Se eu sou polêmica o problema é seu.

Desde pequena eu fui a “criança problema”. Sempre. Na casa da vó paterna eu era a muleca. Na casa da vó materna eu era a polêmica. Sou ainda. na escolinha, a menina que brigava com os meninos mais velhos. Na escola, mais velha, a aluna rebelde. Nos treinos, a baixinha nervosa. Em todos os namoros eu, também, era problema demais. “Polêmica” sempre foi a primeira qualidade que eu recebi, em qualquer situação. Salvo raros anjos que apareceram na minha vida, como meus pais, minha irmã e minha madrinha e, recentemente, um bom grupo de amigos.

Em uma fase da vida eu repensei, não podia eu estar certa e todo mundo errado, eu realmente era um problema. Qual era o meu problema? Não soube dizer. Minha solução foi ler, ler, ler e ler. Algum santo deveria saber me explicar o que estava acontecendo. Mas, quanto mais eu lia, mais polêmica eu causava. A ignorância é, realmente, uma benção.

Quando entrei na faculdade, achei que eu ia deixar de ser um problema. Grande engano! Mal entrei, ainda caloura, eu já era um problema. Desisti! Se não podia deixar de viver e, vivendo eu era um problema, então, que fosse o menor deles. Sufoquei-me.

Foi então que, em uma dessas leituras diárias pra auto conhecimento, li uma frase que me fez respirar um pouco: “A polêmica supre a ignorância e a inércia.” Genial. Realmente, grande parte dessas pessoas que me chamavam de polêmica, ao meu ver, só estavam acomodadas e com preguiça de tomar uma atitude ou, ao menos, falar sobre esse incômodo. A outra parte, era massa.

Eu estava livre de novo.

foda-se essa porra toda.

Foi quando, recentemente, em uma discussão machista e sem sentido, uma pessoa que eu gosto muito, disse que eu não tinha limites. Momento de raiva. As pessoas tem isso. Eu deveria entender que aquele cara não está pronto ainda pra vida adulta e não sabe dialogar. Mas, de alguma forma, mais uma vez, eu ser polêmica era um incômodo nas minhas relações. De novo a mesma dúvida de uma vida inteira: Qual é o meu problema?

Essa dúvida ficou na minha cabeça. Latejando. Todos os dias depois da discussão. Todo tempo. Na ceia de natal, quando a família começou a discutir, eu sai de perto. Chorei baixinho. Malditos problemas que eu não consigo resolver.

Foi então que, um dos meus melhores amigos, a pessoa que me conhece melhor que minha mãe e, também, meu ex namorado, me emprestou um livro do filósofo indiano Krishnamurti, disse que eu iria gostar de ler. Acertou. O livro é incrível. Mas um pequeno trecho, logo no início do livro, deu resposta a minha dúvida e acalmou de novo meu coração. Esse amigo não está até hoje na minha vida sem motivo, tão pouco o empréstimo desse livro tão estimado por ele. O universo, realmente, sabe o que faz. Segue abaixo o trecho que me chamou tanta atenção:

“A maioria dos jovens é descontente, mas por desgraça o seu descontentamento é canalizado, padronizado: tornam-se paredros de classes, clérigos, funcionários de bancos, gerentes de fábricas e aí param. Obtêm um emprego e em pouco tempo o seu descontentamento definha e fenece. O manter esse descontentamento desperto, vigilante, é demasiado difícil; mas é o descontentamento, esse constante indagar essa insatisfação com as coisas como estão — com o governo, com a influência dos pais, da esposa ou do marido, com tudo que nos circunda — que faz viver a inteligência criadora. 
(…)

Com o mundo desabando estrondosamente bem perto dos nossos ouvidos, estamos discutindo sobre se um indivíduo deve pertencer à esta ou aquela casa, ou se pode pôr as vestes sagradas, ou que espécie de cerimonia deve executar — denotando tudo isso uma absoluta falta de pensamento, não achais?

A vida exige ação extraordinária, criadora, revolucionária. Só no despertar dessa inteligência criadora há possibilidade de viver num mundo pacífico e feliz.”

Bom, eu sinto muito pelas pessoas que eu estou incomodando. Ou não. Só quero dizer que, essas minhas atitudes que por muitas vezes são repreendias como rebeldias, realmente, são rebeldias. Mas, não vão ser repreendidas! Aceito argumentos. Aceito o diálogo. Não aceito imposições! Eu não sou filha de um sistema e não aceito nenhum como guia inquestionável. Eu sou um ser humano, consciente das minhas ações e posso pensar por mim mesma. Não tenho propriedade pra julgar o certo e o errado universalmente e, por este mesmo motivo, não aceito padrões seculares nas minhas costas. Eu vivo todo tempo, apenas, nesse mundo completamente do avesso, tentando prejudicar o mínimo de pessoas possíveis com cada atitude minha. Agora, das decisões que só competem a mim: cuido eu mesma. Obrigada.

Enquanto isso:

Eu vou continuar falando de sexo nas redes sociais abertamente. Eu vou continuar falando sobre preconceitos no grupo de amigos. Eu vou continuar falando sobre humilhação nas brincadeiras sem graça. Eu vou continuar falando sobre violência doméstica na reunião da família. Eu vou continuar falando sobre machismo nos meus relacionamentos. Eu vou continuar questionando todas as religiões que me forem apresentadas. Eu vou continuar usando a roupa que me der vontade. Eu vou continuar andando sozinha pela rua. Eu vou continuar lutando pela legalização do aborto. Eu vou continuar lutando contra a homofobia. Eu vou continuar lutando pela descriminalização da maconha. Fumando. Eu vou continuar lutando a favor do amor. Livre. Eu vou continuar lutando por liberdade.

Passar bem.

E feliz ano novo.