Temperaturas e Chá.

Pluma gostava do seu chá gelado, assim como a temperatura do dia. Talvez os dias não devessem ser tão gelados quanto seu chá, mas certamente um meio termo seria aceitável.

Eram 13:31 e faltavam exatamente 29 minutos para que seu expediente acabasse, mas hoje, diferente dos outros dias, ela não queria ir embora. Hoje era dia de enfrentar seus problemas de frente e Deus, como isso era complicado. Por que temos que supervalorizar algo, dar dimensões gigantes e não só resolver? Pluma tinha a teoria de que todos nós gostamos de transformar a vida em uma novela mexicana. Um pouco por egocentrismo, todos gostam de ter histórias emocionantes para contar, histórias são o que aproximam pessoas. A parte restante já é como uma venda, uma névoa que nos impede de enxergar o óbvio. E ver o óbvio as vezes dói tanto.

O relógio gritou que as 14:00 horas haviam chegado. Desligar o computador parecia uma tarefa tão difícil, levantar então, parecia parcialmente impossível. “Como uma história tão pequena poderia me afetar tanto?”, como coisas pequenas afetam tanto as nossas vidas? A questão é que deixar ele ir — mesmo sem nunca ter se fixado — era um tanto quanto complicado. Tirar o amor, os títulos que colocamos sob pessoas é uma tarefa difícil. Tirar todos esse títulos dele seria complicado. Mas Pluma sabia que as vezes juntamos tantos, tantas colocações para jogar em cima de alguém que esquecemos os títulos próprios que elas já carregam e o peso que eles agregam. No fundo, ela sabia.

Depois de todo processo para levantar e todos os apoios morais que as milhões de mini-plumas em sua cabeça gritavam, finalmente foi possível chegar até o metrô e começar o caminho para o bar em que marcaram de se encontrar. 15:30 era cedo para se estar em um bar? Era sim. Mas o fator sexta-feira junto ao fator amigos diminuía a culpa por estar lá tão cedo enquanto em casa dormiam eternamente em berço esplendido todas as coisas que deveria fazer. Como seria falar com ela depois de notar o que estava acontecendo? Eles estriam juntos, juntos? Esconderiam os gestos até que Pluma fosse embora? Ou assumiriam e que tudo ao redor que se adapte? Será que a força do destino era tão grande que a unica solução era simplesmente aceitar? Mas Pluma e ele tiveram seus momentos, tiveram sua história e ela estava lá com eles, ela viu o que acontecia. Tudo isso será esquecido? Será que naquele tempo todo esse sentimento já estava presente? Eram tantas perguntas que Pluma não queria chegar a essa conclusão, assim como não queria que a estação chegasse e ela os encontrasse. Mas chegou. E era hora.

Saiu do metrô, caminhou pela estação e saiu finalmente a luz do dia. A temperatura, que antes era mediana, agora estava quente. Um chá gelado refrescaria agora. Mais alguns passos forçados e finalmente a fachada do bar estava em sua frente e de lá já era possível ver todos sentados em uma mesa, conversando e rindo. Onde eles estavam? Pluma ajeitou seus óculos mas ainda assim não conseguiu ver, isso era um empurrãozinho para que ela entrasse logo? Se não fosse, agora é.

A mesa estava cheia de alguns rostos conhecidos e outros nem tanto. Pedro havia levado a namorada, Alice estava com sua filha e como ela tinha crescido! Clara, Rodrigo e Yas ainda eram o trio mais engraçado de todos os lugares que passavam e os dois… bem, ainda eram os dois. Ainda sentavam um de frente para o outro, ainda tinham os mesmos sorrisos e nada (nada) parecia diferente do habitual. Ela ainda parecia entendiada demais para estar ali e ele continuava com a mesma energia boa. Não haviam gestos escondidos, não houve adaptação e nem um clima pesado. Pluma apenas sentou, tomou seu chá e conversou como se nada tivesse acontecido ou a amedrontado por toda manhã. Tudo combinava. O tempo, a temperatura, o chá, as pessoas… Eles.

Havia algo, que mesmo sem querer, juntava um ao outro. Os dois se prendiam mesmo sem amarras. Isso só poderia ser obra de algo que Pluma não tem a capacidade (e nem o poder) de entender. São laços existentes em todos os lugares, em todas as pessoas. Era uma história pequena, que por ser pequena, se tornou tudo isso que é. Não há como ter raiva quando algo é pra ser e diga-se o mesmo de quando não é. São títulos conjuntos, diferentes dos antigos. Não pesam mais, agora dividem o peso. As mini-plumas em sua cabeça já não gritavam, agora descansavam, leves, aproveitando o sol e o chá de abacaxi que estavam ao seu alcance.

Naquele dia, Pluma sabia que histórias foram escritas. Histórias das quais ela participou e gostará de lembrar. Assim como vai lembrar da história que teve com ele, sorrir uma ou duas vezes e ter a certeza de que nada perde a intensidade só porque outra história começou. Há lugar pra tudo, mesmo que as conclusões não sejam tão claras.

O dia acabou com tudo se encaixando — desde o sabor do chá á conversa e o clima. Terminou mais fácil do que parecia ser. Pluma agora sabia que ao redor havia muita coisa, coisas maiores, até. E aceitar mudanças não era ruim.

Era como temperatura e chá. Há sempre uma combinação possível.

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