresentar o estímulo perturbador, em lugar de removê-lo, aumentando, assim, as experiências que a criança pode ter. O riso tem o efeito de manter espetáculos interessantes, por intermédio de um adulto, que pode apresentar à criança a estimulação que ela não consegue produzir sozinha. Seguindo tensão ou ativação, parece permitir a dissipação da tensão e a repetição de experiências interessantes.”

Diferente dos vários estudos que existem sobre o riso entre bebês de até um ano de vida, esse assunto ainda não foi tão estudado em crianças à partir dessa idade, principalmente quando se trata de criança-criança. Entretanto, sabemos que o principal motivo do riso entre as crianças são incongruências visuais ou linguísticas e situações de desobediência, tanto de quem pratica a ação quanto de quem assiste, sendo maior a ocorrência do riso em crianças mais novas enquanto praticam a ação e maior a ocorrência do riso em crianças mais velhas quando assistem a ação.

Num estudo naturalístico sobre sorriso e riso em pré-escolares (BAINUM et al, 1984) encontraram interação entre tipo de expressão e idade. Crianças de três anos riam significativamente menos que aquelas de quatro ou cinco anos. As mais velhas sorriam menos que as mais novas, embora o sorriso predominasse sobre o riso em todos os níveis de idade. Foi feita, ainda, uma análise de contexto: 55% dos eventos cômicos foram classificados como neutros ou indeterminados (o observador não conseguia inferir uma intenção); dos eventos restantes, 745 foram classificados como positivos (o humor era utilizado de forma afirmativa, beneficiando ou chamando atenção para outra criança ou evento) e 42 como negativos (o humor era utilizado para ridicularizar, atacar ou diminuir). Os eventos negativos aumentaram significativamente com a idade.

Seguindo os estudos que foram apresentados conseguimos entender que o riso, muito mais que apenas uma resposta a um estímulo percebido, é tanto uma forma de nos aproximarmos de outras pessoas (como no caso do bebê que sorri em busca de novos estímulos, de proteção e cuidado) ou quando desejamos nos livrarmos de situações incongruentes ou com um certo nível de desconforto .

“AMBROSE (1963) interpreta o riso como uma expressão de ambivalência. (…) O riso expressa uma tendência predominante de manutenção de uma situação estimuladora, mas com uma mescla de uma tendência de terminação da situação estimuladora. É o resultado de prazer impregnado de medo-raiva.”

Alguns estudos mais recentes tentam explicar porque pessoas riem mesmo diante de piadas com conteúdo pejorativo, morte, tabus sociais ou morais. Depois de vários testes os pesquisadores chegaram a conclusão de que as pessoas podem achar piadas desagradáveis engraçadas se elas saírem de alguma forma como benignas, sem ferir alguém ou alguma coisa. Segundo o estudo, o distanciamento do real também pode fazer a piada ficar muito mais engraçada, por exemplo, as pessoas dão risada de um amigo batendo no outro porque sabem que eles não estão realmente se ferindo. Outro fator que interferiu nas respostas dos grupos de estudos foi o distanciamento mental da ação, as pessoas que se encontravam mais distantes do acontecimento tendiam a achar aquilo mais engraçado do que pessoas muito próximas a ele.

“Segundo LORENZ (1966), o riso desenvolveu-se provavelmente por ritualização, a partir de um movimento de ameaça reorientado. Como este, o riso faz imediatamente nascer entre os participantes um forte sentimento de camaradagem, junto com uma ponta de agressividade contra os que não fazem parte do grupo.”

Depois de ler bastante artigos e estudos sobre o sorriso e o riso, consegui me lembrar claramente de duas situações que me mostravam como essa interação social era tão importante e tão fortemente ignorada por todos nós. A primeira é bem recente, eu já estava com todas essas dúvidas passando na cabeça então, acho que consegui avaliar a situação melhor que a maioria dos meus amigos que estavam presentes na sala naquele momento, aonde uma das minhas amigas contava sua primeira experiência sexual com um homem envolvendo penetração. Claro que eu considero isso um assunto muito natural e que podia ser falado abertamente ali naquele lugar, com aquelas pessoas, todas muito próximas e confiáveis, mas, não daquela forma.

Diante da fala da minha amiga estavam escondidos vários tabus sociais criados pelo machismo, aonde a mulher é objeto sexual de obtenção do prazer do homem. Também estavam implícitos ali, no meio do tom de ironia e sarcasmo, a falta de traquejo sobre o tema, tanto de quem falava, quanto de quem ouvia. Era nítido em todo mundo um desconforto social com aquela situação. As pessoas estavam rindo e não sabiam do que estavam rindo. Algumas estavam rindo apenas por não saber o que responder e outras por querer fazer parte do grupo que achava graça.

A segunda coisa que me lembrei foi a entrevista que o Criolo deu durante uma apresentação sua no showlivre em 2011. O entrevistador, Clemente, diz que recebeu uma pergunta “sacaneando” Criolo: “Ele não parece o Freddie Mercury, só que com barba!?”. O artista responde: “Pô, legal! Pô, muito bom! É um ícone, um baita artista!”. Ao fundo, muitos risos, inclusive do apresentador, que continua: “As coisas que ele está falando é que esses caras são ‘boiolas’ e ele não é ‘boiola’, entendeu!?”.

Criolo responde com toda sua grandeza de gente:

Bom, parece que o cara já sabe se posicionar quanto ao que ele considera engraçado. Ele não precisa mais do riso ou do sorriso para manter uma relação de interação social ativa, porque ele não considera essa interação social sadia pra ele. Ao meu ver, deveria ser assim que pessoas grandes se posicionam diante de uma ‘piada’, você ri se realmente achar engraçado, se não achar engraçado ou você explica porque não teve graça, ou você pergunta se não entendeu alguma coisa. Simples.

Agora, o que você acha engraçado já é um problema seu. Um ponto de vista particular seu. Afinal, essas mesmas pesquisas sobre a graça do humor pesado em filmes de comédia mostraram que eles costumam ser muito mais aceitos em sua cultura de origem, já que as formas com que as violações podem ser benignas diferem de cultura para cultura e a minha intenção aqui está longe de ser a de definir o que deve ou não ser engraçado. Eu só espero que, da próxima vez que você rir de alguma coisa, seja por ela realmente ser engraçada e não por um condicionamento de ação infantil com medo de ser rejeitado socialmente por uma maioria.